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Podcast #028 – Nutri João Gabriel Abre O Jogo Sobre Refluxo, Colesterol E Dieta Low-Carb

Quando nós começamos o Senhor Tanquinho, não conhecíamos bons blogs sobre alimentação e saúde em português.

Por Isso, comemoramos cada vez que descobrimos bons recursos – como o blog do Doutor Souto, e mesmo o Emagrecer de Vez do Rodrigo Polesso.

E foi também com alegria que conhecemos o blog Ciência Da Nutrição, do Nutricionista João Gabriel.

Nele encontramos bons artigos, todos bem embasados – tanto que já queríamos trazer o João para o Podcast há um bom tempo.

(Inclusive, depois de já termos agendado esta conversa, um leitor nos sugeriu convidar o João para o Podcast. Para você ver como nossos leitores são espertos!)

E você que também é esperto(a) vai adorar a entrevista de hoje.

Porque nela, vamos falar sobre:

  • o que é a Ciência da Nutrição,
  • como o João largou a faculdade de administração e se tornou Mestre em Nutrição,
  • o que é o refluxo gastroesofágico,
  • quem tem refluxo pode fazer a dieta low-carb?
  • como a low-carb ajuda a tratar o refluxo,
  • o que é SIBO e como as bactérias do seu intestino podem te fazer passar mal,
  • por que o pão integral pode ser pior para você do que o pão branco ou comum,
  • o que é colesterol, e por que temos medo dele,
  • HDL, LDL, glicemia, triglicerídeos… com o que você precisa se preocupar?
  • a ingestão de gorduras realmente faz mal para você?
  • estatinas funcionam… mas não pelo motivo que 99% das pessoas acredita,
  • como interpretar exames de sangue,
  • por que você não deve confiar nos valores “normais” de exames de sangue,
  • cuidados com a supressão de evidências (e por que preferir meta-análises e revisões sistemáticas),
  • como ter noção do seu risco cardiovascular – uma medição simples que você pode fazer em casa e acompanhar ao longo do tempo para saber se está saudável,

e muito mais!

Ouça o podcast clicando no player abaixo:

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Lembre-se de compartilhar este episódio com alguém que você conhece e sofre com refluxo (ou que tem dúvidas sobre gorduras e colesterol).

Porque a informação deste podcast pode fazer a diferença na vida desta pessoa – e talvez até mesmo curá-la dos sintomas do refluxo para todo o sempre.

E ajudar essa pessoa a comer melhor e viver mais.

Depois, fique à vontade para deixar um comentário no blog do João – porque ele sempre lê todos, e tenta responder à maioria.

Se você gostar do podcast, deixe uma avaliação no iTunes e um comentário aqui embaixo – pois nós contamos com seu feedback para melhorar o podcast cada vez mais.

Transcrição Completa Do Episódio

Guilherme: Olá, Tanquinho! Olá, Tanquinha! Bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast.

Roney: E hoje nós trazemos para você o nutricionista João Gabriel.

O João é nutricionista, e a gente conheceu o trabalho dele pelo excelente blog Ciência da Nutrição. Nós adoramos os assuntos que ele abordou e a forma como ele escreve.

Guilherme: E aí, João, tudo bem com você?

João Gabriel: Opa! Tudo certo, sim.

Guilherme: Então por que você não se apresenta para a nossa audiência e conta um pouquinho mais de você e do seu trabalho?

João Gabriel: Então, como já foi dito, meu nome é João Gabriel.

Eu sou formado em Nutrição pela UnB, Universidade de Brasília, também tenho mestrado pela UnB, e ao longo dos últimos anos tenho trabalhado com a Nutrição.

Eu já trabalhei em várias áreas e uma delas é justamente o blog, pelo qual o pessoal me conheceu e muita gente também me conhece, e eu tenho tentado justamente – como o próprio nome do blog diz – trabalhar em cima da questão científica da Nutrição.

