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Sonhos - O Desejo Reprimido de Freud a Lacan

Em 1931 Ferenczi enviou a cópia de um artigo para Freud, “anunciando que havia descoberto uma segunda função para os sonhos — lidar com experiências traumáticas. Freud responde que, muitos anos antes, ele mesmo havia destacado que essa é a primeira, assim como a segunda função dos sonhos” (Brome, 1969, p. 198, tradução minha). Quando atribui à elaboração do trauma o posto de primeira função dos sonhos, Freud nos faz indagar se esses sonhos não possuirão uma importância crucial no tratamento psicanalítico e se, além de via real para o inconsciente, são também uma via fundamental para o tratamento dos casos em que os sintomas traumáticos estão em evidência.




A TEORIA DO SINTOMA EM FREUD

A psicanálise começou seu trabalho pelo estudo da neurose e dos sintomas. Sua trajetória, do sintoma ao inconsciente, à pulsão e à sexualidade, nos ensina que as neuroses são expressão de conflitos entre o eu e as pulsões que, por serem incompatíveis com a integridade ou com os padrões éticos do eu, são recalcadas, ou seja, são impedidas de se tornar conscientes, bem como são afastadas, de início, da possibilidade de satisfação. O recalcamento, no entanto, facilmente fracassa e a libido represada, insatisfeita, que foi repelida pela realidade, deve agora procurar outras saídas do inconsciente, outras vias de satisfação, seguindo por caminhos indiretos. Ela regride a fases anteriores do desenvolvimento infantil e a atitudes anteriores para com os objetos – pontos de fixações infantis – e irrompe na consciência, obtendo satisfação. O resultado é um sintoma e, conseqüentemente, em sua essência, uma satisfação sexual substitutiva para desejos sexuais não realizados, ou seja, um substituto de algo que foi afastado pelo recalcamento, indicação de um retorno do recalcado; uma satisfação substituta deformada, irreconhecível, uma vez que o sintoma não escapa inteiramente à censura, submetendo-se, assim, a modificações e deslocamentos.
Os sintomas são ou uma satisfação de algum desejo sexual ou medidas para impedir tal satisfação e, via de regra, têm a natureza de conciliação, de formação de compromisso entre as duas forças que entraram em luta no conflito: a libido insatisfeita, que representa o recalcado, e a força repressora, que compartilhou de sua origem. É esse acordo entre as partes em luta que torna o sintoma tão resistente.
Em "Os caminhos da formação dos sintomas", Freud (1917/1980) esclarece que "pelo caminho indireto, via inconsciente e antigas fixações, a libido finalmente consegue achar sua saída até uma satisfação real – embora seja uma satisfação extremamente restrita e que mal se reconhece como tal" (p. 421-422, grifo nosso). Para romper o recalcamento, a libido encontra as fixações necessárias nas experiências do início da vida sexual, que, por ocorrerem numa época de desenvolvimento incompleto – marcado pelo estado de desamparo e dependência absolutos –, são capazes de ter efeitos traumáticos. Conforme Freud, "de algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença" (p. 427).
Destarte, o sintoma é concebido, de início, como a expressão do recalcado. O trauma é a base real do sintoma e o real derradeiro é, em Freud, a castração. Porém, a partir dos dados da experiência clínica, Freud conclui que o trauma é, via de regra, suposto ou inferido, o que o leva ao abandono da teoria do trauma e à concepção da teoria da fantasia, em que o trauma é tido como parte da realidade psíquica do sujeito e fundamento da fantasia. O sintoma é, então, definido como a realização de uma fantasia de conteúdo sexual, ou seja, representa, na totalidade ou em parte, a atividade sexual do sujeito provinda das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas.
Se o discurso psicanalítico pôde emergir, foi porque Freud soube ouvir o discurso do neurótico. Foi a partir do discurso da histérica que pôde demonstrar que o sintoma tem um sentido, um sentido inconsciente, ou seja, o sintoma diz alguma coisa, mesmo que o sujeito nada saiba disso. E não somente diz, mas também serve a um fim de satisfação, uma "satisfação real", reconhecida pelo sujeito como um sofrimento. O sintoma é o lugar paradoxal onde o sujeito, sem que ele o saiba, tem a sua satisfação sexual e, também, o seu sofrimento. Essa satisfação real, reconhecida como sofrimento, é apontada por Lacan como a referência freudiana, na teoria do sintoma, ao real traumático, inapreensível, que escapa à decifração do sintoma e cujos indícios podemos encontrar na fantasia.
Ainda no texto "Os caminhos da formação dos sintomas" (Freud, 1917/1980), ao buscar resposta para a questão de como a libido encontra o caminho para chegar a esses pontos de fixação, Freud (1917/1980) assinala a importância assumida pela fantasia na formação dos sintomas:

