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"O Pobre D.Pedro"



"Ao menos temos independência reconhecida, bem que a soberania nacional recebeu em coice na boca do estômago, de que não sei se morrerá, ou se restabelecerá com o tempo". José Bonifácio expressou em 1825 esta preocupação com os desdobramentos da Independência, em carta endereçada ao amigo Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond. Esta e outras 68 correspondências escritas pelos três irmãos Andrada e Silva, figuras importantes na política do Brasil pré-independente, estão sob a guarda da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional. No mês passado, após a digitalização do conjunto das "cartas andradinas", a Biblioteca solicitou o cadastramento da coleção no Programa memória do Mundo 2014.

A edição completa das cartas foi publicada apenas ema vez, no volume XIV dos Anais da Biblioteca Nacional, de 1890, disponível em formato digital no site da Biblioteca. Agora, Ana Lúcia Merege, bibliotecária do Setor de Manuscritos, revista os documentos para submeter novo artigo aos Anais da Fundação. Fazer parte do Programa Memória do Mundo, da Unesco, facilitaria a preservação e o acesso a esse patrimônio documental e traria maior visibilidade á coleção.

As cartas andradinas foram escritas pelos irmãos José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos de Andrada e Silva entre 1824 e 1833. Todas tiveram com destinatário o jornalista e diplomata Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond. Os irmãos revelam seu estado de espírito sobre vários assuntos. Ana Merege destaca uma passagem da carta de 2 de abril de 1829, em que José Bonifácio manifesta seu afeto pelo jovem imperador e sua preocupação com os tempos de turbulentos nos dois lados do Atlântico: "Pobre Portugal, e pobre D.Pedro, que não teve ao lado quem lhe abrisse os olhos sobre a política infernal da Europa, assim como não o teve sobre a bestial guerra de Buenos Aires!".

Autora do artigo "D. Pedro e José Bonifácio, sob o império da amizade", publicado nos Anais do Museu Histórico Nacional, de 1998, a historiadora Bernice Cavalcante lembra que o prestígio desse Andrada e Silva junto á corte portuguesa levou-o a alterar seus planos para a vida do Brasil. Ele desejava apenas seguir com seus trabalhos científicos, sem envolver-se em assuntos de Estado. "Bonifácio pretendia cuidar de sua chácara, para onde levaria sua biblioteca, e conseguiu realizar uma viagem mineralógica no interior paulista. Mas não permaneceu muito tempo distante da cena política. Log se tornou conselheiro e, em 1821, vice-presidente da Junta Provisória da Província de São Paulo", explica Berenice. Á época das cartas andradinas, o sossego da chácara era coisa do passado para o "Patriarca da Independência".


Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional, Ano 10, Edição 109°



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