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Churchill, o homem que imobilizou a língua inglesa e a levou para a batalha".

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Martim Vasques da Cunha, 
publicado na Gazeta do Povo, 

Na abertura de cada tomo dos seis volumes que compõem as suas Memórias da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill fez questão de escrever um lema que o serviu como norte durante toda a sua longa vida, especialmente em situações extremas – “Na guerra, determinação; na derrota, desafio; na vitória, magnanimidade; na paz: boa vontade”. 

A palavra-chave aqui é “magnanimidade”. Sem ela, jamais conseguiremos entender qual foi a principal realização de Churchill, não só política, mas sobretudo existencial. De todos os estadistas que povoaram o imaginário do século XX, ele foi, sem dúvida, aquele que mais se aproximou daquilo que eu chamo, no meu livro Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More(2012), de “político do espírito”. 

Quando encontramos esse tipo de homem, existem apenas duas medidas de alma, como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset em seu fundamental texto “Mirabeau, ou o político”. São a magnanimidade e a pusilanimidade. Ambos os conceitos são descrições muito aguçadas do que se passa na vida interior de uma pessoa e não têm qualquer cunho moralista, e sim moral. Para Ortega, “o magnânimo e o pusilânime pertencem a espécies diversas; viver é, para um e outro, uma operação de sentido divergente e, em consequência, carregam dentro de si duas perspectivas contraditórias”. 

O primeiro é “um homem que tem uma missão criadora: viver e ser são, para ele, fazer grandes coisas, produzir obras de grande calibre”; já o segundo “carece de missão: viver é para ele simplesmente existir, conservar-se, andar por entre as coisas que já estão aí, feitas por outros – sejam elas sistemas intelectuais, estilos artísticos, instituições, normas tradicionais, situações de poder público. Seus atos não brotam de uma necessidade criadora, originária, inspirada e não brotam de uma necessidade ineludível como o parto. O pusilânime, por si, não tem o que fazer: faltam-lhe os projetos e o afã rigoroso de execução”. 

Infelizmente, nos nossos dias, quando temos diante de nós a figura de um Churchill ou – para ficarmos no escopo brasileiro – de um Joaquim Nabuco, o estudo da política (e do que seria um verdadeiro estadista) pende para o lado da pusilanimidade, que se reflete na imposição popular de que o político ideal seria uma “boa pessoa”, dotada de um carisma similar à magia, igual a um conceito abstrato, uma coleira perfeita para um sujeito que, ao articular e comandar uma sociedade, precisa comportar-se como o restante do gênero humano – ou seja (e aqui voltamos a Ortega), como alguém que afirma espirituosamente que devemos agir semelhante a “uma mulher que se casa com um artista porque é artista, e depois se queixa porque este não se comporta como um chefe de repartição pública”. 

Ora, Winston Spencer Churchill foi tudo, menos um chefe de repartição pública. Além de ser um estadista, foi também pintor, construtor de casas, soldado, estrategista, visionário, patriota, e, mais do que todas essas funções, um historiador digno de ficar ao lado de Edward Gibbon e Thomas Macauley, com uma imaginação histórica que, nas palavras de Isaiah Berlin, era “tão forte e tão abrangente a ponto de encaixar todo o presente e todo o futuro na moldura de um rico e multicolorido passado”, uma abordagem idiossincrática que era também “dominada por um desejo – e uma capacidade – de encontrar sentidos morais e intelectuais fixos, de dar forma e caráter, cor, direção e coerência à corrente de acontecimentos”. 

Contudo, isso não era suficiente para enquadrar o velho Winston em alguma categoria. Churchill era tudo isso que foi listado acima, mas, antes de qualquer coisa, ele era um escritor que, por ter um amor intenso pelas palavras, sabia que seria graças a elas que finalmente venceria a guerra contra Adolf Hitler. 