Todos os objetos e tendências que a libido abandonou ainda não foram abandonados em todos os sentidos. Tais objetos e tendências, ou seus derivados, ainda são mantidos, com alguma intensidade, nas fantasias. Assim, a libido necessita apenas retirar-se para as fantasias, a fim de encontrar aberto o caminho que conduz a todas as fixações recalcadas (p. 435-436).

E conclui: "partindo daquilo que, agora, são fantasias inconscientes, a libido movimenta-se para trás, até às origens dessas fantasias no inconsciente – aos seus próprios pontos de fixação" (Freud, 1917/1980, p. 436). A psicanálise nos mostra que, pelos mecanismos da condensação e do deslocamento, o sintoma tornou-se uma satisfação substituta de uma série de fantasias e de recordações de experiências traumáticas do início da vida sexual.
Nos anos 1920, com a introdução da segunda tópica do aparelho psíquico e da noção de pulsão de morte, Freud avança no sentido de demonstrar que, para além do princípio do prazer, há um real de gozo impossível de ser representado, demonstrando, assim, o caráter problemático da realidade psíquica que se expressa no sintoma.
Em "Inibição, sintoma e angústia" (1926/1980), Freud apresenta o sintoma como "um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; [o sintoma] é uma conseqüência do processo de recalcamento" (Freud, 1926/1980, p. 112). 
O eu – parte organizada do isso – demonstra sua força pelo ato de recalcamento. Mas, por sua vez, a impotência do eu se revela nesse mesmo ato, pois, como conseqüência do processo de recalcamento, surge um sintoma, através do qual a libido insatisfeita encontra uma satisfação substituta. Segundo Freud, "O processo mental que se transformou em um sintoma devido ao recalcamento mantém agora sua existência fora da organização do eu e independentemente dele" (Freud, 1926/1980, p. 119), adquirindo, assim como os seus derivados, o privilégio de extraterritorialidade.
O eu, devido à necessidade de unificação e síntese, impede que os sintomas permaneçam isolados e busca agregá-los e incorporá-los em sua organização, fazendo uma adaptação ao sintoma e tirando proveito da situação, o que resulta no que conhecemos como ganho secundário proveniente da doença. De acordo com Freud, "esta recuperação vem em ajuda do eu no seu esforço para incorporar o sintoma, e aumenta a fixação deste último" (Freud, 1926/1980, p. 122), garantindo sua persistência.
O sintoma, derivado do recalcado, é, ao mesmo tempo, "território estrangeiro" (Freud, 1933a/1980, p. 75) para o eu e representante do recalcado perante o eu. É, também, a via indireta de satisfação pulsional, uma satisfação substitutiva, deformada e irreconhecível, sentida como sofrimento e geradora de desprazer e angústia. Nessa situação, a angústia sentida pelo eu é o sinal de desprazer que leva o eu a pôr-se em posição de defesa, desencadeando o recalcamento e a formação de sintomas.
No curso de sua investigação, Freud introduz a relação altamente significativa entre a geração de angústia e a formação de sintomas, verificando que os dois processos se representam e substituem um ao outro. A partir da análise da fobia de Hans, conclui que a angústia, essência da fobia, provém não do processo de recalcamento, como acreditava anteriormente2, mas do próprio agente recalcador; ou seja, a angústia está na origem e põe o recalcamento em movimento e, conseqüentemente, põe a formação de sintomas em movimento.
A angústia se manifesta sob a forma de "um medo realístico, o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era julgado real" (Freud, 1926/1980, p. 131). A angústia é a reação a esse perigo e o sintoma é criado para evitar o surgimento do estado de angústia. A formação de sintomas, dessa maneira, põe termo à situação de perigo. Na conferência "Angústia e vida pulsional", Freud (1933b/1980) conclui: "Parece, com efeito, que a geração da angústia é o que surgiu primeiro, e a formação dos sintomas, o que veio depois, como se os sintomas fossem criados a fim de evitar a irrupção do estado de angústia" (Freud, 1933b/1980, p. 106). A angústia é, portanto, uma reação a uma situação de perigo. A reação de angústia sinaliza a presença de uma situação de perigo, e é para fugir a essa situação de perigo que se criam sintomas. O perigo, aquilo que é temido, é evidentemente a própria energia pulsional.
Para Freud, a angústia é um afeto, "um estado especial de desprazer com atos de descarga ao longo de trilhas específicas" (Freud, 1926/1980, p. 156). O caráter acentuado de desprazer tem seu aspecto próprio em função das experiências traumáticas que reproduz e do decorrente acúmulo de excitação que, por um lado, produz o caráter específico do desprazer e, por outro, encontra satisfação nos atos de descarga, por "trilhas específicas", traçadas pelos pontos de fixação e retenção das situações infantis de perigo. A pulsão, sob uma influência automática ou, como prefere dizer Freud, "sob a influência da compulsão à repetição" (Freud, 1926/1980, p. 117), seguirá a mesma trilha que o impulso mais antigo recalcado.
Em "O mal-estar na cultura", Freud (1930/1980) postula a autonomia e a prevalência da pulsão de morte. Para além do princípio do prazer, aparece a face opaca da pulsão de morte, lei para além de toda lei. A pulsão de morte é, em última instância, a responsável pela repetição, fazendo com que se retorne sempre a um mesmo lugar; lugar de sofrimento e desprazer, o qual proporciona uma satisfação paradoxal, para além do princípio do prazer, que faz o sujeito gozar de seu mal-estar, traçando as vias por onde circula. A necessidade de repetir a mesma coisa é onde se situa o recurso de tudo aquilo que se manifesta do inconsciente sob a forma de reprodução sintomática.


