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8º Fórum Mundial da Água

Chefes-de-Estado-e-autoridades-ligadas-a-organismos-internacionais-chamaram-a-atenção-na-abertura-do-8º-Fórum-Mundial-da-Água-700x468 8º Fórum Mundial da Água Chefes de Estado e autoridades ligadas a organismos internacionais chamaram a aten    o na abertura do 8   F  rum Mundial da   gua 8º Fórum Mundial da ÁguaA abertura do 8º Fórum Mundial da Água, com o tema “Compartilhando Água”, em Brasília,  contou com a presença de 12 chefes de estado e governo, além de representantes de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas e suas agências, a União Europeia, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, entre outros.

O Fórum também contou com a presença de 56 ministros e 14 vice-ministros de 56 países, 134 parlamentares de 20 nações diferentes, além de autoridades locais como prefeitos e governadores. Outra inovação citada foi a participação do Poder judiciário, com a presença de 83 juízes, promotores e especialistas de 57 países.

Ao abrir o evento, o presidente do Brasil, Michel Temer, enfatizou o ambiente proporcionado pelo Fórum para troca de experiências e aprendizado. “A sustentabilidade hídrica requer ações integradas dentro de nossos países e entre nossos países. As soluções que buscamos são coletivas, com diálogo e cooperação”, indicou. Além disso, Temer destacou que assegurar o acesso à água é questão de dignidade e que é esse o propósito que une todos em Brasília neste momento.

O esforço em prol do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foi apontado como essencial pelo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg. Segundo ele, isso passa pelo diálogo e pela busca de soluções conjuntas. “Precisamos compartilhar água, para isso precisamos compartilhar saberes, culturas, opiniões, ideias e experiências. Devemos cooperar, governos e sociedade, como propõe um dos ODSs. Devemos ouvir as vozes de todos os lugares do mundo”, pontuou.

Para o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, a oitava edição do Fórum deve comprovar que o compartilhamento é um incentivo para melhorar a governança. “A água precisa estar no centro da agenda dos governos, com comprometimento de vários setores. Precisamos de investimentos para garantir a segurança hídrica, além de um pensamento inovador e adaptativo que possa prevenir crises vindouras. Isso pode ser feito por meio da gestão compartilhada de recursos hídricos”, indicou Braga.

A cerimônia no Itamaraty contou com a presença de vários chefes de Estados e outros líderes mundiais. Estiveram também presentes os presidentes da Hungria (János Áder), de Cabo Verde (Jorge Carlos Fonseca), da Guiana (David Granger), da Guiné-Bissau (José Mario Vaz) e de São Tomé e Príncipe (Evaristo Carvalo), os primeiros-ministros da Coreia do Sul (Nak-yeon Lee), do Marrocos (Saad Dine el Otomani), do Senegal (Mouhammed Dione) e Mônaco (Serge Telle), além do príncipe-herdeiro do Japão (Naruhito).

A cerimônia ainda teve a participação do presidente da Assembléia Geral da ONU (Miroslav Lajcák ) e da diretora-geral da Unesco (Audrey Azoulay), entre outras autoridades internacionais.

O diretor executivo da Agência Nacional de Águas (ANA), Ricardo Andrade, relembrou a trajetória de construção democrática desta oitava edição do Fórum e a extensa programação do evento até o dia 23 de março. “Nesta semana, Brasília não será apenas a capital do Brasil, será também a capital mundial da água”, destacou Andrade, que também é diretor executivo do 8º Fórum Mundial da Água.

Paulo Salles, diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), também chamou atenção para os aspectos relacionados à temática geral do Fórum. “O compartilhamento é também de responsabilidades sobre a água. É isso que queremos deixar como um dos mais importantes legados do fórum: não existe compartilhamento sem diálogo”, afirmou Salles, que é co-presidente do Comitê Organizador do 8º Fórum Mundial da Água.