“Político de espírito” 

É este drama específico que o filme O destino de uma nação (Darkest Hour, 2017), dirigido com maestria por Joe Wright (o mesmo cineasta de Desejo e Reparação e Razão e Sensibilidade), mostra com incrível precisão. Vemos aqui um Churchill – interpretado por um Gary Oldman que praticamente some no papel, tamanha a sua imersão na personalidade do inglês – que, além de ter de enfrentar Hitler, também tinha de combater o “fogo amigo” de ingleses como Neville Chamberlain e Lord Halifax, que o pressionavam para fazer um acordo de paz com a Alemanha nazista, simplesmente porque viam a situação sob uma perspectiva pusilânime e não percebiam que, muitas vezes na vida, o Mal é uma força ativa, concreta, e contra a qual os magnânimos não podem recuar sob hipótese nenhuma. 

Como se isso não bastasse, testemunhamos, na película de Wright, a encruzilhada de um político que não consegue articular corretamente para si mesmo e para os outros ao seu redor o que era a sua visão do problema civilizacional que a Inglaterra enfrentava naquele momento histórico – e o que era a sua própria posição como estadista que deveria representar os anseios não da opinião pública (dominada pela imprensa e pelas elites isoladas em seus castelos), mas do sentimento popular que então intuía sobre o iminente desastre do cerco de Dunquerque e a provável invasão do exército alemão nos campos verdes do império britânico. 

Para quem sempre dizia que “as palavras são as únicas coisas que perduram”, tal impasse existencial era a única batalha importante – e Wright e Oldman (com a ajuda do roteirista e romancista Anthony McCarten) conseguem transformá-lo em cinema de primeira categoria, dando ao espectador uma sensação que não estamos apenas assistindo a uma simples cinebiografia, mas sim a um drama de sentido que mostra algo incompreensível para quem se acostumou a analisar a política nos nossos dias pela ótica pusilânime – no caso, um estadista que está literalmente possuído por uma missão. 

Pois foi exatamente isso o que tornou Winston Churchill um “político do espírito” – alguém que está imbuído de um sentido de aceitar o destino que depende e ao mesmo tempo não depende da sua escolha, além de convencer os outros de que há um significado nas coisas deste mundo – mesmo que seus semelhantes imponham obstáculos que dificultam o viver, este processo durante o qual o ser humano aponta para um futuro desconhecido e apoia-se em um presente frágil. 

Como qualquer um que sabe que fazer alguma coisa é a própria ocupação da vida, Winston Churchill reconhecia que a única certeza que tinha naquela encruzilhada que se encontrava eram as suas experiências do passado, embaladas na retórica brilhante daquela “virtude da consistência” que, segundo João Pereira Coutinho, definia as ações de Marco Túlio Cícero e de Edmund Burke, suas maiores inspirações. 

Somente assim o “político do espírito” poderia perceber qual seria a sua missão e qual o significado dela. Churchill foi um homem que optou de forma consciente pela magnanimidade – e, ao olhar para trás, vendo com clareza, entre os escombros e as conquistas do que já aconteceu na História, uma intuição do que poderia acontecer, ele aprendeu com seus acertos e, muito mais, com seus erros; percebeu que o futuro seria uma contínua possibilidade de escolhas que, se uma fosse aceita, a única maneira de não se lembrar das outras que poderiam ter sido seria assumir a sua responsabilidade – enfim, ter a plena noção de que ele estava dentro das coisas deste mundo e que essas tinham um peso, uma concretude que não podia ser negada. 

Visionário

Em O destino de uma nação, Wright retrata o estadista inglês como se ele fosse um “peregrino do Ser” (mais uma vez, obrigado a Ortega y Gasset pela expressão), um político que não apenas é um magnânimo que luta contra os pusilânimes, mas também alguém igual a qualquer um de nós, um homem perdido em seus pensamentos – apelidados pelo próprio Churchill de black dog (cão negro), tamanha a força da melancolia misturada com a da vitalidade –, e que caminha sem saber se qualquer ação sua terá um efeito ou uma consequência prática que aproxime os seus próximos da resposta para o que fazer com a vida. 

