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A fábula da unidade católica e a verdadeira unidade cristã


Uma das coisas mais fascinantes em estudar a história da Reforma é a Guerra dos Trinta Anos. Fascinante não pela guerra em si, que foi um horror que resultou no maior número de mortos em guerras até a época – foram entre três e onze milhões de vítimas –, quando os príncipes e reis católicos quiseram impor o catolicismo à força através da espada e os protestantes se reuniram para defender seu território, sua fé e suas vidas. Antes, a história torna-se fascinante pelo seu desfecho absolutamente inesperado: quando tudo parecia completamente perdido para o campo reformado, com a poderosa Espanha saindo em auxílio dos católicos e os exércitos papistas prevalecendo contra a liga protestante, um país católico entra na guerra e embaralha tudo: a França.

É claro que a França não entrou para ajudar os protestantes, uma vez que ela própria praticava massacres sistemáticos de calvinistas franceses (os huguenotes). Ela entrou porque viu nesse conflito uma oportunidade de ouro para derrotar sua arquirrival Espanha, agora debilitada pela guerra que se envolvia, e por isso entrou do lado protestante da causa e, juntos, propiciaram uma das maiores reviravoltas na história das guerras, dando a vitória à causa protestante que já parecia perdida. Nessa guerra que os católicos ganhariam facilmente se fossem unidos e que os protestantes seriam completamente esmagados se fossem divididos, foi a união protestante e a divisão católica que deu a vitória ao lado protestante da causa.

Isso me fez refletir sobre o tema mais abordado pela apologética católica contra os protestantes: a tal “unidade” católica e a “divisão” protestante. Já escrevi dúzias de artigos sobre isso, mas sempre com uma ênfase doutrinária, como pode ser conferido nesta lista de artigos. Como pode ser facilmente constatado através dos artigos, tanto as acusações de divisão doutrinária no protestantismo são exageradas, como a “unidade” doutrinária romanista é fantasiada. Mas então eu me dei conta de que, inconscientemente, eu estava caindo na cilada católica, que consiste justamente nisso: reduzir o conceito de “unidade” apenas ao campo doutrinário.

O objetivo do apologista católico é usar o termo “unidade” ou seu antagônico “divisão” apenas em relação à doutrina, para assim poder criar a ilusão da Igreja Romana “una” e do protestantismo “dividido”. Ele faz isso porque sabe que se debater com base no conceito bíblico de “unidade” estará completamente perdido e, de fato, não terá qualquer vantagem real para ser usada contra os protestantes. Então eu decidi reler todos aqueles textos bíblicos usados no contexto de unidade e divisão, a fim de tirar a limpo se quando Jesus e os apóstolos falavam nisso eles estavam fazendo jus ao conceito papista do mesmo (ou seja, de que só vale para o campo doutrinário), ou se diziam respeito a algo mais. O resultado vocês verão agora.

Comecemos com o primeiro texto e o mais clássico deles, o de João 17, onde Jesus estabelece as bases do princípio fundamental de unidade cristã:

João 17
17 Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
18Assim como me enviaste ao Mundo, eu os enviei ao mundo.
19 Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade.
20 "Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles,
21para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.
22Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um:
23eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.
24"Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste porque me amaste antes da criação do mundo.
25"Pai justo, embora o mundo não te conheça, eu te conheço, e estes sabem que me enviaste.
26 Eu os fiz conhecer o teu nome, e continuarei a fazê-lo, a fim de que o amor que tens por mim esteja neles, e eu neles esteja.

Note que Jesus não fala de doutrina neste contexto, mas ressalta com a máxima força a verdadeira unidade dos cristãos: a unidade no amor. Os versos iniciais evocam a tônica da santificação, e então Jesus apela para que seus discípulos fossem “um”. Mas “um” com que finalidade? A resposta está na própria continuação do verso (v. 23): para que o mundo saiba que Deus enviou Jesus. Em outras palavras, o propósito maior da unidade era que o mundo olhasse os cristãos e visse neles a diferença. É lógico que isso não tem nada a ver com doutrina, porque ninguém do mundo seria levado a virar cristão por ver que tem uma doutrina unificada. Isso até os espíritas tem. Em vez disso, o propósito era que as pessoas do mundo olhassem a unidade no amor que deveria predominar entre os cristãos, e então visse neles a verdadeira diferença.

