Get Even More Visitors To Your Blog, Upgrade To A Business Listing >>

O carnaval dos alienados

Coluna de Carlos Andreazza, publicada pelo jornal O Globo:


A Beija-Flor faz 70 anos. Comemorará na Sapucaí. Trata-se de uma história de sucesso, mais alto estandarte de como o carnaval das escolas de Samba tornou-se cativo da associação entre Estado e crime organizado — sociedade cuja plena constituição só será conhecida uma vez desbaratada a Liesa, organização cuja existência, em 2019, explica o Rio de Janeiro, talvez o Brasil, e cuja permanência se sustenta sob a cumplicidade do poder público e a complacência da iniciativa privada, e com o entusiasmo, não raro a adesão, de parcelas influentes do jornalismo.

Diz a letra do samba (mediano) da Beija-Flor: “Meu pai direcionou o meu destino”. O papai é o bicheiro. A “direção do destino”, eufemismo para a blitz por meio da qual tomou a escola para si, no bojo de expurgos e cassações que lhe dariam também o domínio político de Nilópolis.

A ascensão da família que possui a Beija-Flor passa pelo controle do jogo do bicho naquele município e arredores tanto quanto pelo apoio à ditadura, parceria demonstrada na colaboração para limpar a Baixada de adversários do regime e de pequenos bandidos. Prática miliciana que contaria com a cooptação de agentes da repressão nas Forças Armadas e na polícia. Por isso enoja ouvir, no samba da Beija-Flor, o verso em que a escola se canta como “algoz da intolerância”; agremiação, de resto, que já venceu carnaval exaltando tirania africana.

Alguns dirão que é detalhe e que a história desses porões vai amortecida num conjunto virtuoso de tradições culturais que deveria prevalecer. O jornalismo carnavalesco, ainda que composto por notórios militantes contra a opressão, é um que opera sob a lógica da exceção momesca; aliás, definida em mais um dos versos da Beija-Flor: a moçada “esquece a dor e só quer sambar”. Daí por que se deixe levar pela propaganda, transformada em reportagem, de que uma agremiação como a de Nilópolis ora passe por um processo de modernização, isto apenas porque o jovem filho do contraventor ganhou a direção da escola de presente e vem com papo de renovação e de práticas empresariais de última geração, sem ser perguntado, porém, sobre se a fonte pagadora da conta também é nova ou continua sendo o movimento do bicho.

Há também o caso do samba da Mangueira, segundo o qual, no Brasil, desde 1500, teria havido “mais invasão do que descobrimento” — isto a ser entoado por uma escola em cuja quadra, não faz muito, havia passagem secreta para livre trânsito de traficantes. A obra é uma beleza. Uma ode à hipocrisia, mas uma beleza. Houve quem a apregoasse até como hino do Brasil. Decerto porque faz homenagem a Marielle Franco. Tomo, contudo, a liberdade de propor uma reflexão aos mistificados.

Marielle foi exterminada pelo escritório do crime, braço matador da milícia criado para servir às necessidades facínoras de bicheiros e políticos, sócios cuja articulação concebeu algo como a Liesa, produto da cultura de intendência militar aplicada à lógica da contravenção, e fomentou a existência pública de líderes como o atual presidente da Mangueira, deputado estadual e preso, agente do esquema que sequestrou o Estado do Rio via Alerj, o sujeito que paga ao carnavalesco badalado que criou o enredo que celebrará Marielle — e que enreda apostando na alienação.

Quem matou Marielle?

Quem matou Marielle organiza o gurufim. Vai quem quer. Mas isto não faz menos asqueroso ouvir escola de samba reverenciando “quem foi de aço nos anos de chumbo” — isto porque escolas de samba, com raras exceções episódicas, estiveram ao lado do chumbo, algumas das quais devendo o que são a torturadores.


This post first appeared on Ataque Aberto, please read the originial post: here

Share the post

O carnaval dos alienados

×

Subscribe to Ataque Aberto

Get updates delivered right to your inbox!

Thank you for your subscription

×