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O Viajante Moribundo


Leia por sua conta e risco.



A muito tempo um viajante, faminto, perdido e pra variar, ferido, estava a beira da morte, jogado na estrada. Pra ele nada mais valia a pena, seu cansaço havia tomado conta de sua alma, e seu corpo mal respondia aos desígnios da sobrevivência.

Tantos por ele passavam, alguns interagiam, alguns até perguntavam entre si a razão dele estar ali. Alguns tentavam ajudar, oferecendo alimentos, dando propostas, mas o homem já não tinha mais noção da realidade, estava perdido. Alguns igualmente o desprezavam, passavam direto, desviavam o olhar, ou apenas o criticavam. Certa vez um jovem chegou a agredi-lo tanto fisicamente, quanto verbalmente, gritando que ele era um lixo, que bloqueava a estrada. Muitos diziam que ele escolheu estar ali, mas poucos perguntavam o motivo...

Em sua depressão, ele já estava prestes a definhar, quando na constante multidão, uma luz passou a brilhar. Era o sorriso de uma garotinha, uma gentil criança que, dele se aproximou e, ignorando toda sua condição aparente, apenas se sentou, e conversou. Naquela vez, o homem, talvez por reflexo, pôde levantar sua cabeça, só para olha-la melhor. Ela era tão gentil com ele, ele precisava ser gentil com ela, sentia essa necessidade, e não entendia por quê.

Naquela vez... pois tiveram outras. A garotinha permaneceu voltando, não diariamente, nem regularmente, era com uma frequência incerta, que deixava aquele cansado viajante ansioso. De tudo que lhe ocorria ali, toda a chuva gélida, todo vento empoeirado e sufocante, todo o calor escaldante, todos os tropeços dos que não o viam, nada disso o afetava, nada disso permanecia em sua mente, apenas aquele rosto, aquele sorriso, aquele olhar, aquela garotinha. Ele esperava ela aparecer, para ter mais alguns instantes de sua tão acolhedora atenção.

Um dia ele sorriu, e do sorriso saiu suas primeiras palavras em muito tempo, num som quase inaudível, fraco, apagado, mas o suficiente para que ela escutasse. Daquelas palavras surgiram frases, e as frases fizeram dos momentos ainda mais admiráveis para o tal homem, visto que a alegria no olhar da garotinha se elevou, e assim, ambos puderam partilhar mais daqueles momentos juntos.

Mas, com o tempo a garotinha deixou de retornar. Foi repentino, num instante ela estava la e no outro, parecia jamais voltar. O viajante, nada tinha mudado, permanecia o mesmo, ali, parado, aguardando por ela. Mas então... dias passaram... semanas passaram... meses passaram... anos passaram... o que pareciam vidas passaram... e o homem sentiu uma dor tão profunda, tão intensa, que jamais sentira antes. E então ele pensou no quão doce seria o beijo da morte.

Foi quando ele, sem entender ou controlar, se levantou. Suas pernas tremiam, seus ossos rangiam, mas ele andou, cada passo lhe causava uma dor aguda, forte, profunda, suas feridas estavam abertas, como se cicatrizes não servissem pra absolutamente nada. Mas a dor de seu corpo nem se comparava a dor constante que havia lhe tomado o espírito.

Ele andou, e o viajante, passou a viajar. Sua jornada, era uma busca, uma procura, por aquela luz. Ele queria vê-la novamente, apenas isso. Tanto tempo parado, sofrendo por suas viagens, sem que nada fizesse qualquer diferença, apenas aquela luz, apenas aquela. Ele queria encontra-la só mais uma vez, para então poder partir, sem aquela dor.

Sua missão era impossível, dizia ele pra si mesmo, mas seu corpo se movia por conta própria. Ele lutava, contra cada pequena parte de si. Tudo nele parecia querer a mesma coisa, exceto sua mente, a qual teimava em relutar. Ele não podia acreditar em si mesmo, o que estava acontecendo, seus músculos regenerando, suas feridas sumindo, o cansaço deixando de ser tão frequente... aos poucos seu corpo voltava aos tempos de juventude. Ele estava revitalizando-se, enquanto buscava por ela, seguindo em frente, e as vezes até se pegando de surpresa em meio a sorrisos, e soluços, não por embriaguez, mas por aquela dor, que mantinha-se forte, penetrante, mas um pouco mais natural, mais aceitável.

