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TRANSENEM: cursinho prepara pessoas trans para enfrentarem as provas do Enem em Porto Alegre

Aulas são gratuitas com equipe voluntária de professores e profissionais de apoio para 10 estudantes inscritos no exame, na capital gaúcha.
Por Janaína Lopes, G1 RS

11/11/2017 06h01 Atualizado há 5 horas




Estudantes do Transenem de Porto Alegre se preparam para as provas do exame, em busca de quebra de preconceitos através da educação (Foto: Divulgação/Transenem)

Iniciativa independente e sem fins lucrativos, o Transenem é um cursinho gratuito que atende pessoas trans em Porto Alegre, para oferecer preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outros processos seletivos de universidades. Com o objetivo de integrar estas pessoas ao ensino superior e promover, dessa forma, a inclusão, o Transenem chegou ao seu segundo ano em 2017, com 10 estudantes.



As aulas vão até o fim de novembro, para contemplar aqueles e aquelas que vão prestar o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

GABARITO EXTRAOFICIAL E RESOLUÇÃO COMENTADA

A pedagoga Cláudia Penalvo é uma das voluntárias do projeto. "Trabalhamos para incluir as pessoas que são historicamente excluídas do projeto educativo", afirma ela. "É importante e inovador, com grandes desafios, porque são questões que se entrelaçam o tempo inteiro, sobre sexualidade e aprendizado", enaltece a pedagoga.

Ela explica que a iniciativa é inspirada nos cursos específicos para trans realizados em outras capitais, como São Paulo e Rio. No ano passado, eram três aulas por semana, frequentadas por oito estudantes. Uma delas conseguiu aprovação e hoje estuda Museologia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Já em 2017, os professores recebem 10 estudantes, e as aulas viraram diárias. Uma equipe de apoio, formada por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, ainda ajuda em questões como a obtenção da carteira de nome social. Sem nenhum custo para os alunos, o Transenem é realizado nas dependências do Instituto Federal, em Porto Alegre.


Aulas no laboratório de química do Instituto Federal fazem parte da programação do Transenem, que oferece aulas diárias e equipe de apoio (Foto: Divulgação/Transenem)

Educação para superar preconceitos

Luiza Fernandes, de 25 anos, é uma das alunas do Transenem. Natural de Alvorada, a candidata se mudou para poder fazer o cursinho em Porto Alegre. "Vi uma oportunidade de conhecimento, desconstrução e afeto, que temos hoje no projeto", afirma. Na sua visão, a chance de estudar em uma universidade é sinônimo de mudanças de paradigmas e quebra de preconceito.

"Vivemos em um país em que a expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos, onde mais se mata pessoas trans no mundo!", exclama ela. Seu objetivo é ingressar em um curso universitário de Políticas Públicas ou Serviço Social, justamente para ajudar outras pessoas trans. "Quero lutar pela nossa resistência. Acredito que seguindo um desses ramos posso atuar e buscar recursos, auxiliar projetos ou até criá-los, para ajudar as minorias", acredita.

Ela usa nome social, mas perdeu o prazo para solicitar a inclusão do nome no Enem. Isso significa que Luiza será chamada pelo antigo nome masculino, mas não se incomoda. Seu foco é se sair bem na prova.

"Se vai haver um desconforto social, não será meu e sim de quem se incomodar com minha presença. Aliás, é ótimo a população ver mais pessoas trans em locais que não estão acostumados", relata.

O preconceito que enfrenta como mulher trans afeta a sua vida, mas Luiza não quer paralisar seus planos em função disso. "Gera desconforto em estar em locais públicos, como escolas e universidades, no ônibus ou na parada. Mas eu relaxo e tento pensar que sou grata pela mulher que sou", afirma.



Luiza quer mudar de vida através do ensino superior, e para isso tentará ingressar no curso de Políticas Públicas ou de Serviço Social (Foto: Arquivo Pessoal )

Luiza é colega de Maria Regina Lacerda Barreto, de 33 anos, que quer cursar Ciências Biológicas na universidade. Ela presta o exame para finalizar o ensino médio, que interrompeu há alguns anos para trabalhar, e conquistar uma vaga na graduação. Aluna desde as primeiras aulas, em 2016, ela conta com o Transenem para se preparar para os estudos.

Com o curso superior, Maria Regina almeja uma carreira, uma profissão e um futuro. "Eu trabalhava de cabeleireira, mas me afastei por problemas médicos. Hoje fico estudando livros e polígrafos em casa". Com tanto tempo livre, ela conseguiu se preparar bastante, mas sem tirar os pés do chão. "Expectativa é sempre a melhor , mas tento não pensar tão alto para não me decepcionar, pois é um curso bem concorrido", comenta.

"Acredito que com mais visibilidade trans em espaços públicos, a discriminação e o entendimento com minorias melhorará", afirma ela. "O acesso à informação e ao estudo está na Constituição Brasileira. Uma pessoa trans na universidade mostra que todos têm a capacidade e intelecto para que não nos limitem".

Este ano é o segundo Enem de Maria Regina, mas o primeiro em que será chamada pelo seu nome de mulher. "No ano passado não tinha acesso à essa informação [do direito ao nome social]", diz ela. Para ela, isso faz toda a diferença. "Imagina uma mulher chamada Jaqueline, se as pessoas começasem chamar de 'Jair'. Como essa pessoa se sentiria?", conclui a estudante.


Maria Regina quer cursar Ciências Biológicas na universidade, e conta com o Transenem para se preparar para o exame e para o vestibular da UFRGS (Foto: Arquivo Pessoal )

Maria Regina é uma das 12 pessoas que solicitaram a utilização do nome social no Rio Grande do Sul. Segundo o Inep, instituto que organiza e aplica o exame, quatro candidatos são de Porto Alegre, três de Rio Grande, duas de Rosário do Sul, um de Charqueadas, um de Passo Fundo e um de Pelotas. O número é menos da metade dos inscritos no Enem 2016, quando 34 candidatos e candidatas utilizaram o benefício.

Estudante do Transenem hoje cursa Museologia na UFRGS

Tayze Duarte, de 24 anos, foi aprovada no vestibular da UFRGS após cursar o Transenem, no ano passado. Hoje, no segundo semestre do curso de Museologia, ela já conquistou uma bolsa de estágio, uma nova vivência e faz planos para o futuro. "Quero trabalhar com restauração", informa a universitária.

"O Transenem foi o meu maior incentivador. Lá eu tinha todo o apoio institucional e social para que pudesse tornar meu sonho realidade", diz Tayze. Ela vivia em Jaguarão, com a família, quando soube do cursinho, e se mudou para Porto Alegre, exclusivamente com o objetivo de estudar e ingressar na universidade.

Mais do que educação, o Transenem proporciona empoderamento para uma população que é perseguida por certos estigmas, segundo Tayze.

"É para as pessoas para se encontrarem e fazerem valer a sua essência, sem ficarem presas a estigmas, como a prostituição ou profissões como cabeleireira.

"É importante ocuparmos esses espaços, que às vezes não ocupamos por acharmos que não nos pertencem, mas nos pertencem sim. Todos pertencem, principalmente os públicos", avisa ela. Entre seus colegas, o fato de Tayze ser uma mulher trans não faz a menor diferença. "A resposta imediata foi positiva de todos os setores, desde os colegas até os professores", conclui Tayze.


"É importante ocuparmos esses espaços", diz Tayze, ex-aluna do Transenem e estudando do segundo semestre do curso de Museologia da UFRGS (Foto: Arquivo Pessoal )


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