A DIMENSÃO DO SIMBÓLICO

O momento inaugural do ensinamento de Lacan tem por base a primazia do simbólico, fundada na fórmula do "inconsciente estruturado como linguagem", que privilegia o deciframento simbólico, numa tentativa de dar conta do que é decifrável do inconsciente na experiência analítica.
No início de sua elaboração, em seu retorno a Freud, munido da lingüística estrutural, Lacan estende a reescritura, em termos simbólicos, aos demais conceitos da teoria freudiana (recalcamento, pulsão, libido, trauma, fixação, regressão, fantasia, desejo, objeto, falo, gozo...), operando uma significantização dos mesmos. Os textos da década de 1950 são marcados pela prevalência da ordem simbólica em todo fenômeno analítico e em tudo que participa do campo analítico.
A pulsão se estrutura em termos de linguagem e é reduzida a uma cadeia significante. O que se pode dizer da satisfação é sempre dito em termos simbólicos. O trauma, ligado à cena primária, que opera no cerne da descoberta do inconsciente, é retranscrito por Lacan como significante, "significante em estado puro, que não pode, de maneira alguma, articular-se nem se resolver" (Lacan, 1957-1958/1999, p. 477). A regressão é o que ocorre quando esses significantes, que perfilam na dimensão da demanda, são reencontrados no discurso do sujeito. A fixação demonstra a prevalência de um significante que serviu ao sujeito para articular sua demanda em fases mais antigas. A fantasia inconsciente é estruturada pelas condições do significante, e os objetos da fantasia fazem parte de uma bateria de termos substitutos, fadados à equivalência.
Conforme Lacan, "O desejo só consegue satisfação sob a condição de fazer uma renúncia parcial (...) ele tem de se tornar demanda, ou seja, desejo significado, significado pela existência e pela intervenção do significante, ou seja, em parte, desejo alienado" (Lacan, 1957-1958/1999, p. 298). O desejo é inapreensível e inarticulável, por não se inscrever no registro do significante. Contudo, só podemos inferi-lo na medida em que, necessariamente, se articula na demanda. A demanda, por sua vez, é constituída pelos significantes emitidos pelo sujeito e tem apenas um significado: o desejo, que é causado pela perda do objeto primordial, nas primeiras experiências infantis de satisfação. A demanda é, portanto, a própria cadeia de significantes que se dirige ao Outro, como o lugar dos significantes, o lugar do código.
A convicção freudiana de que os sintomas têm um sentido, que pode ser decifrado como as demais formações do inconsciente, é abordada por Lacan a partir dos recursos da lingüística estrutural. Se o sintoma é uma mensagem que pode ser decifrada é porque mantém a latência significante que sustenta seu sentido e sua significação. O sintoma é, assim, definido como "o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito" (Lacan, 1953/1998, p. 282), um sem-sentido, uma opacidade no discurso do sujeito, por representar alguma irrupção de verdade.
Em "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise", Lacan (1953/1998) afirma que "O sintoma se resolve por inteiro numa análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem cuja fala deve ser libertada" (Lacan, 1953/1998, p. 270). O sintoma é, tal como o inconsciente, estruturado como uma linguagem, porque participa da linguagem e de suas leis. É, também, fala dirigida ao Outro, lugar de onde o sujeito recebe o sentido, a significação de seu sintoma, ou seja, "sua própria mensagem de forma invertida" (Lacan, 1953/1998, p. 299).
