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Festa, desemprego e família Calheiros: a tocha na cidade mais pobre do tour Com IDH mais baixo dentre as cidades do revezamento, Murici, em Alagoas, recebe símbolo olímpico com ponto facultativo e momentos de alegria em meio à pobreza

Na cadeira de rodas, "Seu Binho" encerra o revezamento da tocha em Murici (Foto: Instagram Rio 2016)

A Tocha olímpica passou nesta segunda feira pela cidade de menor IDH dentre as 327 que fazem parte do roteiro do revezamento. Murici, em Alagoas, tem Índice de Desenvolvimento Humano de 0,527, escala que vai até 1, e é classificado como baixo. Cinco pessoas conduziram a chama por um percurso de cerca de 1.200 metros. O símbolo dos Jogos veio de Maceió, distante 51km, e foi recebido por uma banda de estudantes e dançarinas na entrada da cidade, em frente à rodoviária desativada. Chegou à praça principal lotada nas mãos do corredor aposentado Benedito de Oliveira, o "Seu Binho", de 82 anos, que a conduziu primeiro de muletas, e depois de cadeira de rodas, por conta de uma operação no joelho. Com o ponto facultativo decretado, o percurso ficou cheio de gente, especialmente estudantes, que ganharam ponto pela presença uniformizada. 

A festa de cerca de duas horas foi encerrada com breves discursos do prefeito Remi Calheiros, irmão do presidente do Senado Federal, Renan, e de "Seu Binho", que fez graça com o comboio de segurança que acompanha o revezamento, e mostrou fôlego após conduzir a tocha.  

- Hoje eu corri da polícia pela primeira vez, e sem ter roubado. A Olimpíada é a coisa mais importante. É um negócio que dá saúde ao atleta. E atletismo eu conheço. Corri muito tempo. Corri São Silvestre. Ontem à noite eu sonhei com a minha mulher e hoje ela está me esperando em casa para aquele negócio. Faz bem pra saúde! - disse.  

Além do "Seu Binho", duas das cinco pessoas que conduziram a tocha nasceram em Murici. A professora de educação física Laysa Azevedo foi escolhida pelos próprios profissionais da cidade para se inscrever no site de um dos patrocinadores da tour. Por isso, ganhou o símbolo olímpico de presente.  

- Carregar a tocha é uma sensação inexplicável - disse a professora, em meio a vários pedidos de fotos na praça.

Bruno Lima: um dos dois "forasteiros" que conduziu tocha em Murici (Foto: Fernando Vidotto)

Deivison dos Santos começou a correr há um ano. Ele cuida da limpeza da academia gratuita da prefeitura, aonde costuma levantar peso depois do expediente. Seus amigos corredores o incentivaram a se candidatar ele teve a honra de abrir o revezamento. Para aproveitar o momento foi bem devagar. Assim como o "Seu Binho", Deivison lamentou apenas falta de condições para comprar a tocha, que custa R$ 1.980,50 para quem não é convidado dos patrocinadores.  

- Uma pena que ela não vai ser minha, tenho minha família e não teria condições. Ganho um salário mínimo. Mas fico orgulhoso de estar conduzindo. É um momento maravilhoso da minha vida - disse.

Apesar dos 28 mil habitantes, a cidade não foi contemplada com todos os condutores. Dois "forasteiros" foram incluídos no revezamento pelos patrocinadores do tour: o fotógrafo Bruno Lima, de Recife, e o editor de vídeos Frederico Lobo.

Remi Calheiros, prefeito de Murici, ao lado de Deivison dos Santos no revezamento da tocha (Foto: Leonardo Filipo)


Pouca gente em Murici teria condições de comprar a tocha. Dentre as 5.565 cidades brasileiras, ela ocupa o 5.416º lugar no ranking do IDH. A renda per capita é de R$ 233,16. Quase 20% da população é extremamente pobre. Cerca de 80% depende de algum benefício, a maioria da Bolsa Família. Virou tradição na semana santa a prefeitura distribuir peixe para a população. O município tenta se reerguer de uma grave crise econômica após o fechamento de cinco usinas de açúcar, o que gerou cerca de 6 mil desempregados. Por isso, mesmo que não fosse decretado ponto facultativo muita gente poderia assistir à passagem da tocha. No fim do ano passado foram lançadas as pedras fundamentais de duas empresas que deverão gerar 700 empregos diretos. Porém, as obras pouco avançaram desde então.

Números de Murici-AL

Distância de Maceió: 51kmPopulação analfabeta com mais de 15 anos - 42,4%Expectativa de vida: 66 anosPobres - 42,57%(Fonte: Atlas do Desenvolvimento do Brasil 2013)

 A família do presidente do Senado, Renan Calheiros, comanda a prefeitura há 20 anos. Remi (PMDB) assumiu a vaga de Renan Filho, eleito governador de Alagoas em 2014. Dos 11 vereadores, nove são da situação. Porém, na última eleição, a vitória foi por uma diferença de cerca de mil votos dentre os 17 mil eleitores com direito a voto.

Fora do roteiro da tocha está o conjunto habitacional Pedro Tenório, para onde boa parte dos 9 mil desabrigados da enchente de 2010 foi levada. Poucas ruas são asfaltadas e a estação de esgoto transborda para o córrego que passa pela lateral. Até pouco tempo o tráfico de drogas agia livremente ocupando algumas casas. Outro conjunto habitacional mais recente leva o nome de Olavo Calheiros, deputado estadual. O irmão mais novo de Renan também dá nome ao novo ginásio esportivo da cidade. No fim de 2015, a Controladoria Geral da União, órgão extinto pelo governo provisório de Michel Temer, constatou várias irregularidades nas áreas de saúde e educação, como o superfaturamento de obras de creches e escolas. 

Augusta e as dançarinas no revezamento da tocha em Murici (Foto: Leonardo Filipo)

Minutos antes da chegada da tocha a aposentada Augusta Virgínia da Conceição observava as dançarinas. Como muita gente humilde em Murici, buscava distração da vida dura e não fazia ideia de que o Rio de Janeiro vai receber o maior evento do mundo daqui a pouco mais de dois meses. Nem o que estava prestes a acontecer na cidade. 

- Vem aí a tal da tocha, né? Não sei como vai ser. Mas tá tudo muito bom.  

Via:Globo Esporte



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