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Visões do Iluminismo: entre a luz e a sombra.

Editor de O Estado da Arte (Estadão), Eduardo Wolf resenha, para a revista Veja, duas obras recém-lançadas no Brasil, uma de Steven Pinker e outra de John Gray, que oferecem visões opostas do Iluminismo: "motor do progresso humano, segundo o cientista, credo ilusório na razão, segundo filósofo":

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Em um de seus mais famosos discursos, Barack Obama sintetizou o credo dos otimistas de nosso tempo. “Se você tivesse de escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer”, disse, “você escolheria agora.” O então presidente americano fazia essa afirmação com base nos fatos: na história de longo curso, a vida melhorou para os seres humanos sob praticamente qualquer aspecto que se considere. Não é por acaso que essa citação aparece no mais recente livro do psicólogo evolutivo canadense Steven Pinker, O Novo Iluminismo. Em suas mais de 600 páginas, o professor da Harvard escreve, com a elegância e a fluência que lhe são características, uma defesa militante do que considera ser a razão que nos trouxe a essa condição tão positiva. Sua resposta é inequívoca: o Iluminismo, que na leitura de Pinker se confunde com a própria história da modernidade e do capitalismo ocidental ao longo dos últimos quatro séculos.

Movido pela convicção de que o populismo — o pensamento “contra-­iluminista” que tem em Donald Trump sua encarnação — ameaça o progresso humano, Pinker se dispôs a reunir e divulgar as conquistas que a humanidade obteve graças à razão, à ciência e à técnica, elementos que, para o autor, definem o Iluminismo. A nova mentalidade racionalista e científica — cuja popularidade no século XVIII é ilustrada pela tela do inglês Joseph Wright estampada ao lado, que tem como tema um experimento científico — mergulhou na tarefa de dissecar e conhecer o mundo, fazendo com que a humanidade ingressasse em um longo e continuado período rumo ao progresso material e moral. Os dados que fundamentam com fartura a argumentação rápida e sedutora de Pinker são extraordinariamente positivos. Nos últimos dois séculos, sobretudo, a expectativa de vida foi às alturas; as taxas de mortalidade infantil baixaram, e doenças foram erradicadas; o enriquecimento global é um fato comprovado; e mesmo em áreas como segurança e meio ambiente há números positivos. Agora, avisa Pinker, é hora de defender esse legado e esses resultados contra os populistas, os crentes, os pessimistas e demais opositores da grande herança iluminista.



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É um livro excelente. Só não é um livro sobre o Iluminismo. Trata-se, antes, de um exercício de divulgação dos progressos materiais da humanidade obtidos sob o capitalismo e o liberalismo democrático, tendo a ciência e a tecnologia como carros-chefe — pois é especificamente a partir do progresso da ciência que os diversos tópicos abordados em O Novo Iluminismosão analisados, sempre, é verdade, com muitos dados, fontes e bibliografia atualizada. O otimismo acrítico de Pinker, porém, raramente oferece mais que interpretações convencionais de cada assunto (a exceção é o tema do meio ambiente). O autor escreve sobre a história do Iluminismo — e sobre desigualdade social, democracia, paz… — com entusiasmo contagiante, bom humor e melhor prosa. Mas é impossível não reconhecer que, em geral, se trata de um exercício diletante.

Há erros conceituais. Pinker afirma que a Declaração de Independência dos Estados Unidos é “o produto mais famoso do Iluminismo”, o que é no mínimo duvidoso: nem a independência foi articulada como a concretização política de um movimento intelectual específico, nem o caso americano teve, na história, a primazia e a exemplaridade no terreno dos feitos iluministas — a filósofa alemã Hannah Arendt queixou-se de que a independência americana “permaneceu um evento de importância pouco mais que local”, enquanto a Revolução Francesa, que “terminou em desastre”, influenciou o mundo. Quando analisa o fenômeno do nazifascismo — um problema para sua leitura linear da história humana como progresso material e humano continuado —, Pinker se sai pior: o período mais terrível do século XX é creditado a “românticos, utopistas e contrailuministas”. Carente de uma imagem mais nuançada do Iluminismo, reduzido a uma forma de cientificismo racionalista, o livrão de Pinker deixa de fora as reflexões prudenciais do iluminista escocês David Hume, para quem a razão, uma vez convertida em objeto de crença inabalável, resultaria em um dogma perigoso. Talvez nada disso importe, pois, antes de o que informar ou analisar, o livro busca confortar: tudo vai bem, e ficará ainda melhor, desde que as pessoas certas com as convicções certas — Pinker e seus colegas de crença — conduzam a carruagem da humanidade.

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Pinker, o otimista, e Gray, o cético.
O problema é que, às vezes, a humanidade vai para outras direções. Poucos autores são tão conscientes dessa natureza errática da humanidade quanto o filósofo britânico John Gray, que primeiro na Universidade de Oxford e depois na London School of Economics, onde se aposentou em 2008, se especializou na tradição do pensamento liberal europeu. Desde Cachorros de Palha (2002), sua obra tem se aproximado de um certo ensaísmo literário, marca também de A Alma da Marionete, recém-lançado no Bra­sil. Gray retoma, nesse livro breve, o ceticismo com que trata os mitos das sociedades contemporâneas — mitos que incluem os amuletos favoritos de Steven Pinker: o projeto iluminista, sua crença no progresso e sua fé na ciência. Gray — que publicou resenhas devastadoras de O Novo Iluminismo e do livro anterior de Pinker, Os Anjos Bons da Nossa Natureza — vem construindo uma sólida linha de análise conceitual para mostrar que a modernidade pariu suas formas especiais de credo religioso. As ideologias políticas são uma delas (e nisso Pinker está de acordo). Outra é justamente a fé no progresso e na ciência. Em A Alma da Marionete, o filósofo se volta não para as grandes ilusões exteriores do Iluminismo, como o progresso, mas sim para a vida interior: a liberdade humana é o seu tema, e suas conclusões podem parecer bastante sombrias. Partindo de um surpreendente ensaio do (obscuro) escritor alemão Heinrich von Kleist, Gray questiona a crença convencional de que o ser humano é dotado de consciência e liberdade únicas entre os seres vivos — o que chamamos de livre-arbítrio. Sua cética, lúgubre e resignada proposta é reconhecer que o conflito interior, e não a liberdade, caracteriza os seres humanos, e que entre os muitos males que o projeto iluminista nos trouxe está sua convicção do aperfeiçoamento humano por meio da consciência individual.

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Declaração da Independência americana.
 Marcados por uma natureza pessoal conflitiva, cercados por violência e incapazes de progredir, não fazemos, nós, seres humanos, grande figura na obra de Gray. Pode ser uma demasia, um exagero simétrico ao entusiasmo de seu rival no grande mercado de ideias atualmente, Steven Pinker. Onde estará a verdade? No pessimismo literário e filosofante de Gray ou no entusiasmo engajado de Steven Pinker? Talvez melhor do que responder convencionalmente que a verdade está “no meio-termo” seja afirmar que ela está dispersa, indo por toda parte. Como nós, sem direção, mais acidentes do que propósitos.

Publicado em VEJA de 12 de setembro de 2018, edição nº 2599


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