A abertura lotou auditório do CCUG, que tem capacidade para cerca de três mil pessoas, e contou com transmissão da cerimônia fechada, que ocorreu no Palácio do Itamaraty, onde autoridades brasileiras e chefes de Estado estrangeiros fizeram pronunciamentos aos participantes do 8º Fórum.

A embaixadora do 8º Fórum Mundial da Água, a jornalista Rosana Jatobá, conduziu a apresentação no auditório do CCUG e destacou que o Fórum é o ambiente ideal para se discutir o tema e firmar um compromisso em prol da gestão hídrica.

Estiveram presentes também na cerimônia de abertura, no auditório do CCUG, o diretor da ANA, Ricardo Andrade; o presidente da Adasa, Paulo Salles; o presidente honorário do Conselho Mundial da Água, Loic Fauchon; o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini; o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Erik Solheim; o diretor da Itaipu Binacional, Pedro Domaniczky; e o gerente de infraestrutura e energia do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), José Agustin Aguerre.

A programação da abertura contou com a apresentação musical da Orquestra Brasília Cello Academia e da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Durante a cerimônia, os Correios lançaram o selo especial do 8º Fórum Mundial da Água pelos Correios, em formato arredondado, com a marca do evento

Escassez e risco de conflitos

O primeiro-ministro do Principado de Mônaco, Serge Telle, também manifestou preocupação com o risco de a escassez resultar em desentendimentos regionais e na morte de milhões de pessoas ao redor do mundo.

“A escassez de recursos nutre conflitos em um mundo que usa milhares de litros de água para a produção de bens de consumo. É uma necessidade ecológica que se reduza dia após dia o uso de nossos recursos de água potável”, disse Serge Telle.

Ele acrescentou que a falta de água potável “é fator de subdesenvolvimento e de desigualdade entre homens”, e que a escassez de água que acarreta em “milhões de mortes” a cada ano. A crise no mundo, segundo ele, acaba por “sacrificar o futuro em nome do presente”.

“A água dá uma realidade a perigos abstratos. Podemos ver isso em imagens de enchentes, nas águas impróprias ao consumo, que propagam doenças e induzem as populações a se deslocarem. A água também mostra a solução a esses problemas, pelo domínio da água e do saneamento”, completou.

O vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mangue, ressaltou que não se pode subestimar a importância da água para qualquer atividade humana. “A água provocou enfrentamento em diferentes comunidades e é a base de inumerosos conflitos. Tratar essa questão não é apenas uma questão de abordagem de seu uso. Tem influência sobre a paz universal”, disse.

Justiça social e futuras gerações  

Representando o país que sediará o 9º Fórum Mundial da Água, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Senegal, Sidiki Kaba, afirmou que o acesso universal à água “é uma questão de justiça social”, e que não se pode considerar esse recurso como sendo inesgotável.

“Governos, sociedade e setor privado têm de trabalhar por uma gestão eficiente e sustentável. A água não deve ser causa de doença. Ela é fonte de vida que deve estar disponível a todos, estancando a sede, nutrindo e cuidando e purificando o bem da humanidade” disse.

Já o primeiro-ministro de Marrocos, Saad Dine el Otomani, manifestou preocupação com a disponibilidade da água para as futuras gerações. “A água não pertence apenas à atual geração. Temos de deixar para as gerações futuras”.

Premiação 

Otomani destacou o engajamento de seu país em promover premiações a projetos que tratam da distribuição e do uso eficiente da água. É o caso do Prêmio Mundial para a Água Hassan II, que foi entregue ao secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurría.

A premiação, oferecida pelo governo de Marrocos, é entregue a cada três anos na abertura do Fórum Mundial da Água e em 2018 tem como objetivo reconhecer iniciativas que garantam solidariedade, inclusão e a segurança hídrica global. Como não pôde comparecer, Gurría enviou um vídeo agradecendo a homenagem e destacando que há pelo menos uma década tem defendido que a organização se debruce sobre a água, junto com outros temas, como a migração.

