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Sonata de outono e vozes perdidas.

Sonata de Outono, de Bergman, traz à tona um velho dilema da condição humana feminina: a cisão entre as ambições pessoais e as obrigações tidas para com o coletivo. Nesse sentido, a obra do diretor apaixonado por questões existenciais e psicanalítica se volta para o público feminino, dando pouco ou nenhuma voz aos homens, que aparecem como sombras de um passado remoto ou testemunhas dos dramas existenciais de mulheres que se digladiam em busca de cura e de redenção diante de seus problemas.

Os filmes de Bergman trabalham demais com o poder de conclusão do espectador, termo pego de Will Eisner para falar da estética de leitura da arte sequencial quadrinhista. Nesse sentido, em tempos nos quais cada vez mais se discute a política do pessoal dentro do âmbito feminista e identitária, fica evidente que o choque existente entre mãe e Filha dentro do filme revela a dimensão fragmentária do existir feminino, aberto por demais para a realidade que exige de si fechamento.

Charlotte é a mulher de sucesso com temperamento ao mesmo tempo romântico e aventureiro. Tendo acabado de perder um companheiro, visita a filha Eva, muito bem interpretada por Liv Ullman. Nos primeiros momentos da história, a impressão tida é de que a mãe (Ingrid Bergman) será a figura severa e até mesmo cruel da história, ainda mais pela postura arrogante com a qual muitas vezes trata Eva. Todavia, esta é quem passará no plano do enredo a expressar todo tipo de sentimento de raiva e rancor dirigidos por quem lhe gestou.

O poder de conclusão do espectador é posto aqui à tona, pois somos levados a questionar como foi a vida e as escolhas de Charlotte para chegar a um casamento cujos frutos, duas filhas, não lhe agradam de forma alguma. Para piorar, há ainda uma filha com sérios problemas degenerativos, Helena, cuja capacidade de expressão é quase nula e representa perfeitamente bem a incomunicabilidade em seu sentido mais pleno. Bergman cria uma bela antítese entre seres que podem se comunicar e ainda assim não se entendem e um ser que busca de todas as formas, em esforços desesperados, se fazer ouvir, mesmo que à base de gritos e sussurros.

A fragmentação do ser que em filmes como A Hora do Lobo e O Rosto se mostram ligadas a dilemas estéticos e existenciais aqui se volta para a ontologia do ser feminino, que tenta ser livre em uma realidade a qual predetermina seus gestos. Charlotte é condenada pela filha por não ter conseguido – ou querido – conciliar a realidade de musicista consagrada e erudita com a realidade de mãe. Eva, que ainda teve de lidar com duas perdas de filhos, sente-se profundamente ferida por isso, mas percebemos em seu jeito de ser uma relutância em relação à fúria com a mãe.

Talvez essa relutância seja o que há de sororidade no filme, porque podemos supor a partir dela que de repente Eva percebe-se em condição similar à da genitora, presa a um mundo no qual a maternidade se mostra como signo indelével do ser mulher. Não à toa, a própria estrutura de seu casamento – com um homem que não ama e tendo a irmã Helena como espécie de filha adotiva – mostra como a estrutura social da família é de suma importância dentro de nosso contexto cultural ocidental, que mesmo de forma oblíqua se mostra nos filmes desse bom diretor sueco.

No final das contas, a palavra com sua tentativa de “cimentar” o ser, a comunicação como elemento ontológico de afirmação de uma liberdade, é outro elemento importante dentro da obra de Bergman, em especial nessa. Se em O Rosto, o mutismo do protagonista é uma reação discursiva a um mundo que se autoparodia sem assumir, aqui as vozes são mais tentativas de se compreender do que se fazer compreender pelo outro. Nos filmes de Bergman, a voz é o elemento imagológico – usando terminologia original de Kundera traduzido – para seres que se deparam com o absurdo existencial.



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