Em Freud, o sintoma nunca é simples; ele é sempre sobredeterminado, e esse fenômeno, para Lacan, só é concebível na estrutura da linguagem. A sobredeterminação nada mais é do que a articulação das cadeias significantes ao se decifrar o sintoma, isto é, ao fazer deslizar e desdobrar os significantes recalcados que a ele estão ligados. Nessa dimensão, o processo de análise é o processo de deciframento da articulação significante, que se dá no desdobramento e no desenrolar das cadeias de associação de significantes. A associação livre, regra de ouro da psicanálise, faz-se pela via do significante, e não do significado. Para se chegar ao significado, o que importa é o lugar do significante em relação a um outro significante.
A psicanálise, então, opera sobre o inconsciente, que dá prevalência ao significante. O significado nada mais é do que outro significante que, junto com o primeiro, retroativamente, produz efeito de sentido.
É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que temos que ler o traço apagado do significante recalcado, que emerge na linguagem particular que apreende o desejo inconsciente e que abriga inadvertidamente um sentido – o do conflito recalcado – determinando a maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza.
É na demanda endereçada ao Outro que circula o desejo, escamoteado, escondido, disfarçado na enunciação e nos intervalos do enunciado, nas pausas, nas exclamações e reticências; em suma, é na modulação da fala do sujeito que cabe avalizar a presença do desejo e a verdade que ele oculta. Portanto, é nas entrelinhas que se situa a verdade do inconsciente. A fala, ao ser libertada – "fala plena" (Lacan, 1953/1998, p. 248), verdadeira – deixa escapar, para além do vazio de seu dizer, o apelo do sujeito à verdade, que já está inscrita em alguma parte no inconsciente.
Pela psicanálise, o sintoma revela não a verdade da doença, mas a verdade do sujeito do inconsciente, pois busca apreender no sintoma o desejo inconsciente indestrutível, do qual fala Freud (1900/1980) em "A interpretação de sonhos". Para Lacan, o registro da verdade deve ser tomado ao pé da letra, isto é, "a determinação simbólica, (...) a sobredeterminação, deve ser considerada, antes de mais nada, um fato de sintaxe" (Lacan, 1956/1998, p. 470), cujos efeitos se exercem do texto para o sentido.
Freud, desde o começo, inclui o conceito de satisfação pulsional vinculado ao sintoma. Lacan, porém, na primeira época de seu ensino, prioriza a noção do inconsciente e do sintoma estruturados como linguagem, deixando de lado a referência à insatisfação contida no sintoma e localizando a pulsão, o que não pode se dizer, fora do campo da interpretação analítica. O sintoma mesmo é linguagem e, pela interpretação, é possível alcançá-lo evocando suas ressonâncias semânticas. O tratamento é, então, orientado para libertar, pela via significante, a insistência repetitiva que há no sintoma e a verdade que aí se oculta.
Mais adiante, Lacan comprova que o franqueamento do recalcamento é estruturalmente impossível e que o significado permanece discordante, sem acesso à consciência. Nesse contexto, ocorre uma mudança na concepção da emergência da verdade: da verdade que pode ser apreendida totalmente na fala plena, passa-se à meia-verdade, à impossibilidade de dizer a verdade toda, assinalando a presença de algo do significado que é resistente ao significante.