Gestão de recursos hídricos ganhará reforço com acordos internacionais

Cooperação entre Brasil, Portugal e as Nações Unidas permitirá troca de experiências. O Governo Federal firmou acordos internacionais de cooperação técnica visando o fortalecimento de ações que possam garantir segurança hídrica ao País. As parcerias foram formalizadas durante o 8º Fórum Mundial da Água, pelo ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, e por representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa (LNEC). A experiência brasileira no Projeto de Integração do Rio São Francisco será um dos objetos de colaboração do Ministério, que atua para reduzir desigualdades regionais promovendo o desenvolvimento econômico e socialmente inclusivo.

“Nós estamos trabalhando em conjunto com organizações internacionais para fortalecer iniciativas de parceria do Governo Federal no sentido de garantir segurança hídrica para o Brasil. Segurança hídrica que permita mais produção, oferta de alimentos e que o nosso país possa colaborar com essa luta coletiva para o planeta”, disse Helder Barbalho.

Os acordos vão permitir a troca de informações técnicas, o intercâmbio de especialistas entre as instituições e a elaboração de planos de ação conjunta com propostas a partir das experiências de cada membro. O Projeto São Francisco, maior obra hídrica do País e que hoje já atende a um milhão de pessoas nos estados da Paraíba e de Pernambuco, é um dos temas de destaque para a cooperação entre os países.

País passa a proteger 25% dos oceanos 

O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, anunciou a criação oficial pelo governo brasileiro de dois mosaicos de unidades de conservação (UCs) marinhas – as áreas de proteção ambiental (APA) e monumentos naturais (Mona) dos arquipélagos de São Pedro e São Paulo (PE) e de Trindade de Martim Vaz (ES).

O decreto de criação das unidades já foi assinado pelo presidente da República, Michel Temer.

O ministro lembrou que, com a criação das UCs marinhas, o Brasil amplia de 1,5% para 25% a sua área protegida na zona costeira-marinha, ultrapassando os 17% recomendados pelas Metas de Aichi, um conjunto de ações que devem ser assumidas pelos países para deter a perda de biodiversidade planetária. “É um salto fundamental para protegermos os nossos oceanos dos riscos da degradação”, reforçou Sarney Filho.

Painel de Alto Nível Água e Desastres Naturais  

Durante o Painel, foram compartilhadas experiências de países como Hungria, Japão e Myanmar em relação ao tema, além de recomendações para que se possa avançar no combate aos desastres relacionados à água.

De forma resumida, as recomendações foram: necessidade de uma maior articulação internacional para questões relacionadas aos recursos hídricos; disponibilizar mais recursos financeiros para a área, sendo necessário dobrar o investimento para políticas de água; além do desenvolvimento de educação, ciência e tecnologia para criar conhecimento sobre o tema.

O presidente da Hungria, János Áder, destacou que a mudança climática anda de mãos dadas com a mudança dos ciclos hidrológicos e que os gastos com desastres naturais aumentaram drasticamente em relação à década de 90. “Governos nacionais não podem economizar com investimentos em infraestrutura. A prevenção é sempre mais barata”, ressaltou.

Para o príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, a comunidade internacional deveria se unir para contra-atacar as ameaças que estão ocorrendo em escala global. Além disso, citou a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que são norteadores das ações e frisou que “os objetivos só serão alcançados se a relação causa e efeito entre água e outros setores forem completamente entendidos”.

O ministro de Recursos Naturais e Conservação do Meio Ambiente de Myanmar, Ohn Win, sinalizou que a segurança hídrica é fortemente impactada pelas mudanças climáticas e, por isso, a Agenda 2030 deve promover uma mudança integrando atores de diversos setores. “Enchentes e chuvas intensas têm sido relacionadas com grandes epidemias de doenças relacionadas à água”, disse Win ao falar de outro problema causado pelos desastres naturais.

O principal objetivo do Painel foi traduzir os acordos globais em compromissos políticos e ações concretas, com um foco especial em temas como reforço de financiamento e investimentos para redução de risco de desastres relacionados à água e à promoção da ciência e da tecnologia.

