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O mito da monarquia: fraudes, mentiras, ignorância e um plano perverso


Se há dez anos alguém me falasse que quer a volta da Monarquia e o fim do sistema republicano em nosso país, eu não acreditaria. Bom, na verdade, eu continuo não acreditando muito. Sério, eu não pensei que estaria vivo para presenciar seres humanos defendendo volta da monarquia, pelo menos não de maneira séria. Agora não duvido de mais nada: daqui uns anos vai vir gente defendendo a volta ao feudalismo, depois a volta ao sistema tribal, e então a volta à Idade da Pedra.

O leitor é inteligente o suficiente para saber que essa doidera é uma modinha bastante recente, que ganhou força de poucos anos pra cá, e também deve ser esperto o bastante para perceber que há algo muito estranho e suspeito em um movimento que surge “do nada” reivindicando algo tão insano e surreal. Neste artigo eu vou explicar em poucas palavras. Mas antes, eu peço que vocês vejam esses vídeos do canal Conservador Paulista, que são fundamentais para uma compreensão do que realmente foi a monarquia em nosso país, desmistificando muita coisa que comentarei resumidamente nas próximas linhas:

A verdade sobre o Brasil Império e a monarquia
A verdade sobre o Brasil Império e a monarquia (Parte 2)
Fatos desconhecidos sobre Dom Pedro II

Agora farei uma confissão: nestes quase dez anos de apologética, eu já conheci praticamente todos os argumentos de ateus, esquerdistas, espíritas, católicos, olavetes e até coisa pior (se é que existe), mas nenhum se compara em termos de desonestidade aos argumentos monarquistas. O monarquismo é o único de tudo que eu já vi que consegue mentir em ABSOLUTAMENTE TUDO, sem exceção. É incrivelmente tudo mentira, do início ao fim; todos os dados que usam são falsos, todas as informações que trazem são fraudulentas, todos os argumentos levantados são distorções grosseiras de pessoas que não estão errando por engano, mas pela mais pura e consciente desonestidade.

Deixe-me explicar: há alguns meses me deparei com uma grande lista de argumentos monarquistas numa página monarquista, que argumentava, entre outras coisas, que o Brasil imperial era um dos países mais ricos do mundo (mais rico que os EUA, inclusive!), que tinha a “maior marinha do mundo”, que tocava o terror até na Inglaterra, que Dom Pedro II era uma espécie de Guardião das Galáxias com superpoderes mágicos e uma sabedoria ancestral e que falava umas 200 mil línguas (e Isso sem ser pentecostal), dentre outras dezenas de pilhérias. Diferentemente de todos os defensores da monarquia, que engolem esse tipo de informação de internet sem conferir a veracidade de porcaria nenhuma (seja por preguiça de pesquisar ou pelo medo de ser confrontado), eu fiz questão de pesquisar em livros e documentos antigos a veracidade de cada uma dessas alegações.

A resposta que obtive é exatamente o que você já leu acima: é TUDO falso. Os documentos da época mostram como a marinha era decadente e obsoleta já no último período de Dom Pedro II, o Brasil tinha fama de ser um país inflacionário para os padrões da época, o país era menos industrializado do que o nanico Paraguai, a escravidão rolou à solta até o penúltimo ano do regime, os monarcas de outros países zombavam de Dom Pedro II de tão pouco “culto” que era, os Estados Unidos já estupravam o Brasil em termos econômicos numa proporção muito maior do que é hoje, e a monarquia trouxe ao Brasil quase oitenta anos de atraso e estagnação econômica que só foram em partes resolvidos com a república.

Publiquei minhas constatações primeiramente neste artigo, e depois postei um mais importante, que é de leitura obrigatória para qualquer um que tenha um mínimo de interesse no assunto, onde eu não apenas provo que os Estados Unidos já eram muito mais ricos que o Brasil na época da monarquia, mas também que foi justamente a república que deu impulso à economia de uma forma extraordinariamente superior ao período anterior. Se você ainda não leu, leia agora mesmo e só depois volte para este artigo.

