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O menino estranho

À primeira vista, ele não tinha ido muito com a cara daquele moleque estranho. Algo nele o incomodava, talvez aquele jeito meio exagerado, talvez o rosto meio caricato. Não importa. Essa primeira má impressão passou longe de ficar. O primeiro clichê havia sido desconstruído. E esses dois meninos gostavam mesmo de uma desconstrução. Também gostavam de bebidas. Em altas quantidades, melhor ainda. Gostavam muito de mulheres também. Não apenas no aspecto sexual, mas especialmente no ponto mais crucial, no ponto mais importante: a capacidade de ser incrível, o que fazia com que eles se apaixonassem por elas.

Eles também tinham o divertido costume de se apaixonar pelas mulheres logo após a primeira troca de olhares. Se fosse possível resumir esse lado da vida desses dois garotos em uma frase de boteco pseudofilosofia, essa frase seria: não há mulher no mundo pela qual eu não me apaixone por dez minutos ou por dez anos.

Obviamente, esse gosto dos jovens fazia parte de suas personalidades boêmias. Conversas profundas (ou nem tanto) acompanhadas de drinks, cigarros e paixões momentâneas eram muito mais importantes do que bater o ponto diariamente no décimo andar daquele prédio da Vila Olímpia, o reduto da faceta corporativa do paulistano médio, aquele típico cidadão de costumes duvidosos e estilo de vida enfadonho.

Aliás, bater o ponto regularmente para esses dois servia apenas para financiar o básico: aluguel, comida e boemia. Que se fodam o desenvolvimento profissional e o reconhecimento no meio publicitário – sim, eles eram publicitários. O lance era cumprir tabela para que seus saldos bancários não ficassem negativos.

E lá estava ele, naquela tarde de carnaval, observando atentamente o que acontecia naquele apartamento em algum lugar do centro de São Paulo. O pai daquele Menino Estranho tocava violão e o menino estranho tocava pandeiro com um olhar displicente, mas, ao mesmo tempo, era o mais concentrado.

E quanto mais ele fitava Aquele Menino Estranho, mais convicto ele estava de que sua lista de pessoas admiráveis havia aumentado e essa lista, sem sombra de dúvidas, era bem enxuta. Que fique claro: tocar pandeiro com cara de paisagem foi apenas a cereja do bolo. O que tornou aquele menino estranho admirável foi a energia que ele impunha nas coisas da vida que realmente importavam. Foi o seu coração capaz de tratar novas amizades como velhos parceiros. Foi o exercício constante de questionar e rir da sua própria profissão. Foi, acima de tudo, não fazê-lo esquecer, diariamente, durante o cigarro das quatro da tarde, de que há muito mais vida para ser vivida.

Ele ainda não sabe ao certo como deu início a essa amizade com o menino estranho. Mas o que ele tem certeza é de que essa troca de energias ainda está longe de terminar – se é que algum dia vai.




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