Painel “Água e migrações” 

“A água é a primeira em questão de vida, necessária para a sobrevivência. Os números mostram bem a escassez, pois apenas 2,5% da água no mundo são doces. Desses, cerca de 70% encontram-se em forma de gelo ou neve. O que resta é 0,7%, que está adequada para o consumo humano, mas encontra-se em nível profundo ou  atmosférico”, declarou a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e do Desenvolvimento de Portugal, Teresa Ribeiro.  “Esses números são importantes para as questões geopolíticas, pois 90% da população mundial têm que compartilhar obrigatoriamente os recursos hídricos disponíveis. E isso gera um conflito”, completou. 

O debate destacou que muitas vezes a falta de acesso à água é um fator impulsionador de migração, mas que também pode ser um fator de esgotamento do fenômeno. A sessão mostrou as relações entre água e os movimentos migratórios globais, além de identificar as causas de migração relacionadas à água em diferentes regiões do mundo e o papel da migração como estratégia de adaptação às mudanças climáticas.

Para o ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, a relação água e migração não tem tanta evidência no Brasil. Mas ele destacou a questão de acesso a água. Na ocasião, Barbalho lembrou da transposição do Rio São Francisco, que está completando um ano e já atendeu 1 milhão de pessoas em Pernambuco e na Paraíba. O Ministério da Integração prever beneficiar ainda 11 milhões de cidadãos.

Conectando Água e Clima 

O painel abordou a água e o clima como questões centrais para atender a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) e metas nacionais de adaptação e mitigação do clima.

O professor Dogan Altinbilek, vice-presidente do Conselho Mundial da Água, abriu o painel apontando que mais de 90% dos países em fase de adaptação reconhecem a relevância de colocar a pauta da gestão da água de forma estratégica. Segundo ele, os países consideram que a água deve ser abordada como um risco potencial e como um vetor de soluções, em nível da escala nacional, local e de projeto.

As questões trazidas pelo painel resultaram na seguinte definição: o setor da água não está preparado para as questões do clima. “Estamos testemunhando as mudanças climáticas e acontecem cada vez mais fortes, conforme o nível da água. É preciso fazer uma boa gestão para propor soluções viáveis de ligação entre clima e água”, destacou Altinbilek.

Além do professor, todos os participantes concordaram que a gestão estratégia da água é o ponto de partida para cumprir os compromissos em relação aos recursos naturais. Foi abordado, ainda, que os conceitos tradicionais de água nem sempre são adaptados às necessidades e as especificações são cada vez mais exigidas por fundos específicos de doadores e clima.

O painel contou também com a participação de participantes de Portugal, Marrocos, Africa do Sul, Comissão Europeia, Polônia, El Salvador, além entidades ligadas ao tema.

Painel Água para Agricultura e Produção de Alimentos 

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi, disse que 90% da produção agrícola no país utilizam água das chuvas. Segundo ele, apenas 10% do setor utilizam água captada por sistemas de irrigação.

“A água é reciclada no processo [agrícola], não há exportação de água. Às vezes, falam que precisa de 15 mil litros de água para fazer um quilo de carne. Isso não é verdade, é uma lenda urbana. É uma coisa que começou e continua a ser dita e não tem explicação científica. A verdade é que o quilo de carne não leva um quilo de água. Nós fazemos agricultura no Brasil sem irrigação, é apenas um aproveitamento natural das chuvas que nós temos”, disse Maggi, ao encerrar os debates. 

Já o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Maurício Lopes, ressaltou que a produção agropecuária brasileira, nos últimos 40 anos, tem se baseado em processos tecnológicos. “A tecnologia nos ajudou a intensificar o uso da terra e garantiu o equilíbrio entre a conservação dos nossos biomas e a capacidade do país de seguir produzindo alimentos. A forma para chegarmos até isso foi um grande investimento em produção de geração de conhecimento, treinamento e capacitação”, disse.