Leia: O Brasil era mais rico e desenvolvido que os EUA? Demolindo mais um mito católico!

(Tabela que prova o quão “rico” e “desenvolvido” era o Brasil dos sonhos dos monarquistas...)

Em resumo: essa modinha de “monarquistas”, que provavelmente vai desaparecer tão rápido quanto surgiu e ninguém mais se lembrará dessa vergonha daqui uns dez anos, é um exemplo exato e perfeito da ignorância típica do brasileiro médio, que tem preguiça de estudar e investigar, e que tem uma predisposição incrível de aceitar qualquer bobagem que lê em qualquer blog ou vlog de fundo de quintal que não cita nenhuma fonte pra nada, desde que esteja pregando algo em conformidade com sua visão política e/ou religiosa. Infelizmente, essa é a triste realidade: se alguém ensina algo contrário à ideologia do indivíduo, não adianta citar trocentas referências bibliográficas e fontes acadêmicas, que será descartado e até ridicularizado a priori, e se fala qualquer asneira sem nenhum fundamento mas em conformidade com a ideologia da pessoa, é abraçada com alegria e defendida com entusiasmo.

Esse tipo de mistura de ignorância, desonestidade e fanatismo se vê fartamente presente no discurso dos jovens e fanáticos defensores da monarquia. Por sorte, nos últimos dias entrou aqui um desses sujeitinhos para nos servir de exemplo prático. Não sei quem é o sujeito pois escreveu no anonimato, em um artigo que não tem nada a ver com o assunto (esse aqui), mas só porque alguém me passou o link do canal que refuta a monarquia já foi o suficiente para ele sentir necessidade de expressar todo o seu amor pelo império (ou seja, para nos divertir um pouco com mais pérolas em primeiríssima mão). Se você tem algum interesse em acompanhar como a discussão começou, clique aqui e leia o primeiro comentário do sujeito. Depois disso tomou uma resposta à altura mas não desistiu, e postou o seguinte comentário que ilustra “como funciona a mente de um zumbi tridentino monarquista” (preparem a pipoca e se segure firme na cadeira para não cair de tanto rir):


Para começo de conversa, esse estilo de argumentação é muito comum desse tipo de sofista, que só sabe decorar slogans e frames e não tem nenhuma capacidade intelectual de levar uma discussão adiante argumento por argumento, por isso em vez de refutar qualquer coisa do meu texto preferiu apelar a duas táticas bem conhecidas: (1) Amontoar um monte de argumentos mentirosos de uma vez só (ou todos que conhece), para dificultar a refutação tornando-a cansativa, e porque isso é tudo o que sabe sobre o assunto; (2) encher de links do Youtube, de blogs, de páginas do facebook e um monte de parafernália, pois se o oponente for mesmo idiota de ver cada link não vai sobrar tempo de refutar nada, e logo mais e mais links virão um atrás do outro, sem parar (foi o que ele fez em seguida, bombardeando links antes mesmo de me dar tempo de responder qualquer coisa).

Agora vamos aos “argumentos” em si:

“me cite então pelo menos um grupo de protestantes que apoiaram o fim da escravidão antes de 1800 em algum país na América ou da Europa ou do mundo”

Pelo jeito ele nunca ouviu falar dos quakers, e muito menos deve conhecer John Wesley e John Newton. Talvez a leitura do capítulo 4 do meu livro “A Bíblia e a Escravidão” possa lhe ajudar um pouco (disponível na página dos livros).