Em outras palavras, enquanto as pessoas do mundo estariam se odiando mutuamente, guerreando entre si e envolvidas em cólera e ira, os cristãos seriam o oposto a isso tudo: fariam a diferença no mundo, estando unidos de tal forma no amor de Cristo que o mundo veria a paz que reina entre eles e desejaria se tornar um deles. O amor era o elemento fundamental para que os incrédulos viessem a Cristo. Os crentes deviam espelhar o amor de Cristo no convívio harmonioso e pacífico entre si, de modo a levar o mundo a reconhecer que Jesus é a Verdade. É a unidade no amor, antes que uma confissão doutrinária, que mostraria ao mundo quem é o verdadeiro povo de Deus.

Procurando nas epístolas, notei também que este era o conceito fundamental de unidade em Paulo, que escreveu aos efésios:

“Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:2-3)

“Conservar a unidade”, para Paulo, consistia no vínculo da paz, associado a um espírito humilde, dócil e paciente, suportando tudo com amor, em vez de consistir em um complexo corpo doutrinário com uma autoridade central dizendo tudo o que alguém pode crer e no que não pode, e excomungando todos os que pensam diferente em qualquer coisa. É por isso que Paulo considerava uma “completa derrota” o fato de haver litígios (divisões) entre os cristãos, e ele não estava falando de doutrina, mas em relação às “coisas dessa vida”, que os crentes levavam aos tribunais civis:

“Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes. Digo isso para envergonhá-los. Acaso não há entre vocês alguém suficientemente sábio para julgar uma causa entre irmãos? Mas, ao invés disso, um irmão vai ao tribunal contra outro irmão, e isso diante de descrentes! O fato de haver litígios entre vocês já significa uma completa derrota. Por que não preferem sofrer a injustiça? Por que não preferem sofrer o prejuízo? Em vez disso vocês mesmos causam injustiças e prejuízos, e isso contra irmãos!” (1ª Coríntios 6:1-8)

Não era uma divergência teológica que tornava aquele litígio uma “completa derrota”, mas uma discórdia sobre coisas dessa vida, o que mostra que, para Paulo, o conceito de unidade cristã era antes de tudo o “vínculo da paz” (Ef 2:3), mais do que um “vínculo doutrinário”. Mesmo quando Paulo fala sobre estarmos juntos em “um só pensamento e num só parecer”, era no contexto de se gloriar em homens, que era a razão pela qual havia “divisões” na igreja de Corinto:

“Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico a todos vocês que concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês, e, sim, que todos estejam unidos num só pensamento e num só parecer. Meus irmãos, fui informado por alguns da casa de Cloe de que há divisões entre vocês. Com isso quero dizer que cada um de vocês afirma: ‘Eu sou de Paulo’; ‘eu de Apolo’; ‘eu de Pedro’; e ‘eu de Cristo’. Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vocês? Foram vocês batizados em nome de Paulo?” (1ª Coríntios 1:10-13)

Portanto, ninguém se glorie em homens; porque todas as coisas são de vocês,
seja Paulo, seja Apolo, seja Pedro, seja o mundo, a vida, a morte, o presente ou o futuro; tudo é de vocês, e vocês são de Cristo, e Cristo, de Deus” (1ª Coríntios 3:21-23)

Paulo não diz que a igreja de Corinto estava dividida por causa de doutrinas erradas, embora as cartas de Paulo não deixassem dúvidas de que os coríntios sofriam desse problema (1Co 14-15). Mas o que de fato estava causando divisão naquela igreja era o fato de eles se gloriarem em homens, o que fazia com que aquela igreja se dividisse em partidos em torno de cada personalidade cristã – quando Paulo deixa claro que todos devem ser “um” em torno de Cristo.

A única vez em que Paulo fala sobre divisão em um contexto que diz respeito ao ensino é em Romanos 16:17, quando diz:

“Recomendo-lhes, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que vocês têm recebido. Afastem-se deles” (Romanos 16:17)

E mesmo assim, havia claramente um grau de tolerância, porque o mesmo apóstolo escreve em outra ocasião:

“Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados” (1ª Coríntios 11:18-19)

Vamos resumir o que constatamos até aqui:

• A unidade cristã se refere, essencialmente, à unidade no amor, antes que a um corpo doutrinário uníssono.

• Conservar a unidade na Igreja significa manter o vínculo da paz, relacionado a um espírito humilde, dócil e paciente, suportando tudo com amor.

• Litígios sobre coisas dessa vida já significavam uma “completa derrota”, mesmo se não tivessem nada a ver com doutrina.

• Ensinos errôneos também podiam causar divisão, mas até certo ponto Paulo concordava e achava até mesmo necessário.

A conclusão que tiramos de tudo isso é uma só: o conceito de “unidade” de modo algum se limita à doutrina. Qualquer litígio entre cristãos que professam uma fé comum, qualquer falta de amor ou de paz, ou discórdias relacionadas a questões dessa vida, já era uma “divisão”, já era um rompimento da unidade. De todas as vezes que a Bíblia fala em unidade ou divisão, apenas uma diz respeito a um conceito claramente doutrinário, precisamente por não ser o foco maior. A ênfase toda recai sobre o amor ou a falta dele.

