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O interior, a solidão e as caravanas que por aqui não passam



Por Sónia de Sá, Professora, Universidade da Beira Interior 22 Janeiro 2022


No fim de semana passado vi pela primeira vez, no renovado Teatro Municipal da Covilhã, um concerto da Orquestra Sem Fronteiras, um projeto de valorização cultural no interior de Portugal, sob direção musical de Martim Sousa Tavares.

Com a sala cheia – nos limites da contingência atual – comecei a pensar na ideia de fronteira interior: de interior emocional e de interior geográfico. Se o primeiro nos leva a viajar pelas cartas de Rilke e nos induz uma dolorosa solidão interior, o segundo, que não tem uma fronteira fisicamente definida, é o limite entre a proximidade e o distanciamento, entre a presença e a ausência, entre uma espécie de abundância e uma espécie de escassez.

Viver no interior é, nas duas perspetivas que aqui trago, incomensuravelmente mais difícil do que viver no resto do país. Não porque não tenhamos acesso aos bens digitais que as populações não-interiores têm, mas porque os que cá estão desesperam e os que para cá vêm dificilmente encontram certezas para além da qualidade do ar.

Eu faço parte destes últimos. Sem certezas, com vontades, e sem grandes possibilidades. O cenário é pouco animador, mesmo que todas/os nos esforcemos para o contrariar, mesmo que, contra os ventos e as marés do outro lado da fronteira, nos continuemos a (re)erguer a cada safanão decretado pelos gabinetes do clube de cavalheiros extraordinários de Lisboa.

Este interior geográfico, lembrado em tempos de neve, mas esquecido no resto do ano, altura em que a fronteira volta a fechar, não vão as espécies misturar-se…

Ainda o concerto decorria e o meu pensamento seguiu para as caravanas eleitorais e as promessas dos vários partidos, mais ou menos entusiasmantes: “Será que as candidaturas se atrevem a dizer que vão derrubar o muro que segrega habitantes de um lado e de outro?”. Até imaginei as reuniões dos petit comité dos partidos lá na capital: “Vamos apoiar o interior, está supé in!”.

Numa noite de insónia, lá decidi ler com atenção os programas eleitorais e as referências ao interior. Resumo: ou coisa nenhuma (venda-se tudo!) ou coisa alguma (do tipo esmolas a pobres).

Isto é, uma parte muito significativa do país merece politicamente, quando muito, uma migalhinha do pão fresco e abundante que segue diretamente para a parte populosa da fronteira. Afinal, claro está, quem vota? Quem decide? Os círculos eleitorais que os média identificam como “grandes”. Nenhum mais longe do mar do que três dezenas de quilómetros.

Este sítio onde me encontro é, de facto, prisioneiro de si mesmo, tolhido pelas suas fronteiras, dolorido pelas fustigadas que, parlamento atrás de parlamento, governo atrás de governo, lhe têm sido infligidas. Esperança? A mim não me foi entregue. Sigo a sentir esta solidão interior do interior esquecido, maltratado e desrespeitado politicamente.

Talvez Rainer Maria Rilke por aqui tenha passado quando, no século XIX, dizia sobre a solidão interior: “por essência grande, pesada e difícil de suportar”.


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