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Breve refutação a dez calúnias católicas sobre a Reforma


Estou redigindo um livro sobre a Reforma Protestante, que pretendo que fique pronto até o aniversário de 500 anos da Reforma, em 31 de outubro. Para esse fim, há meses venho lendo o máximo de livros possíveis sobre o tema, pois pretendo que o mesmo tenha pelo menos cem referências bibliográficas, que é o mínimo exigido em qualquer trabalho acadêmico sério em história (essa é a principal razão pela qual tenho atualizado tão pouco o blog ultimamente). Aqui eu não vou argumentar extensivamente em cima de cada ponto que os papistas sem estudo e nem formação distorcem e mentem descaradamente, o que deixarei para fazer em profundidade no livro, com capítulos específicos referentes a cada questão abaixo e a muitas outras.

Neste artigo irei fazer apenas um resumo das refutações a cada calúnia ou difamação romanista sobre a história da Reforma, pois muitas pessoas me perguntam querendo uma explicação breve e direta ao ponto sobre esses assuntos, e esse artigo será a resposta para esses questionamentos. Se o que você deseja é uma resposta mais completa e fundamentada com muitas citações e documentações, espere o lançamento do livro, pois aqui serei o mais sucinto possível. As referências bibliográficas de todas as informações aqui passadas estarão no final do artigo, embora eu tenha selecionado apenas as referências principais, e não todas.

Aproveite a leitura, pois este será provavelmente o único texto formulado por alguém que realmente leu e estudou a fundo esses temas, em vez de apenas copiar e colar de outros sites, como eles só sabem fazer.

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Calúnia 1: Existiu uma “Inquisição protestante”, que matou mais que a católica.

Resposta: “Inquisição protestante” é um termo que inexiste completamente em livros de história escritos por historiadores conceituados ou em publicações acadêmicas sérias. Este mito foi inventado recentemente por blogs de apologética católica americana na tentativa de amenizar a Inquisição católica (ou seja, a que existiu), e “importado” pela apologética católica brasileira. Digite “Inquisição protestante” em qualquer buscador e só achará blogs católicos (veja aqui) Eles não são capazes de citar um único livro que não seja de proselitismo católico que defenda este conceito. Fale em “Inquisição protestante” em um ambiente acadêmico e você será completamente ridicularizado. Em resumo, a famigerada “Inquisição protestante” é completamente desconhecida pelos historiadores, embora onipresente nos blogs católicos.

Como se não bastasse a criação do mito da "Inquisição protestante", ainda inventaram um outro: que essa tal Inquisição "matou mais que a católica"! Ou seja: os Protestantes criaram uma Inquisição mais mortífera que a católica, mas como todos os historiadores do planeta são muito ruins e estão todos em uma conspiração mundial anticatólica, eles só falam da Inquisição católica, e foi preciso que blogueiros católicos amadores do século XXI que nunca abriram um livro na vida mostrassem toda a "verdade" ao mundo! Sim, e o Papai Noel existe.

De fato, para existir uma Inquisição protestante, seria necessário existir um tribunal eclesiástico protestante com esse nome, que julgasse as pessoas pelo “crime” de heresia e as condenassem como “hereges”. Isso, obviamente, nunca existiu. É por isso que os blogs católicos que inventam o mito da “Inquisição protestante” se baseiam em episódios isolados, sem relação entre si e completamente distorcidos, como por exemplo a Guerra dos Camponeses, o Saque de Roma, a Genebra de Calvino, a Inglaterra nos tempos de Henrique VIII e outros episódios semelhantes que eles juntam tudo em uma verdadeira “salada de frutas” e chamam isso de “Inquisição”. Analisarei resumidamente estes casos a seguir.


Calúnia 2: Lutero é o culpado pela morte dos camponeses na “Guerra dos Camponeses”.

