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Lugar, lugares: uma abordagem para a educação espacial

rua da palha

Que forças naturais e humanas atuam na formação dos Lugares em que vivemos? Por que estas casas são de madeira? Por que a rua é de paralelepípedos? Quem vive aqui? Responder a este tipo de questões é o que se espera ao se utilizar o Lugar como categoria de análise espacial

Olá, leitores do blog. Primeiramente, gostaria de me desculpar pelo sumiço. O post de hoje não vem acompanhado de uma promessa de postagens mais frequentes, no entanto, vem com o compromisso de, aos poucos, cumprir uma promessa que já tem quase um ano: tratar de abordagens das categorias de análise espacial em sala de aula.

Lugar: conceito simples ou complexo?

No primeiro post da série sobre categorias de análise da Geografia, escolhi falar sobre o Conceito de lugar, e isso se deve a algumas razões. Primeiramente, por ser um conceito que, embora abstrato como os demais, é de mais fácil assimilação e compreensão, por possibilitar exemplos concretos diretamente envolvidos na vida do aluno. Depois, por ser, habitualmente, a primeira categoria explorada no currículo brasileiro para o 3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental, de acordo com os PCNs de Geografia. Por fim, porque o conceito de lugar favorece a compreensão de conceitos mais amplos, que serão explorados em outras oportunidades.

Dito isso, convém destacar que lugar não é algo simples de ser conceituado. Há diversas possíveis interpretações para tal conceito, que a Geografia “importou” da Antropologia e foi, paulatinamente, adaptando-o às necessidades do estudo espacial. Assim, este é um conceito “mutante”, e que está sob constante atualização, sobretudo quando se busca um diálogo de aproximação teórico-metodológica entre a Geografia e a Antropologia.

Na Antropologia contemporânea, com o avanço da Antropologia Urbana como importante campo de estudo, o conceito de lugar vem sendo constantemente debatido, tenho recebido inclusive sua “antítese”, o não-lugar. Para o antropólogo francês Marc Augé, o desenvolvimento do capitalismo criou novos espaços que são marcados pela fluidez intensa e efêmera de pessoas, e desvinculados da história da comunidade em que estão inseridos. Esta, por sua vez, não possui quaisquer vínculos com tais espaços. Para o antropólogo, tais espaços são opostos ao conceito de lugar, ao menos dentro das interpretações que a Antropologia (e a Geografia) costuma lhe dar. Espaços como shopping-centers, aeroportos, lojas de departamentos, rodovias e afins seriam, então, os ditos não-lugares.

Na Geografia, o conceito de lugar costuma ser explorado sobre diferentes óticas. Entretanto, duas leituras de seu sentido são mais recorrentes. O lugar aparece, para alguns autores, como sendo o espaço vivido, ou um recorte específico deste espaço, ideia encontrada em Yi-Fu Tuan, dentre outros autores. Já para Carl Sauer, o lugar aparece como o sentido que se dá à paisagem cultural. Embora ambas as compreensões sejam interessantes, e haja outras também válidas, optaremos aqui pelo sentido que Tuan dá ao conceito de lugar. Esta opção também se adéqua aos PCNs de Geografia, segundo os quais:

Atualmente, a categoria de lugar, assim como a de paisagem estão sendo recuperadas pela nova Geografia, em uma nova dimensão. O lugar deixou de ser simplesmente o espaço em que ocorrem interações entre o homem e a natureza para incorporar as representações simbólicas que constroem juntamente com a materialidade dos lugares, e com as quais também interagem.

Para Horácio Capel, grande historiador da Geografia, a ênfase desloca-se do conceito abstrato de espaço para o conceito de lugar, âmbito da existência real e da experiência vivida.

Tomando o lugar como espaço vivido, e/ou como recortes no espaço, é possível inferir que o conceito de lugar permite observar a forma como a cultura, a forma de organização e as necessidades de cada sociedade moldam o espaço em que vivem. E é justamente isso que, nesta abordagem, proponho que se explore em sala de aula.

Aprender com lugar não é o mesmo que aprender lugares

A abordagem do conceito de lugar em sala de aula não tem por objetivo fazer com que os alunos ampliem seu leque de conhecimento de diferentes lugares. Compreender o conceito de lugar, e tornar-se apto a utilizá-lo como categoria de análise espacial, significa poder observar os lugares que se conhece e interpretá-los. Eventualmente, como veremos mais adiante, a observação de lugares desconhecidos permite que o aluno trabalhe por meio da comparação, o que é uma habilidade importante. Entretanto, não deve ser este o foco do trabalho do professor. Recorrendo mais uma vez aos PCNs, em seus objetivos consta:

  • perceber na paisagem local e no lugar em que vivem, as diferentes manifestações da natureza, sua apropriação e transformação pela ação da coletividade, de seu grupo social;
  • • reconhecer e comparar a presença da natureza, expressa na paisagem local, com as manifestações da natureza presentes em outras paisagens;
  • • reconhecer semelhanças e diferenças nos modos que diferentes grupos sociais se apropriam da natureza e a transformam, identificando suas determinações nas relações de trabalho, nos hábitos cotidianos, nas formas de se expressar e no lazer.