Porque muito do que a gente vê e ouve sobre a Nutrição tem muito do que a geralmente chama de achismo – e pouco de Ciência.

E a ideia não é usar a Ciência como forma de restringir ou controlar a alimentação das pessoas, mas sim entender o que nós estamos fazendo.

E assim encontrar formas mais inteligentes de lidar com a alimentação do dia a dia, de uma forma, na verdade, mais prática e ao mesmo tempo benéfica.

Sempre que possível, buscando reduzir possíveis problemas ou potenciais prejuízos que a informação utilizada de forma errada pode gerar para a gente.

Então é isso o que eu, basicamente, tento fazer principalmente com o blog, já que ele consegue atingir muita gente e pessoas do Brasil todo.

Guilherme: Perfeito!

Nós percebemos isso na sua escrita: o fato de que a Ciência é o enfoque para apoiar as decisões – sejam as suas ou as dos pacientes e dos leitores –  e não uma corrente para restringir as opções das pessoas.

João Gabriel: Exatamente.

Curioso que, já falando sobre isso, vou falar um pouquinho…

Recentemente fizeram um comentário no blog sobre terrorismo nutricional, que é um termo que eu ouço falar pouco recentemente.

Teve uma época que se falava bastante. E a pessoa fez um comentário perguntando o que era.

Quando é uma mensagem escrita a gente nunca tem certeza sobre qual é o tom que a pessoa usa, se ela realmente está com uma dúvida, se ela às vezes está fazendo uma pergunta como uma forma de “testar” o que eu acho, qual vai ser a minha opinião sobre o assunto…

Mas enfim, ela perguntou sobre isso – sendo que as próprias pessoas que utilizam esse termo “terrorismo nutricional” geralmente acham que as pessoas que se baseiam na Ciência para falar sobre alimentação, acabam seguindo esse caminho errado.

O caminho que usaria a Ciência para falar: “Ah, a Ciência diz que você não pode fazer isso, isso e isso. Nada disso, nada disso, nada daquilo e você só pode seguir esse caminho aqui, esse caminho restrito”.

Mas, como eu acabei de falar, é justamente o contrário.

A gente quer usar a Ciência justamente para poder ajudar a restringir o mínimo possível, mas ao mesmo tempo ter consciência do que nós estamos fazendo na prática.

Roney: Uma outra pergunta que nós gostaríamos de fazer antes de nós entrarmos naqueles assuntos de hoje é a seguinte: como você começou a se interessar por Nutrição? Por que você escolheu isso como carreira?

João Gabriel: Essa é uma pergunta curiosa porque quando eu mesmo paro para pensar, eu não tenho certeza se eu sei a resposta.

Foi algo que foi meio que surgindo naturalmente.

No ensino médio, eu lembro de ter tido um pouco de influência do meu irmão e do meu primo, que são um pouco mais velhos que eu, e eles estavam começando a malhar e tudo mais.

Eles começaram a prestar um pouco mais de atenção na alimentação e eu lembro disso ter me influenciado um pouco.

Mas, ao mesmo tempo, eu também consigo lembrar que um pouco antes disso teve um despertar de interesse que eu não lembro exatamente de onde foi, mas eu já estava começando a me interessar pela alimentação.

Então eu não vou saber dizer exatamente como foi, mas foi mais ou menos por aí.

E aí com o tempo eu também comecei a malhar um pouco e prestar atenção na minha alimentação e tudo mais.

E foi natural, fui cada vez gostando mais, e via como a alimentação influenciava, como ela está tão presente nas nossas vidas – afinal de contas a gente come o tempo todo, é uma das coisas que nós mais fazemos ao longo do dia.

E aí eu fui gostando, gostando… mas nesse ponto tem um aspecto curioso que é: assim que eu me formei no ensino médio eu passei na UnB para Administração. Fiz o PAS (uma forma de ingresso na UnB) e escolhi Administração.