Ele era alguém que se movimentava na tensão entre o mundo e o espírito (mesmo que não fosse o mais fiel dos crentes) e percebia o drama de sentido numa sociedade que tinha de redescobrir dentro de si mesma o fato de que era a própria representante da História (“History is England”, já dizia T.S.Eliot nos seus Quatro Quartetos), numa forma de conhecimento que só esta última seria capaz de restaurar qualquer espécie de ordem real e verdadeira, não apenas na Grã-Bretanha, mas também no resto do mundo. 

Entretanto, essa imaginação histórica, por ser justamente baseada em um passado que se apoia no presente atormentado das circunstâncias concretas, tentava unir o constante e o inconstante da razão humana; procurava, naquela balbúrdia da guerra, qualquer amostra de lógica, proporção e sentido – mesmo quando encontrava muitas vezes as ruínas de um fato que só pode ser redescoberto pelo esforço contínuo da memória, sendo que esta seria recuperada pelo uso constante e correto da língua e da linguagem. 

Era essa sensibilidade com os verbos – algo que se aproximava do sensual e do erótico, como bem elucidou um dos melhores biógrafos de Churchill, William Manchester, em sua magnífica opus de três volumes, The Last Lion(“O último leão”) – que o fazia caminhar pelo passado para descobrir o presente no qual todo o povo inglês deveria viver de forma justa, um presente que, se não fosse pela sua visão como escritor e historiador, estaria perdido sem qualquer possibilidade de retorno, atingindo não só o seu próprio futuro que se estreitava cada vez mais, como também o futuro da sociedade que ele próprio representava. 

Não à toa que o título original do filme de Joe Wright é “Darkest Hour”. Aquela não foi apenas a hora mais sombria de todo o século; foi também a hora mais escura, a hora mais aterradora que um político repleto de magnanimidade poderia viver. Churchill era um visionário, mas não sabia como expressar essa intuição ambiciosa aos seus pares e ao povo pelo qual deveria lutar. 

De fato, não era um santo; contudo, conforme escrevi em um ensaio sobre a sua nemêsis, colocando-o como antípoda, não seria um exagero que ali o seu papel era o mais próximo de um profeta hebreu – como ele foi chamado durante os chamados “anos de ostracismo” na década de 1930, quando alertou sobre os perigos de Hitler, ninguém o escutou e o resultado foi aquilo que classificou de “a guerra desnecessária”; ou o de um spoudaios, o homem maduro descrito por Aristóteles, capaz de desenvolver ao máximo as suas potencialidades e, em consequência, aprender que governar e comandar os outros é antes de mais nada governar e comandar-se a si mesmo, especialmente no domínio das paixões e dos sentimentos. 

E, de fato, Churchill conhecia a profundidade da sua alma e da dos seus semelhantes pois desceu ao inferno do conhecimento próprio e de lá voltou. Não foi apenas alguém que mandou, mas alguém que representou os anseios mais íntimos dos seres de carne e osso que compunham a sociedade inglesa; não era somente um chefe político ou institucional, mas um líder autêntico, com liderança existencial, pois foi o reflexo da comunidade que governou. 

Como o próprio analisou uma vez, talvez numa espécie de autorretrato deliberado: “Todo profeta deve provir da civilização, mas todo profeta tem de ir para o deserto. Deve ter uma impressão profunda de uma sociedade complexa e de tudo o que ela tem para dar, e depois atravessar períodos de isolamento e meditação. É mediante esse processo que a dinamite psíquica é feita”. 
Salvador da civilização ocidental 

“Dinamite psíquica”: temos que ter essas palavras em mente quando analisamos, por exemplo, a antológica cena do metrô em O destino de uma nação, na qual Churchill, completamente angustiado pela decisão que deve fazer (aceitar ou não o acordo com Hitler), tem uma iluminação súbita a lá Bernard Lonergan e resolve se encontrar com o povo londrino no famoso “tube”. 

Lá, Wright, McCarten e Oldman se dão conta do que poucos realizadores cinematográficos perceberam na hora de retratar qualquer evento político crucial do século XX. Eles dramatizam literalmente a descida ao submundo, ao underground, a descida ao Hades, a descida ao inferno das palavras, a descida que caracteriza a grandeza do “político do espírito”, e de uma maneira tão natural que o espectador simplesmente não nota a trama arquetípica que está assistindo. 