Maurício Lopes apontou ainda o sistema desenvolvido, por especialistas da Embrapa, utilizado nas lavouras, pecuária e floresta como uma das soluções para preservar o solo e produzir água. “É uma forma de manter o solo protegido 365 dias por ano, garantindo a recomposição das nossas reservas de água e o lençol freático em uma agricultura essencialmente produtora de água”, assegurou.

Para Lopes, o desafio no país está em levar tecnologia e informação às áreas que ainda não têm acesso aos sistemas modernos de produção agrícola e pecuária. “Nós ainda temos regiões no Brasil onde prevalece uma agricultura pobre, que tem dificuldade de acessar esse conhecimento e essa informação. Nós temos que trabalhar no sentido de ajudar essa agricultura, de estar no local. Na região do Brasil mais carente em água, o Nordeste brasileiro, a nossa empresa vem fazendo uma série de esforços de levar conhecimento e tecnologia”, afirmou.

Produção agrícola

De acordo com o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018, lançado pela Unesco), a agricultura consome 70% da água disponível no mundo, a indústria outros 20% (incluindo a geração de energia elétrica) e o consumo doméstico, 10%. 

O documento aponta que o mundo precisará aumentar em 50% a produção de alimentos até 2050, caso mantenha o atual padrão de consumo. A edição incentiva a busca por soluções baseadas na natureza, que usam ou simulam processos naturais para contribuir com o aperfeiçoamento da gestão da água no mundo.

Água e Espiritualidade

Um ritual de consagração da água marcou a abertura da sessão especial Água e Espiritualidade, em um auditório lotado, onze líderes espirituais discutiram a relação da humanidade com a água por meio dos conhecimentos ancestrais, tradicionais e sagrados.

O espaço rompeu os debates formais sobre recursos hídricos no mundo e permitiu a discussão de aspectos subjetivos da relação da humanidade com a água, por meio de ensinamentos de religiões como budismo, cristianismo, espiritismo, islamismo, tradições indígenas e de matrizes africanas. Também participaram do encontro o antropólogo e reitor da Universidade da Paz, Roberto Crema, a representante do Conselho das 13 avós, Maria Alice Campos Freire, a Coordenadora da Secretaria de Igualdade Racial do Estado da Bahia, Ekedi Rose Mery e o Babá PC, líder da Casa de Oxum Maré, na Bahia.

Cristianismo

O cristianismo foi representado no evento por dois líderes religiosos: Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo auxiliar de Brasília e o pastor da igreja evangélica Sara Nossa Terra, Vagner Pagani.

Dom Stein citou o Papa Francisco, que defende o cuidado e o cultivo na Encíclica sobre Ecologia.
Para ele, a sociedade deve mudar a relação que tem estabelecido com a água e inverter a lógica de consumo para cuidado.

“[Não posso tratá-la como] uma criatura que me serve, que está quase à minha disposição ou como vemos hoje nos relacionamentos com a água da forma como lidamos com dinheiro, com entrega, com dominação”, disse. “É preciso uma nova compreensão de relação com a água, que deve ser essencialmente de cuidado”, completou.

Já o pastor evangélico Vagner Fagani ressaltou que é necessário ter uma postura responsável diante de um bem deixado por Deus aos homens.

Espiritismo

Para o representante da Federação Espírita de Brasília (FEB), Arismar León, a sociedade vive um momento importante na vida da humanidade “em que vamos decidir pra que lado iremos”. Segundo ele, as pessoas têm valorizado excessivamente os bens materiais e negligenciado aspectos sagrados e espirituais.

Somo seres espirituais em uma vivência humana, isso é muito maior, mais significativo, muda com o sagrado, com a água que nos dá a vida, nos dá energia”, assegurou.

Budismo

O líder do templo Shin budista Terra Pura, monge Sato, afirmou que o contato com a água implica sempre em regeneração – tanto espiritual quanto física – e que ela não pode ser tratada como mercadoria. Segundo ele, a água é a fonte de todas as possibilidades de existência.