Na época eu pensava que eu deveria escolher uma carreira, digamos, mais segura e que teria mais um curso que me daria mais oportunidades, ? Aí eu fui pela Administração, que muita gente diz que é o curso de quem não sabe o que quer fazer da vida.

Só que logo depois do primeiro semestre eu já sabia que não era o que eu queria.

Aí eu já pensei em mudar, continuei mais um semestre em Administração, pensando: “Não, vamos ver o que vai dar aqui”, mas realmente não era o que eu queria e, assim, eu já sabia, com certeza, que seria Nutrição e aí logo depois eu mudei de curso e dei seguimento.

Guilherme: Ah, muito legal.

Realmente a gente é forçado a escolher bem cedo a carreira.

João Gabriel: Pois é, exatamente.

Guilherme: E nem sempre acerta de primeira.

João Gabriel: Acho que, se brincar, a maioria das pessoas erra, na verdade.

Guilherme: É, acredito que sim.

E uma curiosidade só, última, antes de nós começarmos as perguntas, é que depois da gente já ter convidado você para o podcast, já ter marcado essa conversa, nós recebemos um e-mail de um leitor sugerindo entrevistar você, falando: “Entrevista o João Gabriel porque eu gosto muito do blog dele” e eu falei: “Legal”.

João Gabriel: Legal!

Guilherme: Então vamos começar com as perguntas que nós separamos.

E a primeira diz respeito ao refluxo, refluxo estomacal, gastresofágico, enfim, e a dieta low-carb.

E a pergunta que a gente mais recebe a esse respeito é a seguinte.

Quem tem refluxo pode fazer uma dieta baixa em carboidratos?”

João Gabriel: Não só pode, como, a princípio, a gente pode dizer que deve.

Essa é uma área, assim como algumas outras, que poderia ser facilmente estudada pela Nutrição e não é. Talvez porque pareça algo muito simples e que não incomoda e que não é sério e aí talvez não receba atenção por causa disso.

Mas os poucos estudos que nós temos nessa área mostram que uma dieta low-carb geralmente alivia ou até leva a remissão dos sintomas em quase todos os pacientes.

Eu acho que dos poucos estudos que nós temos, em todos eles, mais da metade, todos os pacientes que seguiam uma dieta low-carb melhoraram. Melhoraram 100% e aí reduziram totalmente o uso de medicamentos e 0% de sintomas, pelo menos isso enquanto duraram os estudos.

O único problema dos estudos dessa área é que, apesar de serem em seres humanos, eles são o que nós chamamos de ensaio clínico não randomizado, sem grupo-controle.

Então o que acontece?

Em vez de você ter um grupo de pessoas divididos em dois, sendo que metade das pessoas segue o que elas sempre fizeram e metade muda a alimentação, segue uma dieta low-carb e vê como a dieta low-carb se compara à alimentação normal do outro grupo.

A gente geralmente tem todo mundo que tinha uma dieta habitual comum e passa a seguir uma dieta low-carb e no final nós vemos o que aconteceu.

Quando nós não temos um grupo-controle, nós não temos certeza se foi um efeito simplesmente, por exemplo, do tempo – se ao longo das semanas os pacientes melhoraram, na média – ou se realmente foi um efeito da dieta, da intervenção.

Então a gente fica um pouco em dúvida se realmente foi efeito da dieta low-carb ou não.

Mas como os resultados são tão consistentes, a gente imagina que realmente é.

Além disso, nós temos estudos que não se preocupam primariamente, diretamente, com o refluxo – estudos com dieta low-carb, com grupo-controle – e que, por acaso, os pesquisadores falaram: “Ah, vamos medir aqui também o refluxo, como é que esses pacientes vão melhorar ou não em relação ao refluxo”.

E a gente tem estudos com grupo-controle, que o refluxo é uma variável secundária, em que os pacientes também melhoram.