Churchill só pode articular a sua visão se ele fosse às profundezas de si mesmo – e da sociedade que ele precisa defender a qualquer custo. Ao conversar com a verdadeira sensibilidade popular – e não com a opinião pública deformada pelos membros do seu gabinete em Downing Street –, o primeiro-ministro entra em sintonia com o mistério e a complexidade do real. Aqui, a mensagem é clara e cristalina: para vencer a guerra das armas, é preciso vencer a guerra das palavras – mas esta só será liquidada se o estadista conquistar a guerra contra seus próprios demônios. 

A partir daí, o Churchill de Joe Wright, Anthony McCarten e Gary Oldman está no ápice da sua forma. Ele é o “peregrino do Ser” em todo o seu esplendor; além de convencer a maioria do seu gabinete que uma negociação com a Alemanha seria o mesmo que ver “a bandeira da suástica hasteada na entrada de nossas casas e do Palácio de Buckingham” (uma imagem persuasiva digna de filme de terror). 

O resultado prático é a elaboração do clássico discurso sobre a retirada de Dunquerque dirigido ao Parlamento – um exemplo da síntese da retórica moderna e antiga, como bem analisa Ricardo Sondermann no seu recém-publicado Churchill – A Ciência Por Trás dos Discursos (LVM Editora), e que possui talvez o trecho final mais heroico que alguém já produziu em qualquer século, comparável apenas ao discurso “Band of Brothers” de Henrique V na peça homônima de William Shakespeare: 
“Não vamos faltar ou fracassar. Vamos Lutar na França, vamos lutar nos mares e oceanos, vamos lutar com poder aéreo e confiança cada vez maiores, vamos defender nossa ilha a qualquer custo, vamos lutar nas praias e nas aéreas de paraquedistas, vamos lutar nos campos e nos morros, vamos lutar nas ruas. We shall never surrender”. 
(Por coincidência, são essas mesmas frases usadas também por Christopher Nolan em Dunkirk [2017], o belíssimo filme que mostra a mesma situação histórica, agora do ponto de vista dos soldados – mas com um intento deliberadamente irônico e elegíaco). 

Mas este ainda não é o final – nem de Churchill, nem da guerra, muito menos do longa de Joe Wright. Em seu livro Cinco Dias em Londres, um relato minucioso desse período da nossa “hora mais sombria”, o historiador John Lukacs faz a óbvia pergunta: será que o primeiro-ministro foi responsável por ter salvado a Civilização Ocidental? 

Neste ponto, Lukacs deixa toda a imparcialidade historiográfica de lado e escreve apaixonadamente: “Em um momento dramático no século XX, Deus conferiu a Churchill a incumbência de ser o seu principal defensor”. 

Se a Nova Ordem de Hitler vencesse a guerra, aquilo que conhecemos como o mundo ocidental desapareceria por completo – e hoje vivemos um momento histórico em que essa mesma pseudo-ordem quer destruir o que cultivamos com tanto carinho. 

Todavia, segundo o mesmo Lukacs, tivemos cinquenta, sessenta, talvez setenta anos de trégua graças àquele senhor rechonchudo que, após proferir o discurso sobre como triunfaria diante do colapso, não pôde ouvir um rapaz que, ao não entender os aplausos alucinados da Câmara dos Comuns, fez a seguinte pergunta a Lord Fairfax (ou pelo menos assim foi na versão cinematográfica de Wright): “O que acabou de acontecer?”. E Fairfax – interpretado pelo grande Stephen Dillane, um desses atores ingleses capaz de dar vida a uma simples lista telefônica – responde com o understatement tipicamente britânico em um diagnóstico que, na verdade, foi dito anos depois pelo jornalista americano Ed Murrow: “Ele mobilizou a língua inglesa e a levou para a batalha”. 

Porque eis a vitória que interessa ao estadista que combate a guerra da destruição entre os homens: conquistar a guerra das palavras que impede a restauração do sentido nas nossas vidas. 

Martim Vasques da Cunha é autor dos livros Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP.


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