Tempo. Muito tempo. Ele encontrou a luz. Ela brilhava tanto quanto ele guardava, nas turvas ondas de sua memória... Era ela? Tinha suas dúvidas... jamais havia visto brilho como aquele, seria alguém igual? Era impossível, ele sabia disso. Em tantas viagens, tanto antes de sua queda, quanto após, ele jamais havia encontrado outro farol como aquele. Era ela, tinha certeza, mais que isso... todas as partes de si vibravam com a presença daquela... e a dor latente que sentia, dava lugar a um frio intenso que varria seu corpo inteiro.

Era ela.

Mas não era ela.

A garotinha, já não era mais uma garotinha. Ela havia crescido, se tornado uma mulher, tão bela quanto em sua infância, mas um tanto mais. Agora, ela dotava dos mais invejados atributos femininos, e de longe o viajante notara, que outros também notavam. Ela antes, iluminava, e agora, ela atraia de tudo, pois sua luz se espalhou de tal maneira que, era de se esperar, era de se prever, se o tal viajante tivesse apenas raciocinado. Quanto mais brilhante for a luz, mais insetos se aproximarão dela... ele aprendeu isso observando as lamparinas da loja próxima ao ponto onde definhara.

Seu peito batia forte, muito forte, seu corpo esfriava, e esquentava, tão rápido que ele achava que estava tendo algum tipo de ataque. Mas suas pernas permaneciam se movendo. Sorridente. Ele só podia ver ela. Na verdade a muito o viajante já não conseguia ver ninguém. Sua visão o havia abandonado a tempos, mas ele podia enxerga-la. Como? Pergunta tola... nem mesmo ele que passava por isso sabia descrever... Mas ele a via. Aquela luz, aquele brilho poderoso que o chamava, aquela silhueta irreconhecível mas, acentuada por aquele olhar, ah, aquele olhar. Ela o viu.

Ele pôde prender seus olhos aos dela, e num instante, o mundo voltou a ter cores. Tudo se iluminou, e seus olhos marejaram. Era tão lindo o que ele via. Aquela cor... era como olhar para uma estrela, no instante em que ela nascia. Desconhece a experiência? Pois é, o viajante sabia, pois estava presenciando ali, naquele momento. Seus olhos, aqueles que a muito ele não via, ele não cansava de ver... ele queria ver... ele precisava ver... ele via.

"Oi"...

O corpo do viajante inteiro, inteiro, se desmontou. Houve um tempo em que o chão tinha deixado-lhe, em que as sombras da solidão o cercaram e tomaram sua alma, um tempo em que ele se sentiu em queda livre, constante, infinita. Mas naquele momento, foi como se seus ouvidos o levassem a repousar em um colchão de penas, macio, envolvente, confortável. Tamanha ternura em sua voz, aquele som, aquela música, que ele a tanto queria escutar uma vez mais. Ali estava...

Nada mais importava ali, sim... tudo voltou. O entorno por si só pareceu voltar como se tivesse acabado de amanhecer, em uma feira de domingo. Tantos barulhos, tanto movimento, tanta coisa... mas tudo em câmera lenta.

Somente ela estava normal. O viajante podia vê-la, ouvi-la, admira-la, em seu próprio tempo.

Tempo...

Tinha passado tanto... o que dizer? Sua mente se preenchia naquele instante com tanto, tanto que ele a muito não tinha... tanto... tanta coisa... Era incomum, naquele cérebro tão vazio, brotarem tantas ideias, surgirem tantos pensares, ao ponto dele não poder conter, e ter de expor sem o menor pudor ou controle. Sua mente estava tão lotada, e tudo, era por ela...

E ai surgiram os maus. Aqueles pensamentos que o faziam duvidar que aquilo era real. Os "Se" e "Mas", aquelas palavras que o faziam temer o que viria a seguir. Seria? Talvez? Não...

Não. Ele não podia voltar pra beira da estrada. A sua amiga o fazia lembrar disso. Alias, sim, ele já tratava aquela que o acompanhava desde seu despertar de "amiga". A latente dor, incansável e tão insistente que, o fazia se lembrar que, em dúvidas, em pesares, em temores, nada lhe aguardava. Para convencê-la de partir, ele precisava agarrar a única coisa que era mais forte que ela... sua luz.

Então, o viajante se aproximou...

E...

Sua história em fim, um sentido retomou.


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