Resposta: Os camponeses em questão não eram “simples camponeses” pacíficos que apenas faziam o seu trabalho tranquilamente até de repente chegar o Lutero malvadão mandando matar todos eles do nada, como a nefasta apologética católica transmite aos seus leitores de forma pateticamente distorcida. Na verdade, eram revolucionários sociais, que não hesitavam em depredar, destruir e assassinar para chegar ao seu fim último: uma revolução estilo comunista liderada por Thomas Müntzer, um místico espiritualista com ideias mirabolantes que queria implantar a revolução à força, independentemente do número de mortes ou do caos social que isso poderia trazer.

Lutero a princípio escreveu várias cartas aos camponeses, exortando que não partissem para o vandalismo e que se submetessem às autoridades como diz a Escritura, e também aos príncipes, sustentando que muitas pautas dos camponeses eram justas e que tinham que oferecer melhores condições de vida a eles. Mas enquanto os príncipes se mantiveram passivos, os camponeses partiram para o vandalismo, praticando assassinatos, chacinas e depredações por onde passavam, tirando a vida inclusive de famílias que não tinham nada a ver com isso. Isso era inadmissível na concepção de Lutero, que aí sim, e só então, escreveu que os príncipes deveriam sufocar a rebelião, uma vez que toda forma de diálogo havia se demonstrado impossível. Então ocorre a guerra, que termina mal para os camponeses.

Se Lutero tivesse ficado em favor dos camponeses ou se tivesse sido omisso, os católicos estariam nessa hora o acusando de tolerar ou favorecer o vandalismo dos camponeses e sua revolução social pela violência; como ficou contra isso, agora os católicos o acusam de ser um malvadão que queria o extermínio dos pobres camponeses indefesos! Ou seja, qualquer coisa que Lutero fizesse, seria acusado de qualquer jeito. E vale ressaltar que nessa época a Alemanha não era protestante, mas um Império dividido entre estados protestantes e católicos, sendo os católicos a maioria. Quando a revolta tomou contornos violentos, os príncipes católicos e protestantes se uniram para derrotá-la; ou seja, se os protestantes devem ser responsabilizados por um suposto “massacre de camponeses”, os católicos também devem. Finalmente, os príncipes (católicos ou protestantes) não precisavam do conselho de Lutero para defender seus territórios – eles obviamente o teriam feito de qualquer jeito.


Calúnia 3: Os camponeses eram protestantes, que só se revoltaram por culpa de Lutero.

Resposta: Embora os camponeses fossem conhecidos como “anabatistas”, que mais tarde se tornaram um grupo protestante, “anabatista” era um termo genérico aplicado a qualquer um que fosse a favor do rebatismo para os adultos, independentemente da teologia que tivesse. Em outras palavras, um místico espiritualista, extremista e violento que não cria em nenhum princípio da Reforma (como Müntzer) era considerado “anabatista” da mesma forma que Menno Simons, um protestante extremamente pacifista que repugnava tudo o que Müntzer representava, embora ambos fossem chamados de “anabatistas” simplesmente por causa da questão do batismo. Diferente do grupo de Simons, o de Müntzer não tinha nada de protestante; tudo o que queriam era a revolução social, não tinham sequer uma confissão de fé “reformada”.

O próprio Müntzer trocava ofensas com Lutero, o chamando de diabólico e detestando a sua causa. Em termos simples: Lutero (e os protestantes) estavam em um grupo totalmente distante de Müntzer (e os anabatistas que o seguiam). A difamação de que a revolta só aconteceu por culpa da agitação causada pelo protestantismo de Lutero também é um disparate, visto que diversas rebeliões de camponeses semelhantes a esta ocorriam aos montões antes da Reforma, tanto na Alemanha como fora dela. Uma revolta de camponeses na Inglaterra do século XIV quase resultou no fim do Reino.

Revoltas desse tipo eram comuns porque o sistema encabeçado pela Igreja Católica oprimia os camponeses, que em muitos casos eram semelhantes a um escravo, o que gerava rebeliões em toda parte. Tivesse a Igreja oferecido condições dignas aos camponeses, e nenhuma rebelião dessas teria acontecido. O fato dessa revolta específica ter ocorrido depois da Reforma foi coincidência, e não uma relação de causa e efeito. E ainda que alguns camponeses pudessem pensar que Lutero estivesse do lado deles, qualquer ilusão foi desfeita após o mesmo ter se declarado expressamente contra qualquer tipo de revolução na base da força e da violência.

