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SOBRE O AMOR E O TEMPO NA OBRA DE LUC FERRY.


(Milton Pires) 

Tomo como premissa, como ponto de partida Universal e Necessário, que é o “Amor a única forma de vida a partir da qual pode o Homem se tornar eterno e vencer o Tempo”. 

É da leitura da “Sabedoria dos Mitos Gregos”, de Luc Ferry, a noção de que o Tempo é filho da Primeira Mulher pois na idade dos Homens de Ouro não havia morte, nem mulher que fizesse companhia física ao homem. Formas femininas existiam nesse mundo. Eram de natureza espiritual. Todo surgimento, toda criação de “novos homens”, era dependente da vontade dos deuses. 

Não havia, na Idade de Ouro, reprodução sexuada. Não havia necessidade de mulheres perpetuando a raça dos homens de ouro que, quando morriam, o faziam sem dor nem sofrimento. Transformavam-se em puro espírito. 

O mito de “Prometeu e Pandora”, diz Luc Ferry, mais do que a decaída do homem deste paraíso grego, explica a própria criação do Tempo junto com aquela que foi a primeira mulher. 

A primeira mulher veio para rebaixar o homem da condição do ouro, da condição de eterno, e veio como enviada de Deus como “forma de castigo”. O homem precisou trabalhar para viver. O amor passa a se transformar em sexualidade. Homens e mulheres passam a se reproduzir. 

É ambivalente esta relação do homem com a primeira mulher causadora de sua desgraça – a irresistível Pandora que submeteu o irmão de Prometeu (aquele que pensava antes) – Epimeteu (o que fazia antes de pensar) – aos seus terríveis encantos. 

Pandora, lembra Luc Ferry, e todas as primeiras mulheres tinham, segundo os gregos, “coração de cadela”. O “coração de cadela” destas primeiras mulheres fazia com que quisessem “sempre mais”, que “nada fosse suficiente”, que sempre fosse necessário “pensar no dia do amanhã” 

Ora ocorre que até então não havia nenhum “amanhã”. Não havia Tempo nem nada que se pudesse identificar como passado, presente ou futuro. Todo mundo, toda realidade dos homens da Idade de Ouro, era uma realidade perfeitamente estática na sua eternidade. A única dimensão conhecida era externa à consciência destes primeiros homens. Toda realidade era Espaço Puro – primeira forma de sensibilidade na Estética Transcendental da Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. 

Epimeteu abre a “Caixa de Pandora”elaborada como duplo castigo para Prometeu que, primeiro engara Zeus na distribuição da melhor carne do boi sacrificado em sua honra e que, depois, ainda se atrevera a roubar o fogo em benefício da raça humana. Deuses não precisam comer coisa alguma e animais comem todo seu alimento na forma crua - só a raça humana faz uso do fogo para se alimentar. 

Aberta a Caixa, foram liberados todos os horrores, todos os males do Mundo que Zeus havia colocado lá dentro como castigo para o Homem. O homem torna-se mortal e inicia sua queda em direção às outras quatro idades imaginadas por Hesíodo. O homem torna-se plenamente mortal: nasce, pois, o Tempo, segunda forma de sensibilidade, junto com o amor físico entre homens e mulheres. 

Enfurecido com a primeira mulher que lhe trouxe a mortalidade, a queda da realidade do mundo parado no Tempo, o antigo homem de ouro precisa trabalhar. Sua primeira mulher o forçou, o estimulou a trabalhar pois ela, mulher, é em si mesma a negação do espaço puro como dimensão externa única da consciência humana. A mulher ao “olhar para dentro de si”, sabe da morte que lhe espera no futuro e sabe da vida que pode criar dentro dela – se o homem é o Espaço, a mulher é o Tempo. 

Nasce, na primeira ideia do amor físico, do amor sexualizado, não a noção do romance; mas a da vitória sobre a morte que até então não existia para nada nem para ninguém numa Idade dos Homens de Ouro agora decaídos. 

A primeira manifestação física de amor entre homem e mulher não é, pois, somente biologia pura ou prenúncio de civilização – é uma soterologia: uma teoria de salvação contra o Tempo e a própria possibilidade de uma vida eterna para uma raça de mortais. 


20 de setembro de 2019.


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