Então nós vamos juntando as peças e vendo que realmente parece que a dieta low-carb melhora sintomas – não só sintomas – como também o uso de medicamentos para refluxo, que muita gente utiliza.

E outro detalhe importante sobre a Ciência nessa área é que nós temos estudos com grupo-controle de dietas low-fat, baixa em gordura para perda de peso, mostrando que essas dietas geralmente não melhoram os sintomas de refluxo, mesmo quando existe a perda de peso.

Porque a perda de peso acaba sendo um possível fator de confundimento; justamente porque quando você faz uma dieta low-carb você vai e perde peso, emagrece, e aí poderia ser um efeito da perda de peso e não necessariamente da dieta low-carb.

Como eu falei, se não tem grupo-controle e todo mundo fez a dieta e todo mundo perdeu, como é que a gente sabe se foi o tempo, se foi a perda de peso ou se foi a dieta em si que levou a esse efeito?

Então quando nós comparamos com os estudos de dietas restritas em gorduras, com grupo-controle, que geralmente não mostram melhoras nos sintomas de refluxos, nós temos mais um tipo de evidência apontando para o fato de que os estudos com low-carb que mostram a melhora dos sintomas, têm grandes chances de ser, pelo menos parcialmente, um efeito da alimentação, dessa restrição de carboidratos.

Então juntando essas peças todas, mesmo não tendo um número tão grande de estudos, a gente vai vendo aos poucos que, no mínimo, vale a pena tentar.

Porque o que mais a gente vê com os pacientes no atendimento clínico nesse tipo de caso, é que eles tentam vários tipos de restrição, porque normalmente o que se fala sobre refluxo é: “Ah, não pode comer chocolate, não pode comer muita gordura, não pode tomar café, não pode…”

Guilherme: Nem bebidas alcóolicas.

João Gabriel: É, geralmente são alimentos específicos, não pode bebida alcóolica… Eles tentam várias coisas e geralmente não funciona bem nenhuma dessas restrições.

Então se a gente junta esse conhecimento popular – que poderia estar certo –  de forma alguma eu sou contra o conhecimento popular, desde que ele seja realmente consistente e desde que, de preferência, a gente tenha evidências também que deem suporte a isso.

Mas se nós esquecemos um pouco isso e olhamos para a Ciência, o que ela tem mostrado, e tentamos aplicar isso – mesmo que não esteja correto, porque às vezes a Ciência pode apontar para um lado e nós testamos na prática e não é verdade -, mas se nós temos algo para direcionar, nós podemos usar.

Pelo menos, pensarmos em usar isso, que é justamente o caso da dieta low-carb em casos de refluxo.

Guilherme: Perfeito!

Nossa, foi uma explicação bem abrangente e incluiu vários pontos que nós queríamos, inclusive, perguntar.

Inclusive perguntar sobre esse fator da perda de peso ser uma variável de confusão.

Nesse sentido, a gente às vezes têm esses estudos mesmo, os ensaios clínicos não randomizados, no caso, mas que mostram por vezes todo mundo melhorando os sintomas.

Sendo que uma pergunta que nós recebemos quando, por exemplo, nós apontamos esses estudos para as pessoas é: “Qual seria o mecanismo pelo qual uma dieta com restrição de carboidratos poderia ajudar o refluxo?”.

Você tem alguma colocação sobre isso?

João Gabriel: Eu estava pensando justamente nisso agora.

Quando a gente fala: “Ah, funciona” ou “Não funciona”, aí muita gente já chega e pergunta: “Por quê?”.

Eu sempre gosto de dizer que entender o porquê é interessante e às vezes é importante, mas o mais importante de tudo sempre é o efeito.

Se nós sabemos que uma dieta low-carb, digamos que ela realmente funcione em casos de refluxos – e é o que tudo tem indicado, pelo menos na maioria das pessoas – o mais importante é saber isso: funciona, vamos usar.

Se a gente precisar entender o porquê, por exemplo, para juntar essa área com outra área e as duas coisas juntas ajudarem em outro tipo de tratamento, por exemplo, beleza.