A DIMENSÃO DO REAL

Se, na década de 1950, Lacan situa o fenômeno da insistência repetitiva no registro do simbólico, não deixa, por outro lado, de desenvolver a dimensão do real a partir do fenômeno da repetição, em sua característica de Zwang – compulsão –, para além do princípio do prazer. No seminário O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise(Lacan, 1954-1955/1992), calcado em Freud e na lingüística estrutural, afirma que a repetição está para além do princípio do prazer, por seu caráter de insistência, insistência repetitiva, "insistência significante" (Lacan, 1954-1955/1992, p. 259). Mas, por outro lado, ainda nesse texto, afirma que o que se passa na repetição é a revelação do real, "do real sem nenhuma mediação possível, do real derradeiro, do objeto essencial que não é mais um objeto, porém este algo diante do que todas as palavras estacam e todas as categorias fracassam, o objeto de angústia por excelência" (Lacan, 1954-1955/1992, p. 209: grifo nosso).
A insistência repetitiva manifesta a presença de um obstáculo fundamental, intransponível, que obriga o sujeito a repetir a evidência dessa presença, desse obstáculo. No começo, é porque há o obstáculo – que já está lá antes que o sujeito o encontre – que se dá a repetição, mas é por causa da repetição que se percebe e se isola o obstáculo. O objeto encontrado na repetição não é o que se busca, uma vez que este está perdido desde sempre. A falta decorrente dessa perda origina o desejo, engendrando, dessa forma, objetos substitutivos. O "objeto essencial" é o objeto perdido, que mais tarde será nomeado por Lacan "objeto causa do desejo".
No seminário A ética da psicanálise (Lacan, 1959-1960/1991), para dar conta de certas ambigüidades e insuficiências, que resultam da ordem significante, Lacan introduz o termo das Ding, a "Coisa", extraído do texto freudiano: "um objeto concreto, positivo, particular" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 58), "o fora-do-significado" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 71), "excluído no interior" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 128). Segundo ele:
É esse objeto, das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar. Reencontrá-lo no máximo como saudade. Não é ele que reencontramos, mas suas coordenadas de prazer; é nesse estado de ansiar por ele e de esperá-lo que será buscada, em nome do princípio do prazer, a tensão ótima abaixo da qual não há mais nem percepção nem esforço (Lacan, 1959-1960/1991, p. 69).
O que é encontrado é procurado nas vias do significante, o que indica que a satisfação é encontrada nos caminhos que já a proporcionaram. A função do princípio do prazer é conduzir o sujeito de significante em significante, com o objetivo de manter o mais baixo possível o nível de tensão do aparelho psíquico.
Das Ding, é "o que do real – entendam aqui um real que não temos ainda que limitar, o real em sua totalidade, tanto o real que é o do sujeito quanto o real com o qual ele lida como lhe sendo exterior –, o que, do real primordial, diremos, padece do significante" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 149). É em relação a esse das Dingoriginal, o real derradeiro da organização psíquica, realidade hipotética que comanda e ordena, que é feita a primeira orientação subjetiva em direção ao objeto e a primeira escolha, que determinará a escolha da neurose. Esse objeto instaura uma lei invisível, em torno da qual gravitam as representações inconscientes, mas não é ele que regula seus trajetos. Na orientação do sujeito em direção ao objeto, as representações (Vorstellungen) atraem-se umas às outras, de acordo com as leis do princípio do prazer, regulando o trajeto, o trilhamento do sujeito. Essas representações modulam-se segundo as leis do funcionamento da cadeia significante.
Para além do princípio do prazer, delineia-se das Ding como aquilo que constitui a lei, lei particular, estritamente ligada à estrutura do desejo, em que o objeto do desejo é sempre mantido à distância, originando uma falta, uma hiância no centro do desejo. Essa hiância é literalmente contornada pelo desejo no caminho de sua satisfação.
De acordo com Lacan, "o que há no nível de das Ding desde o momento em que é revelado é o lugar dos Triebe" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 138). O princípio de prazer, motivado pela deriva das pulsões, conduz ao ponto mítico do objeto perdido – das Ding – ponto de hiância, eleito, que diz respeito às zonas erógenas, ou seja, à fonte das pulsões. Nessa trajetória, as pulsões, devido à sua plasticidade, podem deslocar-se e substituir-se umas às outras, comportando-se "como uma rede, como vasos comunicantes" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 116). Há plasticidade, mas há também limites. É o que diz Lacan (1959-1960/1991), seguindo os passos de Freud:
Freud marca, no nível do que podemos chamar de fonte dos Triebe, um ponto de inserção, um ponto de limite, um ponto irredutível. (...) Por outro lado, Freud mostra-nos a abertura, que parece, à primeira vista, quase sem limite, das substituições [entre elas o sintoma] que podem ser feitas, na outra extremidade, no nível do alvo (p. 119).
O sintoma é, então, concebido como "o retorno, por via de substituição significante, do que se encontra na ponta da pulsão como seu alvo [a satisfação]. (...) Trata-se justamente de alvo e não, propriamente falando, do objeto, embora (...) este entre rapidamente em consideração" (Lacan, 1959-1960/1991, p. 139).
No sintoma, assim como nas demais formações do inconsciente, há uma satisfação de desejo, mas essa satisfação é uma "satisfação às avessas" (Lacan, 1957-1958/1999, p. 331) e, conforme Freud, uma "satisfação real" (Freud, 1917/1980, p. 421), para além do princípio do prazer e vinculada à pulsão de morte, demonstrando a aporia do desejo.
No seminário sobre A transferência, Lacan (1960-1961/1992) afirma:
O que a experiência analítica nos ensina em primeiro lugar é que o homem é marcado, é perturbado por tudo aquilo a que se chama sintoma – na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos. Não podemos definir-lhe o limite nem o lugar – por satisfazer isso sempre, de alguma maneira, e, o que é mais, sem prazer (p. 262-263).
Enfim, o que a descoberta freudiana nos ensina a ver nos sintomas, no tanto em que se ligam ao desejo, é sua relação com o destino. O que o sujeito busca é o que há para ser encontrado; e mais, se ele procura, é porque existe algo a ser encontrado. A única coisa a ser encontrada é, em última instância, o seu destino, marcado pela autonomia e prevalência da pulsão de morte.
No seminário sobre A angústia Lacan (1962-1963/1997-1998) conclui:
O sintoma não está, como o acting-out, pedindo a interpretação (...) o que descobrimos no sintoma, em sua essência, não é um apelo ao Outro, não é o que mostra o Outro; o sintoma em sua natureza é gozo (...) gozo encoberto sem dúvida (...) O sintoma não precisa de vocês como o acting-out, ele se basta. É da ordem do que lhes ensinei a distinguir do desejo, como sendo o gozo, quer dizer, algo que vai em direção à Coisa, tendo passado a barreira do Bem (...) quer dizer, do princípio do prazer, e é por isto que este gozo pode se traduzir por um Unlust, (...) desprazer ( p. 134).
No âmago da experiência do desejo existe algo que resta quando o desejo é satisfeito. No final do desejo, final que é sempre o resultado de um engano, resta o gozo, encarnado no sintoma e presentificado pela angústia.
No final de sua obra, sobretudo nos seminários R.S.I. (Lacan, 1974-1975) e Le sinthome (Lacan, 1975-1976/2005), Lacan define o sintoma como função de letra, f(x), um signo isolado da cadeia significante, uma cifra de gozo. O objeto a, resto de gozo inassimilável pela articulação significante, é o centro, o caroço do "sintoma-letra de gozo", articulador do inconsciente e do gozo.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Lacan, o sintoma é, inicialmente, enfatizado em sua dimensão simbólica, significante: um nó de significações susceptível de ser desfeito pela interpretação. Contudo, a experiência clínica, desde Freud, faz referência à persistência do sintoma mesmo após sua interpretação, apontando para a limitação dos efeitos produzidos pela mesma. Seguindo essa pista, Lacan avançará no sentido de conceber que o sintoma não é regido somente pela rede simbólica, pois algo resta após o desvendamento do encadeamento significante. A esse resto Lacan dará o nome de gozo, passando a entender o sintoma não somente como uma mensagem codificada, mas também como uma forma de o sujeito organizar seu gozo. Por essa razão, mesmo depois de ter seu sintoma decodificado pela interpretação, o sujeito não renuncia a ele. Freud demonstra que o neurótico, ainda que demande a cura, não a quer, aferrando-se ao gozo de seu sintoma.
Na experiência analítica, não basta isolar os significantes-mestres que definem o destino do sujeito; é preciso também isolar os modos de gozo do sujeito em relação ao Outro. Há um saber inconsciente, determinado pelo significante recalcado, mas há também um saber de si como sujeito pulsional, determinado pelo gozo. Nesse contexto, a psicanálise é uma práxis orientada para o núcleo do real e o papel do analista é permitir que a pulsão se presentifique na realidade do inconsciente. A interpretação deve visar não tanto ao sentido, mas principalmente à redução dos significantes-mestres a seu não-senso, a seus modos de gozo.


Referências:

Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329



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