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Kazim, para o seu bem, vá embora

Kazim treina e se dedica em campo de forma exemplar, mas não consegue colher os frutos do esforço (Foto: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians)
Neste sábado, o Corinthians voltou a jogar mais ou menos como se esperava - especialmente no primeiro tempo e considerando que a temporada começou há pouco - e acabou por vencer o São Paulo. Foi a terceira vitória seguida, o que garantiu ao clube paulista a liderança (um pouco) folgada do grupo A, e assim, uma tranquilidade extra para continuar ajustando o time para o torneio que importa, a Libertadores.

Durante o jogo, porém, além da tensão natural de se encarar um rival que precisava da vitória tanto quanto nós, havia outra no ar, deixando apreensivos boa parte dos 34358 torcedores que compareceram ao Pacaembu para apoiar o Timão: Kazim. Afinal, o que seria de Kazim no Majestoso?

Apoiado pelo elenco, bancado mais uma vez por Fábio Carille, o "Gringo da Favela" teria uma vez mais, mais uma vez, a chance de fazer a diferença e de mostrar que pode ser útil ao elenco. Na verdade, tudo parece se tratar de equilibrar sua vontade, que sabemos que não falta, a uma técnica que pouco aparece.

Um minuto de jogo, gol de Jadson. Mas não com assistência do turco - como aconteceu contra o São Caetano - e sim de Rodriguinho. O São Paulo parecia menos organizado em campo, e o Corinthians conseguia ameaçar sempre que chegava na área. Em duas dessas chegadas, a bola parou nos pés de Kazim. Aos 13 minutos, disputa com Rodrigo Caio, e tem uma falta contrária marcada pela arbitragem. E aos 20, não domina um chutão de Juninho Capixaba em direção à entrada da área, conseguindo apenas o escanteio.

Na sequência, os lances que definiram o placar: o São Paulo empatou o jogo aos 25 minutos, com Brenner, e o Corinthians marcou o segundo aos 32 com Balbuena (sempre ele!). Entre os dois gols, mais um lance do "Gringo", que o levou à loucura junto com a torcida: Jadson cobrou falta direto para a meta de Sidão, que espalmou para a frente. A bola bateu no braço esquerdo de Kazim e ficou livre para ele finalizar e marcar o que seria seu segundo gol na temporada (o primeiro foi contra o Rangers, na Florida Cup). Foi explícita a decepção do turco ao ver que seu gol havia sido anulado. Confira no vídeo:


Depois disso, houve somente mais uma participação ofensiva a se destacar: uma boa tabela com Rodriguinho, onde o meio-campo acabou perdendo a bola ao tentar cortar para o meio. Fim de primeiro tempo, intervalo, e a torcida já implorava por sua substituição.

No entanto, a Fiel ainda precisou esperar mais 15 minutos para saudar a saída de Kazim do time (com aplausos tão verdadeiros quanto os abraços que se dá no fim daquela festa da firma) e, em seguida, ovacionar a entrada de Júnior Dutra (com uma recepção de dar inveja a qualquer supercraque). Apesar de não ter comprometido a equipe, ajudando nas recomposições da equipe e chamando a atenção dos zagueiros são-paulinos em lances-chave (como no gol de Balbuena), o inglês não conseguiu seu gol, e com isso mais uma vez a sensação final é de fracasso. Para a torcida, e para Kazim.

Seu abatimento já ficou claro para todos. Se antes Kazim se destacava pela alegria e pelo modo como interagia com o elenco (o que hoje tem lhe garantido um grande apoio dos colegas), nas últimas semanas o comportamento mudou. Há algum tempo suas mídias sociais não são renovadas. Declarações à imprensa têm sido raras, e quando ocorrem são clichês, vazias.

Mas, pensando bem, é possível se manter alegre sabendo que ninguém te quer onde você está? 

Entre os torcedores, duas opiniões são unânimes sobre Colin Kazim-Richards: uma é a de que ele é um cara bom de grupo, brigador e que faz de tudo pra honrar a camisa que veste; a outra é a de que, apesar de tudo isso, ele estar no Corinthians é uma aberração. O que ninguém entende, ao que parece, é que essas duas opiniões são completamente conflitantes! Pois, afinal de contas, se ele não merece estar no Corinthians porque não se pede sua saída? Se ele é bom de grupo e merece ter seu espaço, porque não apoiá-lo como todos os outros jogadores são apoiados?

Jogador de futebol, não é de hoje, não vive em uma bolha. Tudo o que se posta, comenta e compartilha sobre ele acaba chegando ao seu conhecimento. E é óbvio que, independente do grau de inteligência emocional que o atleta possa ter, ninguém é de pedra. Como se motivar nos treinos sabendo que ninguém te quer em campo? E como se motivar em campo sabendo que todos contam os segundos pra você sair?

Como se manter em um time onde só te querem para fazer figuração?