Mas já entendendo o simples fato de que funciona, geralmente é suficiente.

Mas então falando sobre o porquê, como seria o mecanismo… ele é uma área pouco estudada na relação com a alimentação.

Porque o refluxo em si é bastante estudado, pelo menos era, há um certo tempo, até surgirem os principais medicamentos que eliminam os sintomas, mas não eliminam a causa do problema. São os inibidores da bomba de prótons, que são os antiácidos.

É uma área bem estudada, mas não na alimentação.

Então na alimentação nós ainda precisaríamos de muitos e muitos anos para realmente entendermos o que acontece a partir de uma alimentação low-carb que realmente faria diminuir os sintomas.

Mas as evidências preliminares que nós temos é que teria muito a ver, quer dizer, pode ter muito a ver com a microbiota intestinal, mais especificamente a microbiota do intestino delgado.

Porque quando nós falamos de microbiota intestinal – a gente usa esse termo mais genérico – mas normalmente nós estamos nos referindo à microbiota do intestino grosso.

Mas todo o trato gastrointestinal tem microorganismos, desde a boca, até o estômago, o intestino delgado, o intestino grosso e o reto; mas a parte mais concentrada, provavelmente, é mesmo o intestino grosso.

Enquanto o estômago provavelmente é o menos justamente pela produção de ácidos, que faz com que exista um controle maior dessas bactérias e outros microorganismos que habitam o nosso trato gastrointestinal.

E aí o que estaria acontecendo é um descontrole, um desequilíbrio das bactérias e micro-organismos no começo do intestino delgado. E quando eu falo desequilíbrio, eu não estou apontando para nenhuma direção.

Não é: “Ah, tem mais daquilo, ou menos disso”. No geral seria um aumento no número de bactérias, mas a gente não sabe como esse aumento acontece e quais tipos de bactérias realmente poderiam estar aumentados ou não, para causar o problema.

Mas o que estaria acontecendo? O aumento geral das bactérias numa área que não deveria ter tantas bactérias assim e a esse processo nós damos o nome de SIBO – que em inglês significa Supercrescimento de Bactérias do Intestino Delgado – e esse supercrescimento, pelo número maior de bactérias, faria com que a produção de gases nessa região do intestino fosse maior; justamente porque um dos subprodutos do metabolismo das bactérias são os gases.

Eles consomem substratos energéticos para elas, para o seu crescimento e desenvolvimento, e liberam gases de tipos variados.

E como existiria uma maior concentração de bactérias, aconteceria uma maior produção de gases e esses gases fariam com que houvesse um aumento na pressão intra-abdominal e essa pressão faria com que o esfíncter, que divide o estômago do intestino, sofresse por causa dessa pressão.

E o esfíncter se abriria em momentos em que não deveria se abrir e aí parte do conteúdo do intestino faria justamente esse movimento contrário, faria esse movimento de refluxo do intestino para o estômago e do estômago para o esôfago.

Guilherme: Entendi.

Realmente acho perfeita a sua colocação, tanto começando com o fato de que, afinal a pessoa não quer ter refluxo, não importa muito o porquê, se a gente tem um jeito de evitar, atenuar, ou mesmo reverter os sintomas disso.

Mas essa explicação mecanística também é interessante até porque nós sabemos, exatamente igual você falou, que muita gente não gosta de ver a entrada e a saída, aceitando uma caixinha preta no meio. E

les gostam de saber o porquê: “Por que isso acontece?” então ficou bem completo nesse sentido do refluxo e da dieta low-carb.

João Gabriel: Deixa só eu complementar porque agora que eu estou pensando, algumas pessoas podem estar ouvindo e não entender a relação direta do carboidrato com as bactérias.

Guilherme: Ah sim, por favor.

João Gabriel: Então a ideia seria a seguinte: o principal substrato energético das bactérias são os carboidratos.

