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Conceituando Região em sala de aula

Região Metropolitana de São Paulo (RMSP): o conceito de região nos ajuda a compreender a lógica de organização natural e humana do espaço geográfico

Região Metropolitana de São Paulo (RMSP): o Conceito de região nos ajuda a compreender a lógica de organização natural e humana do espaço geográfico

Antes de discutir como ensinar o conceito de região, naturalmente é importante que se tenha definido tal conceito. Embora tenha profunda afinidade com a corrente da Geografia Crítica, optarei aqui pela concepção de região mais utilizada pela Nova Geografia. Segundo Roberto Lobato Corrêa (Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1990), esta concepção é de que a região “é definida como um conjunto de lugares onde as diferenças internas entre esses lugares são menores que as existentes entre eles e qualquer elemento de outro conjunto de lugares”.

Opto por tal definição por duas razões. A primeira é a própria leitura da região pela Geografia Crítica. Historicamente, esta corrente relegou o conceito de região a um segundo plano, desconsiderando-o enquanto categoria de análise espacial; além de ter dado ao conceito de região um enfoque exclusivamente econômico, o que automaticamente reduz seu sentido e sua utilidade enquanto categoria. A segunda razão é o conjunto das necessidades existentes, em sala de aula, sobre o uso da região enquanto categoria de análise que colabore para que o aluno (em especial aquele do Ensino Fundamental) compreenda a organização espacial contemporânea. Nesta condição, a definição da Nova Geografia me parece suprir, com algumas adaptações, as necessidades escolares.

Tais adaptações busco na Geografia Humanístico-Cultural, para quem a região é um elemento espacial ligado à identidade do grupo que o habita. Assim, com a junção de tais definições, chego à seguinte conceituação: região é uma porção do espaço, relativamente homogênea, que se diferencia, por tal homogeneidade, dos espaços que a cercam. Tal homogeneidade é relativa e comparativa, ou seja, não é de se esperar que os mesmos elementos que caracterizam a região sejam encontrados, com a mesma disposição e a mesma quantidade, em toda a sua extensão. Entretanto, é de se esperar que tais elementos estejam dispostos e abundem na região de forma tão característica que se tornem destacados em relação à sua disposição e quantidade em outros espaços.

Desta forma, tenho para mim que a região é uma categoria de análise multiescalar (sendo possível regionalizar uma cidade ou o mundo), que as regiões são mutáveis (em vista do dinamismo espacial) e que é possível regionalizar de diversas formas um mesmo espaço (de regiões biogeográficas a regiões econômico-produtivas, por exemplo). Esta aparente complexidade não se concretiza quando aplicamos tal conceito em nossas práticas de análise geográfica, de forma que (ao menos a meu ver) região é a categoria de análise geográfica mais simples de se compreender, especialmente em sala de aula, como veremos.

Em sala de aula: conceituar para poder regionalizar

Da mesma forma como, para discutirmos regionalização, precisamos compreender o conceito de região, o professor deve esperar o mesmo das turmas para as quais leciona. Quando e como fazer isso?

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Geografia propõem que no quarto ciclo do Ensino Fundamental (8º e 9º anos), o conceito seja abordado. Nos objetivos propostos, consta:

compreender as múltiplas interações entre sociedade e natureza nos conceitos de território, lugar e região, explicitando que, de sua interação, resulta a identidade das paisagens e lugares.

Discordo parcialmente de tal proposta. Acredito que o ideal seja tratar o conceito de região ainda no terceiro ciclo, ou de forma introdutória a posteriores estudos sobre a geografia regional brasileira, ou logo após a abordagem sobre o conceito de lugar. Isto porque o conceito de região pode ser uma importante ferramenta para o aluno “organizar” sua própria interpretação do espaço geográfico.

Pois bem. Dito isso, como ensinar o que é região? Como sempre proponho, acredito que o melhor a fazer é começar perguntando aos alunos o que eles sabem sobre o tema. Perguntar quais regiões eles conhecem, e o que significa essa palavra, pode trazer respostas interessantes e servir de boa introdução ao tema.

Posteriormente, o professor pode apresentar uma definição simplificada do conceito, de forma oral e escrita. Tal definição deve ser ao mesmo tempo compatível com o significado que se dá ao conceito e com a linguagem e a capacidade de interpretação da turma. Um bom exemplo de definição é: uma região é um conjunto de lugares, perto uns dos outros, que tem alguma coisa em comum, que os torna parecidos.

Aqui, já é possível explorar o conceito através das informações que os alunos conhecem, através de perguntas como: se vocês fossem dividir a cidade de vocês em regiões, como vocês dividiriam? Tem regiões industriais, comerciais, residenciais, de preservação ambiental nessa cidade? É possível dividir essa cidade de acordo com alguma outra característica? Essa cidade, junto com as cidades em volta, formam uma região? É sempre positivo questionar também o porquê das respostas que surgem, de forma que os alunos justifiquem aquilo que estão opinando sobre o espaço.

Num passo posterior, o professor pode, de acordo com os conteúdos propostos para aquela turma, explorar outros exemplos de região. Por isso proponho que o conceito de região seja abordado imediatamente antes de se estudar a regionalização brasileira. Desta forma, o aluno põe em prática o uso do conceito aprendido, utilizando-o como categoria de análise. De quebra, é possível observar como há inúmeras diferenças na forma de se regionalizar o Brasil. Ao longo das aulas, conforme se avança o estudo sobre o território brasileiro, o professor pode explorar as formas como o país pode ser dividido. Por exemplo, as divisões em domínios de natureza (de acordo com a classificação biomorfoclimática de Aziz Ab’Sáber), em regiões técnico-científico-informacionais (de acordo com a classificação de Milton Santos), em regiões geoeconômicas (de acordo com a classificação de Pedro Geiger, ou em regiões sócio-político-econômicas (de acordo com a classificação do IBGE).

Regionalização do Brasil segundo Aziz Ab'Sáber, considerando os aspectos naturais do espaço

Regionalização do Brasil segundo Aziz Ab’Sáber, considerando os aspectos naturais do espaço

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Regionalização do Brasil segundo o IBGE, com base nas características sociais, econômicas e políticas do país

Regionalização do Brasil segundo Pedro Geiger, de acordo com critérios econômicos

Regionalização do Brasil segundo Pedro Geiger, de acordo com critérios econômicos

Comparando as diferentes regionalizações do Brasil, é possível ao aluno compreender que uma região não é um lugar fechado às interações com o que há ao seu redor. Ao contrário, um mesmo local pode ter características de várias regiões, a depender do critério adotado. É interessante que o aluno perceba também que as regiões não necessariamente coincidem com as fronteiras e limites desenhados nos mapas políticos, pois a regionalização extrapola as delimitações territoriais. Assim é possível, por exemplo, que uma cidade de fronteira tenha mais características que a tornem semelhante a uma região de um país vizinho, do que a regiões em seu próprio país.

Por fim, espera-se que, sob domínio do conceito de região, o aluno consiga desenvolver melhor sua compreensão da organização espacial, seja do território brasileiro ou de sua própria cidade. Com o tempo e o desenvolvimento de novos conteúdos, o conceito de região deve permitir que o aluno observe a forma como a economia, a cultura, os elementos naturais, a política, etc., moldam e fragmentam o espaço geográfico, na mesma medida em que o unificam.


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