Kazim chegou a disputar a semifinal da Eurocopa 2008,
quando a Turquia perdeu para a Alemanha (Foto: Getty)
Para entender o momento de Kazim, no entanto, talvez seja importante entender quem ele é e como tem sido sua carreira. Ele surgiu para o futebol aos 15 anos, quando iniciou sua carreira na base do Bury e avançou até chegar ao time principal, na temporada 2004/05. Nos anos seguintes, passou por Brighton & Hove Albion e Sheffield United, onde em 2007 chamou a atenção do Fenerbahçe, um dos maiores clubes da Turquia. Nesse mesmo ano, ele estreou pela seleção principal do mesmo país, jogando por 38 minutos em um amistoso contra (adivinhem) o Brasil!

Em 2008 foram mais 14 jogos pela seleção turca, incluindo todas as partidas pela Eurocopa - sendo titular três vezes, incluindo na derrota diante da Alemanha por 3x2, nas semifinais. Enquanto isso, continuava atuando pelo Fenerbahçe, onde após duas temporadas inteiras como jogador de rotação, enfim conseguiu conquistar a titularidade para a temporada 2009/10.

Em novembro de 2009, no entanto, um problema disciplinar iniciou uma sequência de temporadas turbulentas para o inglês: após xingar o árbitro durante um jogo contra o Besiktas e, por conta disso, ser suspenso por quatro jogos, Kazim mentiu ao clube sobre sua localização e o fez emitir declarações falsas à imprensa. Ele perdeu espaço, foi emprestado para o Toulouse (França) e, meses depois, foi dispensado. Mas não perdeu tempo, assinando rapidamente com o rival local Galatasaray, por três anos.

Mas, novamente, não se passou muito tempo até que os empréstimos ocorressem. Primeiro para o Olympiakos (Grécia), em 2012, e depois para o Blackburn Rovers (Inglaterra), em 2012/13. Lá, protagonizou outro grave incidente: foi detido pela polícia de Sussex em maio de 2013, por suspeita de fazer um gesto homofóbico a torcedores. No julgamento, ocorrido 11 meses depois, foi considerado culpado e condenado a pagar multa de £750.

Enquanto isso, ele assinava contrato de dois anos com o Bursaspor (Turquia). No primeiro ano, atuou pela equipe 21 vezes. No segundo, foi emprestado para o Feyernood (Holanda). Lá, enfim, voltou a fazer uma boa temporada, marcando 12 gols em 35 jogos - o suficiente para convencer o clube holandês a comprá-lo em definitivo. Poderia ter sido o fim da má fase - se Kazim não tivesse sido afastado da equipe em janeiro de 2016, após ameaçar um jornalista holandês. Uma passagem curta pelo Celtic (Escócia), e então o inglês desembarca no Brasil, onde atuou pelo Coritiba, até ser comprado pelo Corinthians - em meio a uma chuva de críticas- em janeiro de 2017 por R$ 1,2 milhão.

Esse curto resumo da carreira de Kazim escancara algo que era de se supor, mas que muitos preferem ignorar: equilíbrio mental não é um detalhe, não é mimimi, não é algo dispensável. Sem equilíbrio mental, não há técnica que resista. E não há jogador que consiga manter uma carreira estável.

Kazim teve, ao longo dos anos, sua carreira marcada por sucessivas sabotagens inconscientemente auto-infligidas. Até por isso, talvez, tenha atualmente comportamento tão exemplar no Corinthians: ele sabe o peso da chance que está tendo. Não há um jogador no Parque São Jorge disposto a tecer uma crítica sequer à postura do "Gringo" nos treinamentos. Assim como não há na Fiel um torcedor sequer disposto a questionar a sua garra e entrega em campo - mesmo entre os críticos mais ácidos. O problema é que nada disso parece suficiente... o resultado não vem. Até quando ele terá forças para prosseguir, rumo à volta por cima?
Foi nítido como Kazim tirou um peso das costas no gol salvador contra o Avaí. Quando será o próximo? (Foto: Getty)
Não tenho certeza se Kazim é de fato um jogador ruim ou se a pressão imposta para que ele substitua Jô à altura o impede de apresentar mais futebol. Não sei se as perdas de bola, as dificuldades de domínio e as faltas de ataque são frutos de incapacidade técnica ou de puro desespero. O que eu sei é que me tornei um profundo admirador da forma como ele faz de tudo para fazer jus à camisa que veste. E justamente por admirá-lo tanto é que digo: Kazim, vá embora do Corinthians.

Não é justo, Kazim, que você passe por isso. A rejeição ao seu nome chegou a um nível tal que, independente do que aconteça, jamais será suficiente. E ter de atuar sob esse nível de terror psicológico durante todo um ano, sendo questionado a cada segundo, sendo atacado a cada erro... você não merece.

Você merece ter a chance de brilhar em um time onde a pressão por resultados não seja tão imediata e gigantesca quanto a que o Corinthians atualmente vive. Onde você tenha tempo para recuperar o futebol que te fez atuar na Champions League e ser um dos jovens destaques de uma Eurocopa. Onde você não precise sair dos jogos cabisbaixo, por ver que ninguém queria te ver em campo.

Você merece todo o sucesso pelo qual tanto luta, Kazim. E merece um clube que possa ser seu parceiro nessa jornada. Infelizmente, o Corinthians não é esse clube. Torço para que você não demore a perceber isso. Para o seu próprio bem, e de sua carreira. Boa sorte, "Gringo".


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