Elas geralmente usam os carboidratos que nós chamamos de fermentáveis. Em alguns casos podem ser bactérias que, por exemplo, usam sacarose para a fermentação; algumas bactérias usam fibras, os diversos tipos de fibras.

Então quando nós fazemos uma restrição de carboidrato, nós restringimos geralmente todos os tipos de carboidratos – os fermentáveis e os não fermentáveis – então a parte importante acaba sendo principalmente a restrição dos carboidratos fermentáveis, que podem ser complexos ou simples, mas eles vão estar, de qualquer forma, restritos.

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E, com essa menor disponibilidade de carboidratos, nós diminuímos a disponibilidade de substrato para essas bactérias – e aí existiria uma tendência de caminhar de novo para o equilíbrio, que deveria existir antes do problema do refluxo estar acontecendo.

Então seria uma morte desse excesso de bactérias.

Então a SIBO, que eu falei antes, o supercrescimento bacteriano no intestino delgado diminuiria por falta de substrato para essas bactérias, consequentemente a produção de gases também diminuiria e isso faria com que a pressão intra-abdominal também diminuiria e aí reduz essa pressão nos esfíncteres, diminuindo também a volta do conteúdo do intestino, do estômago para o esôfago e aí nós temos a diminuição dos sintomas do refluxo.

Guilherme: E uma dúvida, então, que surge com essa explicação; será que uma restrição maior, por exemplo, uma restrição intencional de carboidratos fermentáveis, mas não tanto de outros também já teria um efeito positivo?

Por exemplo, restringindo alguns tipos de fibra, alguns frutanos, açúcares simples, enfim, FODMAPS no geral, já poderia ter um alívio dos sintomas, mesmo que a dieta não se tornasse necessariamente low-carb?

Embora seja menor do que, claro, uma dieta ocidental padrão, eu acredito, mas não seria necessariamente uma dieta baixa em carboidratos.

João Gabriel: Sim. Eu não digo “com certeza” porque cientificamente isso ainda não foi testado. Não que eu saiba. Mas é bem provável.

Essa hipótese, se estiver correta é, que nem eu falei e que nem você também colocou, o fato de haver carboidratos, em geral, não é o problema. O problema são os carboidratos fermentáveis.

É claro que é difícil você separar carboidratos fermentáveis de não fermentáveis porque geralmente eles estão juntos, dentro dos alimentos. Até mesmo farinhas e alimentos ricos em carboidratos que são feitos à base de carboidratos refinados, que perderam, por exemplo, boa parte das fibras, ainda vão conter na composição alguns carboidratos fermentáveis. Por exemplo, uma farinha de trigo refinada ainda tem carboidratos fermentáveis ali, mas tem bem menos do que a farinha de trigo integral.

Então se nós fôssemos fazer para um paciente, com refluxo, uma dieta à base de pão branco e para outro uma dieta à base de pão integral, é bem possível que o paciente com a dieta de pão branco apresentasse uma redução dos sintomas enquanto o de pão integral, não. Justamente porque com o pão integral você vai ter bem mais carboidratos fermentáveis do que com a dieta do pão branco.

Guilherme: Mas é claro que isso não implica (só para reforçar), que se você tem refluxo você tem que comer pão branco, ?

João Gabriel: Exatamente. [risos]

Roney: É só um comparativo entre pão branco e pão integral.

João Gabriel: Exatamente.

É só para dar uma ideia geral de que os carboidratos refinados poderiam fazer parte de uma dieta para refluxo, pensando apenas no mecanismo.

Mas é claro que existem formas bem mais interessantes, saudáveis e equilibradas…

Guilherme: E nutritivas.

João Gabriel: … do que consumindo pão branco.

Guilherme: Com certeza.

João Gabriel: Até porque, tocando na questão do pão, talvez manter o pão na dieta, no caso de refluxo, também não seja uma ideia boa por si só porque o glúten poderia ter influência nessa questão toda.