Para o presidente do Conselho Superior para Assuntos Islâmicos do Brasil, Sheik Abdel Halim, a água é um instrumento de purificação enviado por Deus. Segundo ele, é necessário que a humanidade volte para o caminho ensinado por Deus como a ética, moralidade, boa conduta, justiça e o bom caráter.

Comunidades tradicionais e as mudanças climáticas

 A adaptação de comunidades tradicionais e indígenas às mudanças climáticas e aos impactos de grandes empreendimentos foi discutida em uma sessão especial , mas não havia lideranças indígenas brasileiras presentes ao debate, mas a representante do Canadá, Sunny Lebourdais, contou que foi necessário um processo de dois anos para que o governo local e as autoridades federais do Canadá determinassem o cancelamento de um projeto que colocaria em funcionamento uma mina a céu aberto.

Segundo Victor Salviati, coordenador da Fundação Amazonas Sustentável, as estratégias de convencimento das comunidades amazonenses para o cuidado com as mudanças do clima passam por três pontos: engajamento social por meio de oficinas, soluções práticas e eficientes e a adaptação nos sistemas produtivos para a realidade dos povos. “Não funciona nada [se a solução for] trazida pelo homem branco ou outras pessoas de fora. Tem que ser uma coisa adaptada à realidade da comunidade”, explicou.

Sunny Lebourdais, como parte da cultura dos índios canadenses,  lembrou que, no passado, algumas queimadas eram utilizadas pelos antecedentes dos indígenas do Canadá, tendo como objetivo a caça de animais. Ela observou, porém, que os recentes incêndios têm ocorrido de forma mais intensa. “Há um grande acúmulo de calor no chão. Notamos que ele queima mais forte. Algumas das lideranças e conhecedores da terra dizem que vai levar muito mais anos porque a vida microbial e elementos do solo não estão mais presentes”, alertou.

Também participaram do encontro o antropólogo e reitor da Universidade da Paz, Roberto Crema, a representante do Conselho das 13 avós, Maria Alice Campos Freire, a Coordenadora da Secretaria de Igualdade Racial do Estado da Bahia, Ekedi Rose Mery e o Babá PC, líder da Casa de Oxum Maré, na Bahia.

Tecnologia de reuso: podemos lidar com inovações? 

Durante esse painel, o engenheiro ambiental Luis Marinheiro, de Portugal, explicou que o processo de reaproveitamento hídrico envolve tecnologia, capacitação, inovação, infraestrutura, entre outros conceitos, e apontou o cenário crítico no setor. “Embora 72% da superfície da Terra esteja coberta de água, apenas 3% é adequada para consumo e irrigação. A escassez de água e as secas aumentaram drasticamente nas últimas décadas e provavelmente se tornarão mais frequentes e mais severas no futuro. É preciso avançar nas tecnologias de reuso”, disse Marinheiro.

Foram apresentadas diversas propostas de reuso de água. Entre elas, a implantação de política de reuso de efluente sanitário tratado, de forma progressiva, propondo metas de curto, médio e longo prazo. Segundo Marlos de Souza, da Organização Alimentar e Agrícola das Nações Unidas, a ideia promete contribuir para o aumento da oferta de recursos hídricos em regiões com escassez, para o estabelecimento de um modelo de financiamento adequado que fomenta o reuso sustentável. Isso irá contribuir também com pequenos e grandes projetos, principalmente para a agricultura em municípios pequenos e áreas rurais. Participaram do painel: Ernani Miranda, do Ministério das Cidades; Hiromasa Yamashita, do Ministério da Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo do Japão; Luis Marinheiro, engenheiro ambiental de Portugal; Claudio Ternieden, da Federação do Meio Aquático dos Estados Unidos (Water Environment Federation); Helena Kubler, da Jacobs/CH2M; Paula Kehoe, diretora de Recursos Hídricos da San Francisco Public Utilities Commission; Claus Homann, da Aarhus Water Utility LTD da Dinamarca; Renato Ramos, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES); Marlos de Souza, da Organização Alimentar e Agrícola das Nações Unidas; Eduardo Pedroza, da Ecocil Engenharia; e Percy Soares Neto, coordenador da Rede de Recursos Hídricos na Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Brasil defende proteção dos recursos naturais

