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Procurando Nemo

2018 foi marcado como um ano complicado para a sociedade. Os humanos se esforçaram: teve crise econômica maluca, bombardeio de muçulmanos, decapitação em massa de cristãos, multiplicação de pedidos de impeachment e lançamento de muito filme de herói no cinema. Mas não chegaram nem perto da mãe natureza. A doença do século, conhecida como Mal Pisciano, foi o que efetivamente entrou para os livros de história. Curiosamente, começou a se alastrar em locais interioranos e secos. Ali para novembro, apareceu simultaneamente em três focos: o Saara, o sertão brasileiro e o deserto de Gobi. Destes três pontos, expandiu sua área para as zonas litorâneas mais populosas e, de lá, para todo o globo. Ao fim, dizimou algo próximo de 75% da população mundial.

O vírus causador do Mal atua diretamente no DNA das células do homem. Altera determinadas informações que não vale dissecar. Certo é que, em somente três dias, o corpo humano é inteiramente substituído pelo corpo de um peixe. Um desses grandes. Tipo um bacalhau. Da Gisele Bundschen ao mendigo, todo mundo vira bacalhau. Passados os três dias, há de se colocar o enfermo na água para que ele não morra. É incurável e estudo algum consegue aferir com 100% de segurança se o peixe oriundo dessa mutação guarda ou não a consciência do outrora humano.

Por isso, o carnaval de 2019 foi um fracasso. Ninguém foi ao show da Ivete em Salvador. Nem ela. O galo da madrugada ficou vazio. No Rio, nada de desfile de escola. O carnaval de São Paulo foi o que sempre foi. Antes, nem o sapinho e nem a AIDS tinham conseguido tal façanha. Os foliões de todos os cantos do país se intimidaram. Ainda que o meio de contágio não fosse totalmente esclarecido, ninguém quis se arriscar. A festa do povo sumiu.

Neste quadro apocalíptico é que nasceu a lenda de Dona Aurora.

Não se sabe muito bem quais foram os seus motivos. Uns dizem que tomou um pé na bunda pouco tempo antes, outros atestam que desenvolveu algum trauma depois que seu marido faleceu num aquário na sala de casa. Apenas uma coisa é certa: Dona Aurora, definitivamente, estava doente. Segundo estimativas de especialistas, no segundo dia de contágio. Mesmo sem contato direto com ela, o chute se faz viável em razão de a história narrar que as pernas de Dona Aurora já tinham virado uma cauda.

Era terça de carnaval e fazia um calor tremendo. Coisa de 40°C. Diz-se que, sozinha, Dona Aurora chegou à Av. Rio Branco, centro do Rio. Estava de cadeira de rodas e fantasiada de sereia. Tinha em mãos três garrafas de cachaça e um radinho de pilha tocando marchinha. Sozinha, bêbada e feliz, fez seu próprio bloco. Cantava, bebia e arrastava sua cadeira. Desceu a Rio Branco, pegou o aterro e foi até Copacabana. Passou a tarde toda no percurso. Já no começo da noite, foi para as areias da praia e mergulhou no mar, onde nunca mais foi vista.

Toda essa história foi juntada por relatos esparsos. A maioria dita por pessoas que flagraram a sereia de suas janelas. Certo é que, verdade ou não, dos 25% da população que eram imunes, parte gostava de carnaval. Pelo espírito de Dona Aurora, ela virou tema de escola de samba, a fantasia de crianças mais vendida, marca de cachaça, nome de livro e ganhou uma minissérie na Record. Minissérie na Record. Duvido que ela fosse gostar desta última homenagem.



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