Assim, uma abordagem comparativa de lugares se faz interessante aos objetivos propostos quando permite que o aluno, ao realizar a comparação entre lugares, observe o que há de semelhante e o que há de diferente na forma como são organizados e utilizados.

O lugar em sala de aula: como abordar?

Segue aqui uma proposta de abordagem do conceito de lugar, baseada na forma como eu a procurava aplicar em sala de aula, e acrescida de algumas ideias e compreensões posteriores que tive sobre o tema.

De início, o professor busca explorar o conhecimento dos alunos sobre o tema. Perguntas como “O que é um lugar?”, “Que lugares vocês conhecem?”, ou “Que lugares vocês gostariam de conhecer?” abrem brecha para que os alunos tragam falas significativas. Interessantemente, as informações trazidas do senso comum sobre a palavra lugar habitualmente não destoam muito de sua compreensão geográfica, o que facilita ao professor uma posterior discussão sobre este conceito.

Elencar, na lousa, duas listas, sendo que uma contenha os lugares conhecidos pelos alunos, e outra contenha os lugares que eles tenham dito que gostariam de conhecer, possibilita aprofundar a reflexão sobre a ideia de espaço vivido. Para o aluno, lugares como a escola, um parque, o prédio onde moram, o cinema, a quadra de futsal, a lanchonete dentre outros são espaços vividos, que provavelmente figurarão de forma mais detalhada naquele primeiro momento. Outros lugares que eles afirmarão conhecer, como cidades para onde tenham viajado, pontos da cidade por onde passem algumas vezes, praias que visitaram, aparecerão de forma mais incerta, menos detalhada, menos precisa com relação à localização ou à descrição. E lugares que eles desejem conhecer aparecerão de forma mais genérica, como países, ilhas, parques cuja localização eles desconhecem, etc.

De posse dessas afirmações dos alunos, o professor pode realizar tais observações, e mesmo propor um exercício contrário. Suponhamos que, dentre os lugares que os alunos digam que desejam conhecer, figure a França. O professor pode, aqui, estimular um exercício imaginativo que possibilita aos alunos perceber melhor a noção de espaço vivido: será que um aluno francês, ao receber as mesmas perguntas que os alunos receberam, responderia de forma semelhante? Ele diria que quer conhecer a escola, a quadra ou a praia que os alunos disseram conhecer, ou ele diria apenas que quer conhecer o Brasil? Ou, reformulando melhor a pergunta: para um aluno francês, a França é um lugar, ou um conjunto de vários lugares?

Este exercício imaginativo, acompanhado de uma posterior discussão entre professor e alunos, possibilita que o aluno perceba o quão capaz ele é de detalhar (recortar espacialmente) o seu espaço vivido, proporcionalmente ao quanto ele vivencia de cada lugar; e o quão incapaz ele é de detalhar (recortar espacialmente) os espaços que ele desconhece ou vivencia com pouca frequência.

Num segundo momento, é possível selecionar um lugar que seja conhecido de todos os alunos (preferencialmente um lugar que possa ser visitado em aula, como uma praça próxima à escola), e iniciar com os alunos uma reflexão sobre as características naturais e humanas desse lugar: como são e quantas são as árvores, o que foi construído pelo ser humano, por que foi construído tal objeto (como um banco, um monumento ou um balanço) e não foi construído tal objeto (como um banheiro coletivo, uma pista de atletismo ou uma churrasqueira) na praça, qual a lógica pela qual as pessoas que construíram a praça decidiram que ela deveria ser assim, ela é parecida com outras praças da mesma cidade, ela é parecida com praças de outros países? Esta mesma lógica reflexiva pode ser aplicada a outros lugares, como a própria escola, caso não seja possível levá-los para uma visita a um lugar próximo.

Voltando para a sala de aula, compreendidas e debatidas as implicações naturais, culturais e sociais que determinam a construção do lugar observado, é possível agora avançar para a comparação de lugares em diferentes sociedade. Por intermédio do  Google Imagens e do Google Earth, podem-se observar praças (ou escolas, ou parques, ou qualquer elemento paisagístico de mesmo nível do observado pela turma) de diferentes regiões brasileiras e de diferentes países, buscando aqui compará-los com o lugar observado inicialmente. Relembrando que o objetivo não é “conhecer” diferentes lugares, mas comparar as diferentes características socioespaciais que modelam os lugares.


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