A preservação dos recursos naturais é uma prioridade do governo federal. Disse o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, durante cerimônia em homenagem ao Dia Mundial da Água. Organizada pelo Conselho Mundial da Água, Organizações das Nações Unidades e Unesco, a agenda contou com a presença do governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, do presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, do vice-presidente da ONU Água, Joakim Harlin, e de representantes de populações indígenas.

“O Brasil é um país que, embora pródigo em biodiversidade, sabe dos riscos que a mudança do clima acarreta”, afirmou Sarney Filho. Ele ressaltou que sua gestão à frente do Meio Ambiente tem olhado para os biomas brasileiros de uma forma que nunca aconteceu antes e está à altura da responsabilidade que isso representa.

Como exemplos das políticas ambientais implantadas, Sarney Filho destacou as que envolvem os recursos hídricos, como a assinatura, pelo presidente da República, Michel Temer, do decreto que criou dois mosaicos de áreas protegidas marinhas nos arquipélagos de Trindade e Martim Vaz, no Espírito Santo, e São Pedro e São Paulo, em Pernambuco. Com isso, o país terá mais quatro unidades de conservação, que serão geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

“Com a criação dessas áreas, que totalizam 90 milhões de hectares, o Brasil passa de apenas 1,5% de suas áreas marinhas protegidas para 26,3%, superando as metas da Convenção sobre Diversidade Biológica e da agenda 2030, da ONU”, destacou.

Proteção

Sarney Filho destacou os esforços do país, no âmbito da Comissão Internacional da Baleia, para a criação do Santuário das Baleias do Atlântico Sul e do Plano de Manejo de Baleias do Atlântico Sul.

De acordo com ele, o número de unidades de conservação designadas como Sítio Ramsar no Brasil praticamente duplicou nos últimos dois anos, passando de 13 para 25.

Sinergia

Para o ministro, é necessário tratar os problemas de forma sistêmica, integradas e em sinergia com todas as áreas para fazer frente à mudança do clima. Nesse sentido, ele afirmou que o ministério intensificou ações já consagradas como o Programa Água Doce, que por meio da instalação de dessalinizadores em comunidades difusas do semiárido brasileiro, garante o acesso da população à água de boa qualidade.

Os programas Conversão de Multas e Plantadores de Rios também foram citados por ele. “São ações valiosas pois o engajamento do conjunto da sociedade é fundamental para cuidar da água, recurso mais precioso para a vida, direito e responsabilidade de todos nós”, concluiu.

ONU defende equilíbrio entre infraestruturas verde e cinza para uso da água

Todos os documentos do Processo Político, assim como de outras comissões, estão ou ainda estarão disponíveis em http://www.worldwaterforum8.org/pt-br/comiss%C3%A3o-do-processo-politico]

Ainda no encerramento, o coordenador do Fórum Cidadão, Lupercio Antônio, apresentou os dez princípios pactuados durante o evento, como a educação e o acesso a informação para a efetiva participação social na gestão da água. Ele também comemorou o sucesso da Vila Cidadã, espaço que recebeu a visita de 40 mil crianças.

O presidente do comitê do Processo Temático, Torkil Jønch Clausen, também apresentou os resultados das 95 sessões realizadas durante o evento. As mensagens que serão detalhadas no relatório do fórum abrangem questões sobre clima, desenvolvimento, cidades, ecossistemas, finanças, compartilhamento, capacitação e governança.

As autoridades brasileiras organizadoras do fórum também passaram a bandeira do Conselho Mundial da Água para os organizadores da nona edição, que será realizado em Dacar, no Senegal, em 2021.