Em termos simples: se o protestantismo é o culpado pela Revolta dos Camponeses de 1525 só porque aconteceu na Alemanha alguns anos depois da Reforma, então o catolicismo é o culpado por todas as outras revoltas de camponeses que ocorreram antes da Reforma em todos os lugares católicos onde e quando o protestantismo sequer existia. (Para ler mais sobre isso, clique aqui).


Calúnia 4: Os protestantes perseguiram os anabatistas.

Resposta: Essa questão está relacionada com as anteriores, onde explico que existiam vários grupos conhecidos como “anabatistas”, uns eram radicais e não tinham nada de protestantes, enquanto outros eram pacifistas e adotavam muitos dos princípios da Reforma. Os anabatistas perseguidos em países protestantes eram os extremistas, daquela mesma turma que pregava a violência e praticava a depredação de igrejas e patrimônios, em prol de uma revolução social que levaria ao caos total (como de fato os regimes comunistas do século XX provaram efetivamente). Os protestantes não perseguiam pessoas pelo simples fato de terem uma fé diferente, como faziam os católicos. Precisava de um elemento maior de caráter cívico para que isso acontecesse.


Calúnia 5: Os protestantes malvados fizeram o “Saque de Roma”, em 1527.

Resposta: Quem ordenou o saque de Roma foi o imperador católico Carlos V, o mesmo que queria a cabeça de Lutero e que tentou exterminar a Reforma a qualquer custo, tendo inclusive em certa ocasião entrado em guerra contra os príncipes protestantes na Alemanha, tendo ele mesmo participado das batalhas. Além disso, nessa época a Alemanha de Carlos V era majoritariamente católica, e o protestantismo era às vezes considerado “fora-da-lei”, e outras vezes “tolerado” apenas para poder contar com o apoio dos príncipes protestantes contra a França ou contra os turcos. O tal saque não teve qualquer motivação religiosa, mas sim política, pois na época o papado era aliado dos franceses, que eram inimigos dos alemães e espanhois, ambos governados por Carlos V (para entender essa guerra política, veja este artigo). Essa é a razão pela qual o exército católico de um imperador católico decidiu saquear Roma, e que os papistas na maior desfaçatez atribuem caluniosamente aos protestantes, contra o consenso unânime de todos os livros de história já escritos pelo homem. (Para ler mais sobre isso, clique aqui).


Calúnia 6: Henrique VIII era um protestante que perseguia os católicos na Inglaterra.

Resposta: Nada mais falso. Henrique VIII era um católico que recebeu o título de “Defensor da Fé” pelo papa antes do Cisma, e que mesmo depois do Cisma continuou “defendendo a fé” católica, com o mesmo rigor de antes. Tanto os seus “Dez Artigos” como os seus “Seis Artigos” eram inteiramente católicos na sua essência, e previam, além de todas as doutrinas católicas tradicionais da época, a pena de morte para quem rejeitasse essas doutrinas, como a transubstanciação. É por isso que os protestantes foram severamente perseguidos por este rei e queimados como hereges aos montões. Os católicos também eram punidos, mas não por heresia, e sim por “alta traição”, ou seja, por negarem a supremacia do rei inglês acima do papa. Essa era a razão pela qual os protestantes na Inglaterra morriam na fogueira (a punição para os “crimes de heresia”), enquanto os católicos morriam na forca ou decapitados (a punição para os crimes civis).

O que Henrique VIII fez não foi introduzir o protestantismo na Inglaterra, mas apenas desvincular a Igreja Católica do poder do papa romano, ou seja, criar um “catolicismo nacional”, onde o rei ocupava o lugar do papa, mas preservando as mesmas doutrinas católicas de antes e com o mesmo rigor. O protestantismo só teve lugar na Inglaterra no breve reinado de Eduardo IV, passando então por um retrocesso no reinado seguinte da Maria Sanguinária (que restaurou o catolicismo em comunhão com o papa), vindo a se consolidar somente no reinado seguinte, de Isabel I. (Para ler mais sobre isso, clique aqui).