“o papa sempre condenou a escravidão contra os índios e você fala isso”

Veja que ele nem mesmo menciona o nome do suposto papa que “condenou a escravidão”. Talvez porque esse seja um papa fantasma, pois todos de que temos nome foram veementemente em favor da escravidão. Com um discurso eloquente, o papa Eugênio IV, na bula Dudum Sicut (1435), proibiu a escravidão dos nativos da recém colonizada Ilhas Canárias, mas apenas dos “residentes batizados das Ilhas Canárias ou aqueles que buscam livremente o batismo”[1], deixando implícito que continuava permitida a escravidão de não-católicos que recusassem se converter. Após as queixas feitas pelo rei Eduardo de Portugal, ele permitiu expressamente que os portugueses escravizassem os não convertidos das ilhas[2]. Finalmente, em 1441 ele concedeu perdão total dos pecados a qualquer cristão que atacasse os sarracenos ao longo da costa da África Ocidental, cuja consequência seria a legitimação da escravidão dos cativos capturados durante os ataques[3].

O papa Paulo III, na bula Sublimis Deus (1537), se posicionou em favor da liberdade dos índios, mas voltou atrás logo no ano seguinte, em sua bula Non Indecens Videtur[4]. A Sublimis Deus nem sequer foi inclusa no Denzinger, o compêndio oficial dos ensinamentos da Igreja Católica[5]. Em 1545, esse mesmo papa revogou uma antiga lei que permitia que os escravos reivindicassem sua liberdade em frente à estátua do imperador no Monte Capitolino, incluindo os escravos cristãos[6], e ainda afirmou que era direito dos cidadãos de Roma comprar e vender escravos de ambos os sexos[7]. E em 1548, ele autorizou a compra e posse de escravos muçulmanos nos estados papais[8].

Alguns papas não hesitaram em se manifestar abertamente em favor da escravidão. Em 1452, o papa Nicolau V emitiu a bula Dum diversas, onde autorizava os portugueses a conquistar territórios ainda não católicos, e a escravizar perpetuamente muçulmanos, pagãos e “quaisquer outros incrédulos” que conseguissem capturar. Dirigida ao rei Afonso V de Portugal, o pontífice romano afirmava:

Outorgamos por estes documentos presentes, com a nossa Autoridade Apostólica, permissão plena e livre para invadir, buscar, capturar e subjugar sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo onde quer que se encontrem, assim como os seus reinos, ducados, condados, principados, e outros bens... e para reduzir as suas pessoas à escravidão perpétua.[9]
           
Três anos depois, esse mesmo papa emitiria ainda outra bula com o mesmo teor da anterior. Trata-se da Romanus Pontifex, que confirmou o domínio de Portugal sobre todas as terras situadas ao sul do cabo Bojador, na África. A bula permitiu a escravização dos nativos e fez menção aos “negros tomados à força, e alguns por contrato legal de compra”[10], o que não era visto como um problema já que “muitos deles foram convertidos à fé católica”[11].E quando a América foi descoberta, a primeira coisa que o papa Alexandre VI fez foi emitir a bula Inter cætera (1493), onde dividia os territórios entre Portugal e Espanha, sustentando que teriam “sob seu domínio os ditos continentes e ilhas com seus moradores e habitantes”[12], se tornando “senhores deles com pleno e livre poder, autoridade e jurisdição de toda espécie”[13].

Essas bulas papais têm sido interpretadas pelos historiadores como uma justificativa para a era do imperialismo[14]e até mesmo como o advento do comércio europeu de escravos na África Ocidental, abrindo um precedente para o futuro tráfico transatlântico[15]. Mesmo nos Estados Papais, governados pelo próprio papa, cerca de 200 mil pessoas foram mandadas para a escravidão nas galés, banidas para o exílio ou sentenciadas à prisão perpétua ou a morte, apenas no breve período entre 1823 e 1846[16]. Isso sem falar que a escravidão nas galés sempre foi uma das penas mais comuns da Inquisição, como mostro neste artigo. Portanto, a Igreja Romana sempre foi a favor da escravidão. Ela podia em um momento ou outro se opor a um tipo específico de escravidão, como a escravidão de católicos, mas nunca da escravidão em si, como fizeram os quakers.


