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DAS COISAS QUE NÃO TE CONTEI



     Eu era uma das melhores alunas. Saia puída, blusa encardida e dedos encolhidos dentro do sapato que já não serviam mais.
     Chegava em casa e por falta do que fazer ou talvez para
fugir da realidade, fechava-me no quarto e lia. Livros empoleirados da biblioteca do colégio. Antes dos 15 anos, já conhecia Dante, Victor Hugo, Cervantes, Ulisses, Camões e tantos outros. De Tácito e Cicero, pouco entendi e os reli na vida adulta. Recitava Augusto dos Anjos sem pestanejar.
     E assim vivia e assim sonhava procurando pelo mundo de Dom Quixote.
     Escondia-me das vergonhas infringidas por meu pai. Homem de posses, intelectual, que submetia a sua família as mais infames humilhações. Viciado em sexo, passava dias sem aparecer em casa, deixando a todos dependentes da bondade alheia.
     A escola era uma fuga e de repente tornou-se mais uma dor. Todos os dias, ao final da última aula, a diretora entrava na sala, chamava meu nome e pedia que minha mãe comparecesse a escola. Eu sabia o motivo, todos sabiam e eu por medo ou piedade nunca dava o recado para minha mãe.
     Então chegou o dia em que a diretora, cansada do descaso que de forma injusta, atribuía a minha mãe, disse que no dia seguinte só entraria no colégio junto com ela.
     No caminho de casa, dei-me conta que eram tão somente moinhos de vento e que Dulcinéia nunca seria encontrada.
     Enfim, entre tantas magias, sonhos e desilusões, dei o recado.
     No dia seguinte, minha mãe colocou seu melhor vestido que talvez já tivesse mais de 15 anos, seu sapato de salto gasto e fomos ao colégio. A Diretora nos esperava na porta e juntas entramos na sua sala de móveis escuros e brilhantes. Minha mãe sentada em uma poltrona de couro e eu em pé ao seu lado.
     Havia 4 meses de atraso nas prestações do colégio. Aquilo tinha que ser resolvido ou eu seria transferida para uma escola pública, que naquela época já tinha um ensino medíocre.
     Minha mãe explicou toda a situação, sem que uma lágrima escorresse de seus olhos, mesmo eu sabendo que ela estava dilacerada por dentro.
     E sem ter o que oferecer, ofereceu seus serviços. Faria qualquer coisa. O mais humilde se necessário para que eu pudesse continuar a estudar.
     Não sei se por necessidade ou por compaixão, foi lhe oferecido um trabalho de limpeza em troca dos meus estudos.
     No dia seguinte, fomos juntas para o colégio e eu envergonhada, ficava bem longe dela e sequer a olhava.
     E assim passou-se todo um ano; em que a cada dia eu a matava e a cada dia ela renascia, como Fênix, para que eu não tivesse o seu mesmo destino.



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