Então é um assunto um pouco mais complexo e aí dependeria de outras questões do contexto de cada indivíduo para saber se poderia ou não ter influência. Mas o glúten poderia influenciar também.

Roney: Legal que já mostrou que não necessariamente o pão integral também é mais saudável do que o pão branco.

Com isso a gente pode mudar aqui para o nosso próximo assunto, que é com relação a outro mito, que é do colesterol.

Nós temos como pergunta inicial para abrir o assunto: O que é o colesterol e por que a gente tende a ter medo dele? Por que é passado esse medo do colesterol para as pessoas?

Guilherme: E, para dar um pouco de contexto – quando nós mencionamos às vezes uma ingestão de gorduras naturais, seja das gorduras que todo mundo já sabe que são saudáveis, por exemplo, as monoinsaturadas, o pessoal associa alimentos como abacate, azeite, são saudáveis; enquanto outros que estão associados a gorduras saturadas, eles geram um temor maior nas pessoas e elas pensam: “Mas e o colesterol? Isso “dá” colesterol?”. [risos]

As pessoas têm esse medo já e é daí que motiva a nossa pergunta.

João Gabriel: É.

Esse é um assunto bem longo. Eu, provavelmente, vou acabar esquecendo algumas coisas que podem ser interessantes ou até relevantes nessa história, mas eu vou tentar fazer um resumo aqui.

O colesterol é o que nós classificamos como um lipídio e os lipídios são uma classe bem grande de compostos.

Dentro dos lipídios a gente tem, os principais exemplos, são o colesterol e as gorduras.

Então, na alimentação nós temos o colesterol presente apenas nos alimentos de origem animal.

Então ele vai estar sempre associado à gordura animal. E associado à gordura justamente por causa da questão da solubilidade.

Os lipídios não são solúveis em água. Basicamente em qualquer parte que eles estão do corpo, eles vão estar associados a outros lipídios ou a outras substâncias que também não têm boa solubilidade em água, então geralmente eles vão estar associados às gorduras.

Uma das distinções mais importantes a fazer é entre colesterol e lipoproteínas porque geralmente se fala “colesterol” para tudo, então…

A gente tem o colesterol, que é carregado por lipoproteínas. E o que são lipoproteínas? São as famosas LDL e HDL, principalmente. São as duas mais importantes.

E eu falo no feminino justamente porque são lipoproteínas, enquanto colesterol, nós temos ele no masculino.

E isso é importante de ficar claro porque geralmente a pessoa vai fazer um exame de sangue e ela fala: “O meu LDL deu tanto. O meu HDL deu tanto”. Ela está falando no masculino e não no feminino.

Mas não está errado. Eu vou explicar já, já o porquê, nesse caso, falar no masculino não está errado, apesar de LDL ser feminina porque é uma lipoproteína e HDL também ser uma lipoproteína.

Então deveria ser feminino – mas nesse caso, falar no masculino não está errado – mas já, já, eu chego aí.

Nós temos o colesterol, nós consumimos esse colesterol pela alimentação ou nós podemos produzir ele no corpo.

Inclusive a maior parte é produzida pelo próprio fígado e reaproveitada diversas vezes porque ele circula, vai e volta, vai e volta.

Mas a gente consome esse colesterol pela alimentação, ele chega no intestino, é absorvido, e no corpo – primeiro no sistema linfático e depois na circulação sanguínea – o colesterol é transportado pelas lipoproteínas.

Então nós temos uma primeira lipoproteína, que sai do intestino e vai até o fígado, que se chama quilomicron ou quilomícrom.

Eles transportam o colesterol e todos os outros compostos lipossolúveis – que não são hidrossolúveis – nessa primeira passagem, do intestino para o fígado.

Chegando no fígado, o colesterol pode ficar no fígado mesmo, para ser utilizado para alguma função, por exemplo, produção de algum hormônio; ou pode ser distribuído para o corpo.

