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Sertanejo universitário e funk: o fim da música no Brasil.

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Carlos Ramalhete, 

da Gazeta do Povo.

A música Sempre foi um dos pontos culturais mais altos do Brasil. Nossa cultura sempre conseguiu pegar o que vinha de fora, remisturar, reinterpretar e soltar uma coisa diferente e mais rica. Da polca polonesa, por exemplo, veio o chorinho, um tipo de música riquíssimo e completamente brasileiro. Do mesmo modo, os vários tipos de música que ganharam o nome comum de samba – baiano, carioca etc. – são reinvenções brasileiríssimas de elementos das músicas europeia e africana, e as nossas tradicionais modas de viola são uma reinterpretação completamente brasileira de um estilo de música de origem colonial espanhola. Sempre, em suma, soubemos pegar o que vinha de fora e transformar em outra coisa, melhor e mais rica.

Com a tremenda decadência cultural provocada pela combinação de uma mídia desesperada em busca de audiência e uma sociedade cada vez mais artisticamente pobre, contudo, isso acabou. Os netos de Paulinho da Viola e bisnetos de Cartola berram pornografias no microfone, auxiliados por programas de computador que cravam a fórceps os urros em escalas musicais e os combinam com ritmos eletrônicos pesados, formando o chamado “funk carioca”. Já o interior substituiu a música por má poesia mal declamada, o que se convencionou, por alguma razão que me escapa à compreensão, chamar de “sertanejo universitário”. É uma ofensa ao sertão (e mais ainda ao sertanejo clássico) e à instituição universitária.

Como não tenho tevê, que dirá o vício de assisti-la, e não ouço rádio, no mais das vezes consigo escapar dele. Volta e meia, todavia, me vejo preso em algum ambiente em que sou forçado a ouvir aqueles horrores sem Melodia e sem ritmo, que só têm como atrativo letras que em geral tratam das pulsões mais baixas da psique humana: desejo sexual, ciúmes e o que mais servir para reduzir a pessoa ao mínimo, ao quase-animalesco.

Numa festa de igreja, outro dia, tive o constrangimento de assistir a uma dupla de senhoras declamando ao microfone um desses sertanejos universitários, sempre sem conseguir entender por quê cargas d’água isso é “universitário”. Com certeza não é de uma faculdade de música que se fala! A letra era alguma coisa bem baixa, se não me engano uma ameaça de traição a um marido que não estaria dando o devido valor à esposa/declamadora/ameaçadora. A melodia, como sempre nesse estilo, não existia. São “músicas” que não se pode assoviar, pela razão simples de não serem músicas de verdade, faltando-lhes o mais essencial na música, que é a melodia.

É algo ainda pior que a tradicional canção francesa, que nós, brasileiros, sempre vimos, com justiça, como muito abaixo da nossa produção nacional. A canção francesa é apenas repetitiva: quem ouviu uma ouviu todas, e quem ouviu uma estrofe de uma música ouviu a música inteira. É um pouco como alguns estilos nordestinos, mas sem a riqueza harmônica e a improvisação poética destes. Já a melodia do sertanejo universitário não é repetitiva: ela não existe. É pior que o famoso Samba de Uma Nota Só, que afinal tinha duas. Tenho muita pena dos pobres músicos acompanhadores, que estudaram horas por dia, anos a fio, apenas para se verem tocando uma base – essa, sim, repetitiva – para um sujeito que berra no microfone, fazendo saltar as veias do pescoço, algo que nem melodia tem. Ou, pior ainda, para uma dupla que berra junta alguma péssima poesia acerca de traições conjugais, ciúmes ou simplesmente cio mal-resolvido.

O funk carioca é péssimo, mas, dos três elementos da música – melodia, ritmo e harmonia –, tem um, o ritmo, e por vezes chega a ter pedaços de melodia. Harmonia seria querer demais, claro. Já o sertanejo universitário não tem nenhum dos três. Não é música, ainda que tenha uma banda tentando tocar um acompanhamento para os berros que fazem as vezes de cantoria. O fato de a mídia conseguir vender esse mero apelo ao mais baixo no homem como se fosse música num lugar com a tradição cultural musical do Brasil mostra o nível da decadência a que chegamos. Não é de se estranhar que a sexualidade dos “cantores” de hoje seja muito mais importante que sua capacidade artística; se a arte foi substituída por outra coisa, de que valeria termos grandes cantores? Nem o melhor dos cantores conseguiria cantar algo que não é música.

Nossa situação seria comparável à de uma França em que só houvesse lasanhas de micro-ondas e perfumes de patchuli, sem as comidas e os perfumes que tornaram aquele país justamente famoso. Aqui, na terra do choro, da bossa-nova, da moda de viola, do baião, do frevo, do forró, do xote, da guarânia e do vanerão, simplesmente não faz sentido termos a parada de sucessos dominada por duas modas sonoras que nem poderiam ser tecnicamente chamadas de música. É a decadência, a mesma decadência que faz com que os adolescentes possam roubar, mas não possam trabalhar. É assim que se desmancha uma cultura, é assim que se sufoca a cultura de um país. Mais uma excelente razão para desligar a tevê.


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