Calúnia 7: Os católicos sofreram uma “perseguição terrível” nas mãos de Isabel I.

Resposta: Essa é provavelmente a maior de todas as calúnias. Isabel reinou por quase cinquenta anos, e apenas 180 católicos foram executados. Isso dá uma média de quatro pessoas executadas por ano, em um Reino que era católico antes dela. Se ela quisesse mesmo matar católicos por questões religiosas, teria feito um verdadeiro massacre, matando milhares ou milhões de pessoas ao longo de todo o reinado. Sua antecessora, a Sanguinária católica, matou muito mais em bem menos tempo (quase trezentos queimados em apenas cinco anos). Além disso, nos primeiros dez anos inteiros de Isabel, ninguém foi morto, o que desafia a tese de que ela tinha o objetivo de “perseguir os católicos”.

Os historiadores são unânimes em descrever Isabel como a maior rainha que já existiu na Inglaterra, o “divisor de águas” no país, que deu início a uma “era de ouro” que tirou a Inglaterra da condição de país pobre para torná-la uma verdadeira potência europeia que já no século seguinte se tornava a maior do continente. Além disso era extremamente pacifista, recusando terminantemente entrar em guerra até mesmo quando os protestantes estavam sendo exterminados na França e nos Países Baixos. Era uma rainha amada e adorada por todo o povo, com uma popularidade que ninguém teve antes dela.

Para entender então o que aconteceu é preciso ter em mente que tudo começou com a bula de excomunhão do papa Pio V, que declarava simples e abertamente que Isabel estava deposta da sua condição de rainha e que qualquer um poderia matá-la impunemente. A alta hierarquia da Igreja dizia abertamente que ela deveria ser destituída “por bem ou por mal”, e que qualquer um que a matasse estaria cometendo um bem à fé católica, pois livraria a alma de milhares de ingleses da “heresia”. Para isso o papa encarregou o rei Filipe II da Espanha, que empregou todos os seus esforços para aniquilar Isabel, organizando a maior Armada que o mundo já tinha visto, a “Armada Invencível” (que acabou fracassando miseravelmente, derrotada pelos ingleses).

Quando a Armada Invencível falhou, o papa enviou à Inglaterra os seus “cães de guerra”, isto é, os missionários jesuítas, que tinham a missão de assassiná-la para colocar Maria Stuart da Escócia (católica) no lugar. Por volta dessa época os grandes líderes protestantes ou simpatizantes da Reforma eram covardemente assassinados em todo lugar (Guilherme de Orange na Holanda, Henrique III, Henrique IV e Coligny na França, e a própria Joana Grey, na Inglaterra da época da Sanguinária). A Inglaterra protegeu sua rainha desses conspiradores jesuítas, e os que foram descobertos nesse plano de destituir Isabel foram condenados à pena capital, que sempre foi a punição para a alta traição em qualquer país da época. É por isso que quase todos esses 180 que foram mortos no reinado de Isabel eram missionários jesuítas, em vez de gente do povo (que eram a grande maioria). Não à toa os jesuítas foram expulsos de quase todos os países da Europa naqueles séculos, inclusive nos países católicos como Portugal (sim, nem os reis católicos aturavam eles!), a ponto que o próprio papa Clemente XIV suprimiu a Ordem em 1773 e ainda prendeu o Superior Geral da Companhia.

Outra calúnia a respeito de Isabel é a que diz respeito à execução de Maria Stuart, como se tivesse sido um crime religioso ou político. Na verdade, essa rainha da Escócia havia sido rejeitada e destronada pelo seu próprio povo, após ser descoberto o seu adultério e a sua responsabilidade no assassinato de seu ex-marido. Basicamente, ela traiu o Lorde Darnley, com quem era casada, e como se isso não bastasse, ainda se apaixonou e se casou com o assassino dele, o Conde de Bothwell, apenas três meses mais tarde! O povo escocês ficou enfurecido com isso e destituiu sua rainha, e ela, abandonada até pelos católicos, decidiu fugir para a Inglaterra protestante. Os ingleses a deixaram em prisão domiciliar até que o crime fosse apurado, pois não podiam deixar uma assassina livre e solta. Isabel intercedeu por ela no Parlamento diversas vezes, fazendo tudo o que podia para libertá-la, mas uma carta de Maria interceptada provava que ela tramava a deposição e execução de Isabel para assumir seu lugar, o que acabou resultando em sua condenação à morte. Nada mais justo.