“essa afirmação sobre d. Pedro não faz sentido porque ele era abolicionista”

Mais uma mentira deslavada. Dom Pedro II não apenas era um escravocrata, mas era também o maior proprietário de escravos do Brasil[17]. Enquanto todos os outros países da América já haviam abolido a escravidão há décadas, o Brasil sob o regime de Dom Pedro II permaneceu escravocrata até a beira da proclamação da república, em 1888. Esse imperador reinou desde 1841 e permitiu a escravidão por quase cinquenta anos ininterruptos, até próximo de sua deposição. Então, de duas uma: ou ele era um escravista, ou era extremamente incompetente para não ter conseguido abolir a escravidão muito antes – nem mesmo depois que todos os outros países já haviam abolido. No meu artigo anterior um leitor atentou para uma outra possibilidade, a de que ele não aboliu antes “por medo de perder o poder”. Então ampliamos as possibilidades para três: ou ele era escravista, ou era incompetente, ou um covarde. Qual os monarquistas vão preferir?


“os EUA aboliram a escravidão em 1864. o Brasil em 1888. mas mesmo assim... EUA é independente desde 1776 e nós desde 1822. entao não pode falar nada”

Realmente não entendi nada o que isso tem a ver. Talvez seja o efeito das drogas, ou apenas o maior non sequitur que eu já vi.


“E vcs protestantes fizeram perseguições tb”

Mais uma vez não cita exemplos, porque se citasse veria que já foi refutado de antemão aqui. Ou talvez foi justamente por isso que não citou.


“Não negue que a igreja católica construiu a civilização ocidental.... o Papa Bento xvi disse que o mundo ocidental se resume em filosofia grega, direito romano e igreja católica (cristianismo) portanto vc vai contra esse princípio”

Essa foi a melhor parte da argumentação. “A Igreja Católica construiu a civilização ocidental”. Por quê? Porque o PAPA disse isso! Com um argumento tão brilhante eu não preciso nem perder tempo refutando. Daqui a pouco o Inri Cristo irá dizer que construiu a civilização ocidental também, porque as “inriquetes” dizem isso (e sim, as “inriquetes” existem mesmo, veja aqui).


“Vcs protestantes não tem visibilidade nenhuma na mídia nem no YouTube”

Ui, que meda! Vamos abrir canal no Youtube então, gente!


“A histeria anti-monarquista e católica sua e do vídeo que vc mandou nada vai afetar a monarquia brasileira. até porque a população está vendo que a monarquia é a única saída pro Brasil e vc e esse canal paulista não tem audiência nenhuma”

Realmente, o Brasil inteiro está vendo que a monarquia é a única saída por causa de canais no Youtube!!! Mesmo porque existem muitos canais monarquistas com dezenas de milhões de seguidores para alcançar as mais de duzentas milhões de pessoas da nação (#sqn).


“ele quase foi eleito presidente dos EUA em 1877”

Eu quase tive um ataque cardíaco aqui, talvez a expressão “morrer de rir” nunca foi tão literal. Esse Pedrão era o máximo mesmo! Conseguiu ser “quase eleito” numa eleição de um país que cuja própria Constituição proíbe a mera candidatura de alguém que não seja estadunidense, e ainda fez isso em 1877, que nem mesmo era ano de eleição (veja aqui)! Talvez tudo isso seja parte do argumento monarquista, ou seja, o Pedrão era tão bom, mas tão bom, que quase foi eleito presidente dos Estados Unidos contra a própria Constituição do país e em um ano que nem de eleição era! E vocês ainda ousam ser contra a monarquia!!!?

P.S: depois descobri que essa lenda veio de um livro escrito por um tal de Leopoldo Bibiano Xavier, seja, a "fonte" deles é um suposto "historiador" que nem o Google conhece. Na verdade, nem deve ser um historiador, apenas mais um palpiteiro monarquista revisionista moderno. A única coisa que encontrei na web sobre esse tal Leopoldo Bibiano Xavier foi uma página do LinkedIn que diz que ele mora em Curitiba e é "Analista de Sistemas na Celepar"...


