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Sempre fui poupador - algumas anedotas de minha infância

Vou aproveitar o horário de almoço, onde os portugas em geral desaparecem neste sábado pra escrever um pouco das minhas anedotas de poupador aqui da loja.

Lembro de ter sido poupador desde bem jovem. Desde talvez os 5 anos de idade, quando ouvi do meu pai: "quem guarda sempre tem". Lembro de repetir esse mantra durante os primeiros anos de vida, inclusive em relação à alguma comida boa. Eu não queria comer tudo de uma vez só, já pensava em guardar um pouco para saborear mais tarde. Até fazia pesquisa de preços entre mercados quando tinha 50 centavos pra matar a fome. O cachorro quente "podrão" na rua era 1 real e eu achava caro, pois podia comprar 5 pães e 5 salsichas pra fazer uma versão barata em casa. Acabei me desenvolvendo bem na cozinha por ter esta filosofia e como meus pais estudavam à noite, aprendi a me virar.
 
Se você leu e pensou que é coisa de pão duro, minha opinião é a de que todo pobre tem que fazer isso. Comer na rua só em ocasiões especiais e se for preciso levar marmita.
 
Lembro de com uns 5 anos eu ter uns 4 ou 5 reais que havia juntado e minha mãe precisava de troco para dar a um taxista, e tive uma grande sensação de perda ao entregar dinheiro. Aos 8 anos havia juntado 60 e poucos reais, na época daria pra pagar uns 10 bujões de gás de cozinha. Dois anos mais tarde cheguei aos R$ 120, e finalmente comprei meu Super Nintendo. Como é diferente hoje em dia ver as pessoas gastando 200 reais por jogo e o estranho é que todo mundo tem dezenas de jogos. Na minha época comprar uma fita de 20 reais no camelo era só no aniversário. Cada um tinha umas 5 fitas que se emprestavam e "viravam" várias e várias vezes.
 
 
Terminar Super Metroid significava
habilidades raras e um QI alto.
 
 
Sempre gostei de aproveitar tudo ao máximo e via coisas banais como simples coleções de Tazos e bolitas como patrimônio. Eu podia aproveitar as bordas dos cadernos para fazer mais anotações e desenhar. Nunca entendi o motivo de ser repreendido pelas professoras por riscar na minha propriedade privada! Somente anos depois que compreendi que meus professores de escola eram, de fato, comunistas.
 
 
Era muito gratificante "rapar" a coleção de Tazos
dos otários em batalhas emocionantes em um tempo
onde o perdedor não ganhava medalha.
 
 
Durante grande parte da minha vida fui chamado de "pão duro". Engraçado como nunca me achei forreta, eu era pobre mesmo e queria ter coisas ao invés de torrar de modo displicente. Preferia comprar revistas em quadrinhos da Marvel pois o prazer que me davam era mais duradouro, e ainda mantinham certo valor caso eu quisesse vender num sebo. Tenho meu baú que construí eu mesmo com madeiras velhas até hoje na casa de minha mãe, com cerca de 300 revistas sendo algumas mais raras (no Brasil não valem nada de qualquer modo). Construi este baú com fechadura para cadeado, já farto de achar minha preciosa coleção espalhada pela casa ou com algumas edições desaparecendo por causa de meu irmão.
 
Eu sempre tive zelo pelo que é meu e desde cedo quis ter um cofre. Pensava que se tivesse um, episódios como quando eu tive minhas poupanças confiscadas pelos meus pais - sempre com as finanças aflitas - por mais de um ano não se repetiriam. Desde lá vi que parentes e amigos geralmente não sentem muita necessidade de devolver dinheiro e de pagar juros.
 
Via meus colegas de escola pública tomando ônibus e comprando lanche na escola e pensava, se poupassem o dinheiro e andassem a pé, podiam poupar uns 30 reais por mês e comprar o Super Nintendo, que demorei 2 anos pra comprar, em apenas 4 meses.
 
Poupar pra mim se tornou a chave do reino.
 
Poupando eu ia poder ter tudo o que sonhasse e comprar tudo à vista pois desde criança achava humilhante meus pais devendo e comprando coisas fiado, na caderneta do mercadinho que podia facilmente ser adulterada. Uma vez achei esta lição na Bíblia. Algo como: "Quem empresta é senhor e quem toma emprestado é escravo". Virou outro mantra que repetia diariamente.
 
Aquela história de que a mão de obra dos imigrantes italianos substituiu a dos escravos no Brasil, e que apesar das promessas, os imigrantes eram forçados a consumir todo o seu salário na venda dentro das terras do patrão me deixou perplexo.
 
Para mim, meus pais eram escravos.
 
As dores nas costas que minha mãe sentia eram reflexo de trabalho pesado e falta de poupança, que nos obrigava a consumir todo o salário em itens de subsistência.
 
Outra coisa que desenvolvi cedo foi curiosidade por vendas e por métodos de convencer aos outros que eu estava certo e o mundo inteiro errado. Isso nem sempre é certo, mas cheguei mais longe assim, e ainda penso que as pessoas que admiro carregam essa característica. Tenho certo orgulho por ter tido minha determinação elogiada algumas vezes. Esta é a imagem que as pessoas tem de mim hoje e isto me agrada.
 