Calúnia 8: Calvino deu origem ao totalitarismo de Estado em Genebra, com seus regulamentos contra dança, embriaguez, jogo, luxo, etc.

Resposta: Essas leis já existiam desde muito antes da Reforma chegar a Genebra. Os arquivos de Genebra do início do século XVI e do século XV mostram a existência dessas leis e de condenações em funções delas quando Calvino e a Reforma Protestante ainda nem existiam, e Genebra ainda era um estado católico. Portanto, se a Genebra protestante era “totalitária” por causa dessas leis, quem de fato “criou o totalitarismo” não foi Calvino, mas os próprios católicos. Se Calvino e os reformadores falharam em algo, foi em não ter abolido essas leis, e não em tê-las “criado”. Mas havia uma razão pela qual tanto os católicos de outrora como os protestantes calvinistas mantinham tais regulamentos: a extrema imoralidade dos genebrianos, que levava por vezes a excessos de leis como essas, numa tentativa desesperada de controle social. Essa imoralidade não foi criada pelos protestantes, mas sim uma “herança maldita” deixada pelos papistas desde tempos remotos.

Além disso, seria bastante estranho se falar em “Estado totalitário” quando apenas uma única pessoa morreu por razões religiosas, e ainda uma mesma pessoa que já havia sido condenada pela Inquisição, de onde tinha conseguido fugir. Estamos falando de Miguel Serveto, o personagem tão explorado pela apologética católica, por não haver outro. Na cabeça desses indivíduos, um Estado como a Espanha que exterminava dezenas de milhares de pessoas por razões religiosas e expulsava outras centenas de milhares que morriam no caminho ou de miséria depois, não tinha nada de totalitário, mas a Genebra de Calvino, com uma morte por heresia, sim.

Não estamos justificando a execução de Serveto, que foi indiscutivelmente uma mancha negra e extremamente lamentável na história da Reforma, estamos apenas guardando o senso de proporções. Enquanto centenas de milhares de pessoas eram assassinadas das mais diversas formas nos países católicos puramente por razões religiosas, apenas uma foi em um país protestante – e uma que nem católica era. A diferença moral entre católicos e protestantes é gritante, residindo não apenas na proporção dos crimes, mas principalmente no fato de que nós assumimos e lamentamos os nossos erros, enquanto eles defendem a Inquisição até hoje (e alguns até querem a volta dela, como mostro aqui).


Calúnia 9: Os protestantes “roubaram” as propriedades eclesiásticas nos países que aderiram à Reforma, e por isso se tornaram ricos.

Resposta: Primeiro, ninguém tinha consultado o povo se queria pagar tributos a Roma para a manutenção dessas “terras eclesiásticas”, que, basicamente, não serviam para porcaria nenhuma além de surrupiar o dinheiro ganho com o trabalho suado e honesto dos trabalhadores camponeses. Naquela época existiam dois “dízimos”, o da terra e o dos produtos, e os camponeses tinham que pagar à Igreja obrigatoriamente (além dos impostos para o governo), e não voluntariamente, como ocorre hoje nas igrejas evangélicas. Isso gerava pobreza e indignação popular, não sem razão.