Grande Prêmio Mundial da Água de Quioto

Também no encerramento, os representantes do Fórum da Água do Japão e do Conselho Mundial da Água entregaram o Grande Prêmio Mundial da Água de Quioto. A organização vencedora da quinta edição foi a Caridade Cristã para pessoas em Situação de Risco (CCPD, sigla em inglês), do país africano Togo.

A organização capacita indivíduos e grupos comunitários para melhorar o acesso a água potável e saneamento por meio da construção e remodelação de instalações de água potável e saneamento. Além disso, a CCPD organiza campanhas e oficinas de conscientização e educação.

O trabalho, que vem sendo realizado desde 2013, conseguiu diminuir doenças e mortes relacionadas à água e ao saneamento em comunidades de Togo.

Ao todo, foram 144 projetos inscritos de 46 países. A CCPD receberá o equivalente a US$ 18 mil dólares, que servirão para implementar o projeto e promover a gestão da água em Togo.

O prêmio é entregue desde 2003. O objetivo é encontrar e desenvolver boas práticas em todo o mundo relacionadas com o tema água. A quinta edição buscou homenagear organizações que vêm trabalhando para resolver problemas críticos de água nos países em desenvolvimento.

Encerramento/Balanço do 8º Fórum Mundial da Água 

O 8º FMA, terminou em Brasília, com a participação de quase 100 mil pessoas durante os sete dias de evento. O tendo os coordenadores dos diversos segmentos temáticos apresentados os principais resultados das discussões acerca dos recursos hídricos, durante esse encerramento. O balanço é que as ações realizadas até agora em relação ao tema são insuficientes para garantir segurança hídrica para toda a população.

Foram mais de 6,7 mil participações nas 59 sessões do Processo Regional e os relatórios apresentam os esforços no compartilhamento de ideias, práticas, desafios e soluções para a água. Desafios esses que, para o coordenador do Processo Regional, Irani Braga Ramos, do Ministério da Integração, tendem a continuar aumentando devido às mudanças climáticas.

A coordenadora do Grupo Focal de Sustentabilidade, Marina Grossi, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, ressaltou o senso de urgência e a transversalidade de outros setores em torno do tema água. “Não adianta brigar e não colaborar com os setores que pegam mais água. Nosso alimento também chega mais caro se a água não chega à agricultura”, exemplificou ela.

Para Marina, é preciso dar sustentabilidade e melhorar a cooperação entre os setores. “Trabalhar fora da caixa”, disse. “Se a gente não fizer ações muito mais agressivas e significativas toda essa agenda [dos ODS] não será cumprida até 2030”, ressaltou, cobrando mais apoio das Nações Unidas para o desenvolvimento de um diálogo político de alto nível.

Para o coordenador do Processo Político, ministro Reinaldo Salgado, do Ministério das Relações Exteriores, a grande inovação foi a realização de um segmento de juízes e procuradores. “Isso fecha um ciclo de inclusão no processo político com todos os principais agentes públicos”, disse. “O balanço geral é de um grande êxito tanto em quantidade e nível de delegações, quanto em qualidade dos debates”, avaliou.

Já para o senador Jorge Viana (PT-AC), que coordenou a Conferência Parlamentar, é importante deixar um legado do fórum, por isso, ele  apresentou uma proposta de emenda à Constituição para incluir a água como direito humano. “Esse é um ponto fundamental de partida”, disse ele, lamentando ainda a ausência de representantes do países mais ricos no fórum.

Após apresentação de resultados, entrega do prêmio Quioto e dos pronunciamentos das autoridades, foi feita a passagem da bandeira do Fórum mundial da Água para a comitiva do Senegal, onde será a edição de 2021

FOTOS: Antonio Cruz, Fabio Rodrigues Pozzebom e Wilson Dias /Agência Brasil, Jorge Cardoso,  Toninho Tavares/Agência Brasília, Kate A. Brauman, ONU/Logan Abassi, ONU/Martine Perret



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