“falava 18 línguas fluente e 25 no total ele conhecia”

Isso mesmo, e segundo a imprensa da Coreia do Norte o ditador Kim Jong-un tem poder de controlar a natureza, aprendeu a dirigir com 3 anos de idade, aos 9 já era campeão de iatismo, aprendeu a nadar com três semanas de vida e a falar com oito, além de ter escrito 1.500 livros quando ainda tinha 3 anos (saiu até no G1, veja aqui). Vai falar que não?


“Era respeitado por Nietzsche Darwin e outros sábios”

Muito bom ter citado o pai do niilismo e o pai da eugenia (e ainda sem fontes), realmente isso melhora muito as coisas aqui.


“O Brasil humilhou a Inglaterra protestante e eles tiveram que pedir desculpas pq iríamos pra guerra e provavelmente vencer por termos a melhor Marinha do mundo”

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Isso não merece uma resposta, merece um meme!


P.S: sobre a palhaçada de o Brasil ter “humilhado a Inglaterra”, eu já respondi aqui, juntamente com a refutação de que Dom Pedro II falava “18 línguas” (na verdade ele era tão inculto que provocava as risadas dos criados, e era descrito como egoísta e de cultura superficial pelos correspondentes da época). O mais impressionante não é o imperador falar 18 idiomas, são os monarquistas inocentes acreditarem nisso. E o Brasil “humilhou” tanto a Inglaterra nessa ocasião quanto humilhou a Alemanha na Copa de 2014.

P.S 2: sobre ter a “maior marinha do mundo” sem jamais tal marinha imbatível ser sequer citada nas centenas de livros de história que já li, o próprio Barão do Rio Branco (que era um monarquista convicto) dizia que “a situação da marinha brasileira é tão caótica que não temos esquadras, nem torpedos, nem exército, e os argentinos tem tudo”[18], e acrescenta que se houvesse uma guerra entre ambos, os brasileiros passariam “uma grande vergonha”.


“reveja seus conceitos sobre a monarquia e a igreja católica”

Acho que já estou revendo. É pior do que eu pensava!

Após postar esse comentário, ele não perdeu nem um segundo sequer e já mandou esse outro, com o mesmo nível intelectual do anterior:


E lá vamos nós de novo...

“kkkkkkkkkkkk pode fazer o que quiser mas a monarquia vai ser restaurada em breve”

Já estou até vendo.


“o catolicismo está crescendo nos EUA e o protestantismo está diminuindo rapidamente”

Mudou de assunto, mas não mudou sua capacidade de disseminar mentiras e delírios. Essa piada de que a Igreja Católica está “crescendo” nos Estados Unidos é uma palhaçada que já foi refutada há anos neste artigo:

A Igreja Católica está crescendo nos Estados Unidos!!!!! (#sqn)

Leiam esse artigo e vejam como os apologistas católicos estão inventando dados sem nenhuma fonte, tirados do seu próprio focinho, e que os dados oficiais mostram uma queda no número de católicos tão vertiginosa quanto a de protestantes, mas ainda continuamos na frente com uma larga vantagem de 51% contra 23% (mesmo levando em consideração a intensa onda de imigração legal e ilegal vinda dos países latinos, que são católicos). Para se ter uma ideia, só em Nova York nada a menos que 40 igrejas católicas foram fechadas por falta de fieis:


Mas pelo jeito a regra é a mesma em se tratando de defesa da monarquia ou de antiprotestantismo: qualquer dado vagabundo encontrado em um blog católico chulo de fundo de quintal e sem absolutamente nenhuma credibilidade “tá valendo”. É realmente um amadorismo sem fim.