 
We would not want to die in the company of a man who fears to die with us.
 
 
Por exemplo, quase tudo o que vendi, vendi por um preço que considerava justo, mesmo que demorando bastante, e assim conheci de maneira empírica o conceito de custo de oportunidade. Eu pedia um preço alto pois não precisava vender nada, calculando uma taxa de desvalorização do meu bem, e se aparecesse um interessado, que pagasse.
 
Inspirado no meu avô que havia começado a trabalhar com 9 anos e se orgulhava de uma vida de aventuras atrás da riqueza, eu busquei vagas de empacotador de mercado ou vendedor de picolés, mas meus pais proibiram pois achavam melhor eu estudar (no caso perder tempo na escola como todo o resto da massa falida).
 
Aos 11 anos quebrei um vidro (a troca custaria 30 reais - eu sabia o preço pois estava por dentro dos valores da montagem de aquários) e meu pai perguntou como eu ia fazer para pagar. Quando respondi com determinação que ia buscar um emprego, ainda fui repreendido. Acho que essa falta de responsabilidade estraga o brasileiro e se reflete na política do país. Minha filosofia é: quebrou? Paga. Alguns povos antigos levavam isso à sério e as dívidas podiam ser pagas com alguns anos de escravidão.

Lembro da satisfação enorme que tive em vender os filhotes dos meus hamsters chineses à um pet shop. Vendi uma ninhada com 6 por 30 reais. Em 6 meses, eu havia recuperado o valor dos dois adultos (15 reais cada) e até pensei em escalar pra uma criação de chinchilas, mas na época elas custavam 300 reais cada e isso pra mim era um valor alto demais. Gatos e cachorros só davam despesas... Por que não ter bichos de estimação produtivos? Até hoje penso em ter um galinheiro e horta no pátio. Infelizmente a lei permite que você torne seu pátio um verdadeiro lixão fedorento e faça festas barulhentas, mas não permite criar galinhas em área urbana.
 
Também preferia comprar bonequinhos nos 1,99 (hoje chamam de action figures e custam U$ 150,00) e mais tarde, peças de skate. Outros garotos gastavam em apetrechos para futebol, CDs de música e roupas. Eu não via sentido em comprar minhas próprias roupas e achava que era obrigação dos pais, por isso até o fim da minha adolescência andei mal vestido.
 
Falando em CDs, uma das minhas tentativas empresariais foi, por possuir uma gravadora de CDs em casa, fazer download de músicas em 32kbps de madrugada e nos finais de semana e vender as seleções por R$15,00 para o pessoal na escola. O que me tirou do jogo foi a popularização que baixou o produto pra R$ 10,00 e as reclamações por algumas trilhas ficarem com falhas pelos picos de luz.
 
Ser chamado de pão duro simplesmente por não querer torrar é um desestimulo à poupança na nossa cultura, e esse tipo de ataque vem de todos os lados, amigos, midia e até família. Não me arrependo de nada. Crescer assim me fez dar mais valor às conquistas, e se tudo der certo, um dia me aposento bem mais cedo que os quebrados que me criticaram rsrsrs.
 
Por hoje vou contar uma última história.
 
 
O caso do relógio do camelô.
 
Para meu aniversário de 12 anos, pedi um relógio pirata da Nike vendido pelos camelôs da cidade por R$ 15,00 (barganhando tirava a R$ 12,00...). Durante um tempo aquela porcaria foi febre na escola. Se eu tivesse um relógio da Nike, ninguém mais ia implicar com minhas calças de moletom furadas e quem sabe até eu arrumasse uma namorada. Por meses projetei como adquirir aquela joia de plástico ia impactar na minha vida social, trazendo níveis altíssimos de confiança e independência, mudando para sempre minha história.
 
Ocorreu que no dia, um sábado, fomos minha mãe e eu buscar meu presente. Até tomei banho e coloquei minha "roupa de sair" e ténis Olímpicus de R$ 33,00 neste dia especial, com direito À bolo retangular, coca-cola e pizza congelada.
 
Ao chegar em casa com meu artefato libertador, meu pai, que é bipolar e psicopata, começou a implicar com a qualidade e pasmem, ordenou a devolução imediata para completa obliteração de meu sonho, em promessas de mandar uma colega de faculdade buscar um Citizen no Paraguay por R$ 60,00 que jamais veio a se concretizar.
 
Amigos, aquele foi um dos dias mais tristes de minha vida. Foi traumatizante. Foi morrer na praia. Os anos se passaram e o popular presente de aniversário foi esquecido por todos, menos por mim, que cresci sentindo uma sensação ruim na garganta e a esperança secreta de um dia ser rico e ter muitos relógios Ômega Seamaster iguais aos dos filmes do 007.
 
Cerca de 15 anos depois, em comemoração a um emprego legal que arrumei, minha mãe me presenteou com um relógio da Technos - custou uns R$ 300,00 e é o presente mais importante que já ganhei. Quando lembro disso as lágrimas percorrem meu rosto.
 
 
 
Felicidades a todos.


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