Quando Henrique VIII tomou posse dessas terras da Igreja na Inglaterra ninguém reclamou, pois foram revertidas ao benefício do povo, uma vez que essas terras eram concedidas aos nobres que permitiam ao povo mais pobre trabalhar nelas. Mas quando Maria Sanguinária tirou essas terras dos nobres e as devolveu à Igreja, gerou uma revolta popular tão grande que ela passou a ser detestada e sua morte foi celebrada. Mais tarde, quando as terras voltaram ao povo, foi um alívio. Quer dizer: o povo sustentava aquelas terras coercitivamente, sem ter possibilidade de escolha e sem ser questionado a respeito, sendo que o próprio povo que sustentava aquelas terras preferia que fossem usadas com algum proveito do que pela Igreja. Além disso, como disse Erasmo de Roterdã, os monastérios haviam se tornado pior que prostíbulos, dado o nível de depravação moral desses lugares. E enquanto os protestantes tomavam as “terras da Igreja”, os católicos exterminavam os próprios protestantes em verdadeiras chacinas, como a de S. Bartolomeu, em vez de apenas confiscar propriedades eclesiásticas.

Por fim, é um completo devaneio atribuir a riqueza dos países protestantes apenas ao confisco das terras da Igreja. Se os países protestantes eram ricos por “roubar” a riqueza dos países católicos, o que explica o fato dos próprios países católicos que se mantiveram católicos terem ficado tão atrás? O que explica o atraso da Espanha, o retrocesso de Portugal, a declínio da Itália e a decadência dos Estados pontíficos, que eram justamente os mais miseráveis e mal administrados da época? No mais, no máximo esse argumento estaria provando que as terras da Igreja eram justamente uma das principais causas da pobreza do povo e do atraso das nações, jogando toda a responsabilidade na conta da própria Igreja Romana.


Calúnia 10: Os protestantes são os culpados pelas guerras de religião daqueles séculos.

Resposta: TODAS as guerras religiosas sem exceção foram provocadas pelo papado, na intenção específica de exterminar a “heresia”, o que implicava na exterminação dos “hereges”. Enquanto os protestantes buscavam apenas a tolerância para poderem continuar existindo, os católicos exigiam a conversão forçada dos mesmos, e ameaçavam com a espada e com a fogueira em caso contrário. Foi assim na Guerra dos Trinta Anos, na outra guerra de trinta anos no período de Carlos V e nas guerras civis francesas do século XVI. A guerra na França começou depois do massacre de Vassy, quando os huguenotes (nome dado aos calvinistas franceses) cultuavam a Deus em um celeiro, e um exército católico facínora entrou e exterminou mais de setenta pessoas entre crianças, mulheres e idosos.

Depois disso os católicos enganaram os huguenotes com uma falsa paz apenas para ganhar tempo planejando um massacre em massa, o que aconteceu na noite de São Bartolomeu, quando novamente famílias inteiras foram dizimadas covardemente, dessa vez em número estimado de dezenas de milhares, fato este celebrado com festa no Vaticano. Nem os reis católicos mais moderados agradavam à sede de sangue dos papas e dos fanáticos da “Santa Liga” (uma liga católica criada na intenção de exterminar os protestantes). O rei católico moderado Henrique III foi assassinado pelos fanáticos católicos, o mesmo que ocorreu com Henrique IV, que anunciou sua “conversão” ao catolicismo para conseguir reinar e dar liberdade religiosa aos protestantes no Édito de Nantes, o que desagradou os papistas de forma tão furiosa que culminou no assassinato dele também. Nem o catolicismo moderado era admitido: a Igreja queria sangue.

Na Alemanha, as guerras religiosas seguiram o mesmo curso. O imperador Fernando II exigiu a conversão forçada dos protestantes da Boêmia, que recusaram. Um exército foi enviado e aniquilou a maior parte da população tcheca, que foi reduzida de quatro para um milhão de habitantes após a guerra. Os príncipes protestantes pegaram em armas para defender suas vidas, mas estavam em enorme desvantagem e sendo massacrados até a França católica decidir entrar na guerra do lado dos protestantes para aproveitar um bom momento de derrotar sua rival política, a Espanha, e seus aliados do Sacro Império. Por ironia e sem intenção, foi um país católico que salvou os protestantes de serem completamente exterminados, como já havia ocorrido com os movimentos pré-Reforma tais como os valdenses, os hussitas e os lollardos. Em suma, a causa das guerras de religião era uma só: a intolerância católica.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.facebook.com/lucasbanzoli1)

  
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