“já tem até proposta para haver referendo sobre ela igual de 1993!! kkkkkk vc e esse canal paulista pode esperar pra vc isso acontecer”

Na verdade eu gostaria mesmo que acontecesse, porque os monarquistas iriam levar uma paulada tão grande, que a de 1993 iria ficar no bolso. Há muitos brasileiros burros, mas não tantos a ponto de fazer voltar a monarquia. Aliás, é curioso notar que eles adoram falar que a república foi um “górpe”, falam em golpe mais do que petista saudosista da Dilma, mas se esquecem que quem deu o verdadeiro golpe muito antes dos republicanos foi o seu adorado Pedrão (sim, o Dom Pedro II), com o famigerado golpe da maioridade. E pelo menos a república fez um plebiscito perguntando ao povo o que ele queria e lhe dando a oportunidade de escolha, enquanto a monarquia nunca sequer pensou em fazer isso e nem faria, mesmo que durasse mais uns dez mil anos no poder. Fosse esperar o reizinho entregar o poder de livre e espontânea vontade e proclamar a república, e isso não teria acontecido NUNCA. Seríamos até hoje um país atrasado, com um nível de industrialização ridículo e nivelado com países que até hoje mantém a monarquia, tais como:

• Antígua
• Arábia Saudita
• Bahrain
• Barbados
• Brunei
• Butão
• Catar
• Camboja
• Dominica
• Emirados Árabes
• Jordânia
• Lesoto
• Omã
• Suazilândia
• Tailândia
• Tonga

Ou seja, verdadeiros pesos-pesados da economia, com PIB per capita invejável e super desenvolvidos (#sqn).

Depois disso, o sujeitinho apenas se limitou a copiar e colar uns trocentos links monarquistas que foi catando desesperadamente no Google de forma totalmente aleatória, que nem ele mesmo deve ter lido, mas que sabe que fortalecem a sua causa. É esse o estereótipo de um monarquista típico: gentinha arrogante e prepotente, que já entra com escárnio e “kkkkks”, cuja agressividade é proporcional à sua falta de argumentos, e cujos argumentos fazem jus a seu analfabetismo funcional. Houve o tempo em que eu pensava que ser apologista tridentino era o degrau mais baixo que um ser humano poderia chegar, mas então percebi que dá pra ser tridentino e monarquista ao mesmo tempo e piorar tudo ainda mais. Finalmente me dei por convencido de que não há nada que não possa ser piorado.

A essa altura, você pode estar se perguntando por que raios que essa coisa de “volta da monarquia” foi inventar de surgir bem agora, de repente, e por que há tantos canais no Youtube de gente “importante” defendendo essa maluquice. Essa parte tem tudo a ver com o tema desse blog, e para entendê-la é preciso primeiro ter uma noção do que era o Brasil em termos religiosos antes da proclamação da república. Primeiro, não havia liberdade de culto. Os protestantes eram proibidos de construir ou se reunir em qualquer local de culto visível (ou seja, em igrejas), então tinham que se reunir confinados nas casas como a igreja primitiva fazia, sofrendo muita perseguição e preconceito.

Acredite se quiser, mas os protestantes da época da monarquia não podiam se casar, pois nos países católicos não existia o casamento civil (essa foi uma invenção dos protestantes malvados, que visavam dar igualdade para todos), e o único casamento aceito era o católico, ou seja, o realizado numa Igreja Católica por um padre e seguindo o rito católico. Os protestantes não eram considerados “casados”, mas apenas “ajuntados”. Foi a república que separou a Igreja e o Estado, de modo a instituir o casamento civil, oferecendo igualdade de direitos para as pessoas de todas as religiões. É por isso que o Estado laico é tão odiado pelos papistas raivosos e fanáticos: eles não aceitam a ideia de um Estado igualitário e neutro que dê liberdade plena aos protestantes, mas sim aquele Estado católico que persegue as demais religiões até a morte (literalmente). É só assim que eles conseguiram sobreviver até hoje, porque está mais do que provado que em qualquer ambiente de neutralidade de condições os católicos sempre perdem (é por isso que perdem fieis no mundo todo, e o protestantismo tanto cresce).