Agora voltemos à época da Reforma. Qual lado se enquadrava mais no conceito bíblico de unidade? Embora o lado católico romano provavelmente estivesse mais perto de uma unidade doutrinária (assegurada pela Inquisição e pelas severas proibições à liberdade de consciência, de expressão e de imprensa), o lado protestante era obviamente o que melhor se enquadrava no conceito de unidade bíblica. Países católicos, como Espanha e França, lutavam entre si por séculos. Como mostro neste artigo, até o papa chegava a entrar no meio e a se aliar aos turcos muçulmanos para combater o reino mais fervorosamente católico da época, a Espanha. Apenas o ódio aos protestantes os unia. Na época em que todos eram católicos, França e Inglaterra perpetraram uma guerra que durou mais de cem anos. Mesmo durante as Cruzadas, quando reis católicos combateram juntos, o rei Filipe da França voltou ao seu país para roubar as terras de Ricardo Coração de Leão. Quando o rei inglês soube disso, ficou irado e voltou também para lutar com ele.

Em contrapartida, os protestantes eram indiscutivelmente muito mais unidos entre si. Durante séculos, a única guerra entre dois países protestantes foi uma que durou dois anos entre Holanda e Inglaterra, e mesmo assim com um desgosto enorme da população de ambos os países por se tratar de irmãos com uma mesma fé. Por causa disso, os dois lados fizeram o máximo esforço para acabar com as hostilidades o quanto antes, e logo que a guerra acabou, ambos se reuniram e Oliver Cromwell fez uma festa celebrando a paz, onde leu o Salmo 133:1 – “Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!”, expressando sua alegria pelo fim dessa guerra entre países irmãos.

Ainda hoje, os apologistas católicos convivem em pé de guerra entre si. Basta ver o que a Montfort pensa do Veritatis, o que Paulo Leitão pensa de Paulo Ricardo, o que Orlando Fedeli pensava de Olavo de Carvalho, o que os tradicionalistas pensam da renovação carismática, o que meio mundo pensa do padre Fábio de Melo, do padre Marcelo, do padre Quevedo, do padre Pinto, do Leonardo Boff, dos sedevacantistas, dos veterocatólicos, dos ortodoxos, dos teólogos da libertação, dos modernistas, dos liberacionistas, dos ecumênicos, dos episcopais e, finalmente, dos “padres comunistas” da CNBB... é um verdadeiro UFC católico. Se os católicos não são divididos, eu realmente não sei o que é.

A questão está muito longe de dizer respeito apenas aos dogmas de fé. Quando um católico é levado a refletir sobre tudo isso, ele geralmente responde com a carta na manga que todo apologista católico possui: limita a divisão ao campo doutrinário, então limita o campo doutrinário à “doutrina oficial” da Igreja Romana (na perspectiva do próprio católico em questão, é claro), então afirma que tal pessoa ou segmento católico não é “católico de verdade”, e então exulta de alegria, como se tivesse resolvido o problema. Se o apóstolo Paulo estivesse vivo nos dias de hoje vendo essas tretas todas, provavelmente diria que esses litígios já são uma “completa derrota” (1Co 6:7), pertencendo ou não ao campo doutrinário. Eu sinceramente nunca vi apologistas protestantes esbravejando entre si com tanto ódio quanto os apologistas católicos fazem entre eles – mas somos nós os “divididos”, é claro!

O meio protestante possui mais liberdade doutrinária, mesmo porque “liberdade” é uma palavra inexistente no dicionário papista. Mas essa pluralidade de doutrinas com os elementos centrais (as Cinco Solas, por exemplo, e os credos que qualquer protestante subscreveria) de modo algum significa que os protestantes são “mais divididos” que os católicos, se tomado no sentido bíblico e primordial de unidade. Para começo de conversa, uma religião em que 80% dos fieis não vai sequer à igreja não pode ser “una” nem aqui nem na China. E os poucos praticantes entram em discórdias mais ásperas entre si por qualquer bobeira insignificante (como se o comungante pode receber a hóstia com a mão ou só diretamente na boca) do que qualquer protestante discute com outro protestante sobre qualquer assunto.

A unidade cristã pode ser bem resumida naquela máxima geralmente atribuída a Agostinho: “Nas coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, amor”. Essa é a verdadeira unidade cristã, bem distante da fábula da unidade católica.

Leia também: A Igreja invisível perfeita e a Igreja visível imperfeita

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.facebook.com/lucasbanzoli1)


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