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O que é que queremos à chuva?

Conheço uma historieta do GP da Alemanha de 1968, corrido no Inferno Verde de Nordschleife. Quando Jackie Stewart cortou a meta no primeiro lugar, a primeira pergunta que fez a Ken Tyrrell foi: "Quantos morreram?", ao que o velho madeireiro disse: "Nenhum". Era o dia 7 de agosto, e desde abril que morria um piloto naquele dia. Primeiro, Jim Clark, depois Mike Spence, Ludovico Scarfiotti e Jo Schlesser. Algum dia, tinha de acabar. 

Hoje em dia, uma corrida como essas seria imediatamente cancelada. E não falo so da chuva, falo também do nevoeiro que havia naquele dia, em algumas partes daquele circuito monstro de 23 quilómetros. Com uma coisa dessas, ou riscavam a corrida do calendário ou adiariam para outro dia, com os espectadores a questionar porque é que correriam em circunstâncias como aquelas. Ali, naquele tempo, não havia escolha. E não só muitos aceitavam como achavam que teria contornos de épicidade, que entrariam nos livros de História. 

Nos vinte anos após a II Guerra Mundial, os Pilotos de Formula 1 tinham em estatuto semelhante aos pilotos das Forças Aéreas, os ases dos ares. Eram heróis, e as suas mortes em combate abririam portas à imortalidade, com funerais de estado. Os poetas cantariam loas à sua coragem e os seus adversários carregariam o seu caixão, honrando com a sua presença. 

Agora, não pode ser assim. Tudo mudou, os tempos são agora outros. Os circuitos mudaram, os carros mudaram, os pilotos mudaram. Vivemos numa altura em que a segurança é mais importante do que a coragem, do que o medo da morte. Vão ver o que as marcas estão a anunciar. Potência, velocidade? Não, segurança. Não é mais a velocidade ou a potência que a FIA vende. Vão lá ver qual é o "mantra" de Jean Todt: segurança, especialmente segurança na estrada. Ignoramos que todos os anos, milhão e meio de pessoas morrem em acidentes de estrada, por exemplo. 

Niki Lauda dizia que sempre que ia para a pista, nos anos 70, de que tinha uma chance de 20 por cento de um acidente mortal, e aceitava isso. Agora, ninguém aceita. É uma atividade altamente escrutinada, e o fã esquece sempre que não é algo que se vê por apenas meia dúzia de pessoas, é vista por milhões um pouco por todo o mundo, nesta aldeia global. E se tens uma morte, essas pessoas - que não entendem nada de automobilismo, mas vêm o que vêm - vão perguntar porque não fazem nada para evitar mais mortes. Podem chamar o que quiserem, que é "F1 Nutella", mas esses fãs "die harders" são cada vez mais uma minoria, numa maioria que não tolera mais o desporto de gladiadores que muitos acham que o automobilismo deveria ser. 

E pior: essa gente não aceita que os tempos mudaram. Podem ver a discussão sobre o Halo. Não dizem que é inseguro, dizem que é... feio. Mas essa gente ainda vive no século XX quando já estamos na segunda década do século XXI. 

Claro, o que vimos esta tarde em Monza começa a ser um exagero. Será que é pelo excesso de segurança ou algo mais? Disseram ao longo da transmissão que os pneus Pirelli não são capazes de andar tão bem no molhado como no seco. Se assim for, então poderemos dizer que os pneus azuis servem para pouco mais do que mera decoração. E depois começo a pensar se eles não vão começar a pensar em proibir as corridas à chuva, como fazem a IndyCar nas ovais. Espero que não, acho que seria demasiado radical.

Mas aos que dizem que no passado não era assim, que tudo é "frescura" de Jean Todt, quero recordar que, por exemplo, os GP da Austria de 1975 e o do Monaco de 1984 foram intrerrompidos a meio da prova e os pilotos receberam metade dos pontos, o GP da Austrália de 1991 acabou na volta 14, e o GP de Portugal de 1985 acabou algumas voltas antes do esperado porque chegaram ao limite das duas horas. E sei que nessa corrida, o Ayrton Senna fez várias vezes sinais para a sua boxe para que interrompessem a corrida. Sem efeito. 

Mas falamos de corridas da geração anterior. A ideia de que nesses "gloriosos anos" os pilotos iam para a pista, não interessam as condições, e ali é que se viam os "pilotos de verdade", de uma certa forma, tem o seu quê de mito. Como viram, eles tinham tanto medo como os pilotos desta geração, e tinham de engolir para irem à pista e correr. Hoje em dia, os carros são mais fortes, mas ali já é mais a politica. Foi como aconteceu a Jules Bianchi em Suzuka, apesar das circunstâncias terem sido mais por causa de um trator que não deveria estar ali, numa altura de lusco-fusco. 

Se amanhã chover, saberemos que a prova terá um limite. Não poderá durar mais do que quatro horas, veremos corridas aos repelões, com amostragens das bandeiras vermelhas e partidas atrás do Safety Car. Não gostamos, os fãs mais duros odeiam isto, querem ver uma corrida do inicio até ao fim sem interrupções porque viram como era no passado. Se saíssem da pista em "acquaplanning", diriam que tinha a ver com condições. Mas no passado, tinhamos carros feitos de alumínio com depósitos de gasolina ao lado do piloto, e eles usavam capacetes abertos. Hoje em dia, não vejo reclamações e que os pilotos deveriam voltar a esse tipo de carros e de capacetes. Talvez sejam as pessoas que não querem ver morrer uma certa ideia romântica que tiveram da Formula 1. Mas também se esquecem que a geração mais nova não vai viver isso sem ser nos videos do Youtube e nas fotos do Pintrest. E vão perguntar aos mais velhos porque é que os deixavam ir para a pista, sabendo que teriam um risco muito alto de morte.


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