Sendo mais preciso, o ódio dos católicos tridentinos não é ao Estado laico em si, mas aos protestantes, e o ataque à laicidade do Estado é apenas uma forma que encontram para abolir a liberdade que hoje desfrutamos para nos fazer voltar a séculos obscuros. A defesa da volta da monarquia diz respeito a um PROJETO POLÍTICO dos católicos tridentinos, depois que viram todas as suas tentativas teológicas falharem miseravelmente. Por décadas e décadas tentaram frear o protestantismo pela apologética e só tem levado pancada atrás de pancada até hoje, pelo simples fato de que qualquer criancinha que tenha a capacidade de abrir uma Bíblia e a ler já basta para deixar de ser católica. Como a via teológica é um fracasso consumado, a alternativa que lhes restou foi a via política, e para isso nada melhor que a volta de um sistema que tira a liberdade e igualdade dos protestantes perante a lei, ou seja, a volta da monarquia.

Só um Estado católico forte é que pode salvar o catolicismo – pelo menos é como eles pensam. A monarquia em si é apenas um instrumento, um subtefúrgio utilizado para se alcançar este propósito, é por isso que eles mentem tanto e tão descaradamente para defendê-la. Não há NENHUM argumento monarquista que não seja uma mentira grosseira e grotesca, e eles sabem disso, mas não estão nem se lixando pra esse fato, porque não lhes interessa a verdade e nem tampouco se importam com a monarquia em si, apenas convém defendê-la por conveniência através de qualquer meio mentiroso a fim de servir de aio para o fortalecimento do catolicismo romano.

É por isso que a “apologética da monarquia” é tão mentirosa quanto a apologética católica – na verdade, se trata da mesma apologética, criada pelos mesmos indivíduos, com a mesma finalidade, apenas se mudando a via: uma ataca pela via teológica, e enquanto isso a outra tenta conquistar espaço pela via política. E ambas se aproveitam da ingenuidade e até da preguiça intelectual do povo brasileiro em geral, pois sabem que 99% das pessoas não vão checar a origem e a veracidade dos dados e informações transmitidos, e assim vão engolir qualquer mentira grotesca e esfarrapada inventada descaradamente e jogada na cara dos imbecis que a vão comprar sem nem pensar duas vezes. Se for vem bem, verá que é o mesmo modus operandi dos esquerdistas: pode mentir o quanto quiser, se o propósito for “nobre”. É também a moral jesuíta histórica, e tão plenamente incorporada pela apologética católica de ontem e de hoje.

Se você for evangélico e atualmente defende a volta da monarquia ou simpatiza com a ideia, não se deixe ser enganado. Você é só mais um peão nesse tabuleiro, um “idiota útil” para eles, alguém que não sabe com o que está lidando. Isso nunca teve a ver com a monarquia, e por isso ela foi esquecida por mais de um século. Isso tem a ver com o fim do Estado laico, e com um objetivo bastante específico em mente. Foi o Estado laico trazido pela república que nos trouxe liberdade de culto em igualdade aos católicos. É por isso que os papistas odeiam tanto o Estado laico, pois sabem que acabando com o Estado laico estariam acabando com os protestantes, e o jeito mais simples e fácil de se voltar ao Estado confessional católico é restaurando a monarquia. Isso resume e explica tudo.

Eles podem transvergir o quanto quiserem para não tornar a coisa tão óbvia, mas é exatamente o que eles têm em mente, e bem por isso os que encabeçam o movimento monarquista no Brasil são precisamente os mesmos que odeiam os protestantes com todas as forças e que passam a vida toda glorificando a “Santa” Igreja Romana e nos difamando sem parar. Isso é guerra cultural, e não percebê-la é o primeiro passo para a ruína. Por mais estúpida e bizarra que a ideia da monarquia possa parecer, e que de fato é, qualquer estupidez pode se tornar uma realidade se nada for feito a respeito. O comunismo está aí para nos mostrar isso. Desconfie de todos esses que pregam soluções mágicas para o Brasil – ainda mais quando se trata da volta de algo que não deu certo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

• Recomendado: O Brasil era mais rico e desenvolvido que os EUA? Demolindo mais um mito católico!



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