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Dica de Leitura: Saraminda

Reabrindo as atividades do blog em 2016, e buscando consolidar a coluna Dicas de Leitura, falo hoje sobre Saraminda, o romance sertanista, histórico e erótico de José Sarney.

Convém destacar, antes de qualquer comentário sobre o livro em si: considero o ex-presidente, ex-senador e ex-governador maranhense José Sarney uma das figuras mais nefastas da história política brasileira. Sarney sempre foi um símbolo do atraso, de uma elite arcaica e retrógrada, agarrada ao coronelismo e à violência como formas de manter o poder e o controle sobre a população. Entretanto, o que farei aqui será discutir parte da Obra literária deste senhor que, enquanto escritor, não é ruim.

Saraminda, a personagem-título do romance, é uma créole guianense, descendente de índios e africanos, prostituta, que é comprada por Cleto Bonfim, rei do garimpo na região do Rio Calçoene (atual Amapá). Saraminda utiliza sua singular beleza e seu poder de sedução para conseguir de Cleto o que quer. Entretanto, não dispõe do que mais deseja: a própria liberdade.

A relação entre os dois serve para dar liga a uma instigante história sobre o garimpo na divisa entre Brasil e França do século XIX. Ao longo da obra, Sarney, que desenvolveu ampla pesquisa sobre a história do garimpo na região, relata as origens e o dia-a-dia dos garimpeiros, a biodiversidade da Amazônia e seus desafios para os que a buscam para explorar ouro, o atrito político-diplomático entre o Brasil e o território ultramarino francês, a vida no Amapá e em Caeina. O livro é, Ainda, recheado com vários trechos eróticos, nos quais Saraminda seduz e “enlouquece” os homens do garimpo.

Em Saraminda, Sarney bebe da fonte da literatura contemporânea, buscando um estilo literário arrojado, dinâmico e não-linear. Entretanto, em alguns pontos a história se arrasta um pouco, e o autor se perde em descrições demasiado prolongadas, desinteressantes e desnecessárias. A trama é boa, mas peca gravemente pela excessiva erotização da personagem principal. Se, por um lado, a obra cutuca a objetificação da mulher (a personagem principal é comprada por um garimpeiro, tem tirada sua liberdade em troca de uma vida menos miserável que a dos bordéis), Saraminda parece ser uma mulher inexistente, fruto do clichê literário e do estereótipo machista da femme fatale. Peca, ainda por um final que, embora surpreendente e impactante, acaba apelando um pouco para o eurocentrismo, segundo interpretei.

Ainda que tendo em consideração as deficiências desta obra, sua leitura me pareceu recomendável. Em tempos de livros fast-food, enlatados literários sem sal e auto-ajuda travestida de literatura, Saraminda é uma boa alternativa de entretenimento com enriquecimento do arcabouço cultural do leitor. Sua leitura é fluida, instigante, prende a atenção e o interesse de quem o lê. A construção da trama é complexa e bem estruturada, configurando-se um excelente passatempo literário.

Para professores e estudantes de Geografia, o romance traz alguns benefícios especiais. Através da leitura histórica de Sarney sobre o garimpo amapaense/guianense, é possível vislumbrar alguns aspectos da formação cultural e territorial brasileira e latinoamericana como, por exemplo, traços étnicos e linguísticos, conflitos internacionais e desenho das fronteiras brasileiras, dentre outros. Traz ainda interessantes aspectos do clima e da vegetação equatoriais, e possibilita alguma reflexão, ainda que superficial, sobre o colonialismo francês e suas consequências.

Para baixar a obra em formato .doc, clique aqui.


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