Se ele for distribuído pelo corpo, ele vai ser empacotado em outra lipoproteína, que nós chamamos de VLDL – tipo uma LDL, só que ela tem uma densidade mais baixa.

Então ela é maior e ela está cheia de colesterol ali. Cheia de colesterol e, mais do que colesterol, ela carrega muitas moléculas de Triglicerídeos.

Então quando a gente mede Triglicerídeos no sangue, por exemplo, a gente, na verdade, está pegando essas partículas de VLDL e medindo o Triglicerídeo contido ali dentro – porque o Triglicerídeo não viaja sozinho na corrente sanguínea.

Ele viaja sempre empacotado em lipoproteínas também, assim como o colesterol.

E aí essa VLDL sai do fígado e vai distribuindo o seu conteúdo ao longo do corpo, principalmente gorduras, ou seja, ácidos graxos – que são o composto básico dos Triglicerídeos. Cada Triglicerídeo é composto por uma molécula de Glicerol e três Ácidos Graxos.

Então a VLDL que carrega os Triglicerídeos vai passando pelo corpo e deixando Ácidos Graxos ao longo do seu caminho. Com isso, ela perde gordura e fica rica em colesterol e é justamente essa transmutação, digamos assim, essa perda de gordura e aumento na riqueza de colesterol que transforma a VLDL em LDL. Nós temos essa mudança aí.

E aí, assim como eu acabei de dizer que nós medimos os Triglicerídeos no sangue, nós pegamos essa partícula de VLDL – e várias partículas – e vemos quanto tem de Triglicerídeos em cada uma delas; a medida do colesterol no sangue é a mesma coisa. Nós pegamos as partículas agora de LDL e medimos o quanto tem de colesterol dentro dessas partículas de LDL.

Por isso que lá no exame de sangue vai estar escrito LDL-C ou LDL-colesterol. É o colesterol contido dentro das partículas de LDL. Por isso que eu tinha falado antes que falar “meu LDL”, nesse caso, está certo porque apesar de as pessoas usarem só LDL e não LDL-colesterol, o que está sendo medido ali é o colesterol LDL. O colesterol dentro das partículas. Então falar no masculino não tem problema. Mas nós estamos falando do colesterol e não da partícula.

E a mesma coisa vale para o HDL.

O HDL é produzido e liberado pelo fígado, e percorre a corrente sanguínea.

E ele tem várias funções. Uma delas é pegar o colesterol que não está sendo utilizado e levá-lo de volta para o fígado.

Então quando nós temos o HDL no sangue, medido no exame de sangue, é a mesma coisa. Nós pegamos as partículas de HDL que estão ali e medimos o quanto de colesterol tem dentro delas.

E por que eu estou dizendo tudo isso? Porque a quantidade de colesterol que nós temos no sangue, que nós obtemos fazendo um exame de sangue, varia muito.

E ela não varia só de acordo com o que nós comemos, de acordo com o estado metabólico da pessoa.

Ela varia de acordo também com o tamanho e a quantidade de partículas que nós temos de LDL e HDL.

E eu toco nesse assunto justamente porque mais para frente eu vou falar um pouco sobre a questão do risco cardiovascular e de como isso se relaciona com o número e tamanho de partículas de LDL e HDL, que é algo que nós geralmente não medimos, que a maioria dos profissionais não pede nos exames de sangue.

E eu vou tentar explicar por que isso é relevante e o que as pessoas geralmente falam de certo e de errado sobre essas questões – porque tem muita coisa errada sendo falada também.

Guilherme: Então você explicou o que são as lipoproteínas LDL e HDL e acho que isso é uma ótima transição para a parte do risco cardiovascular.

E explicar por que temos contagem de partículas, tamanhos e tipos de partículas dessas lipoproteínas – e como essas diferenças influenciam o risco cardiovascular da pessoa.

João Gabriel: Antes um pouco de chegar nisso, eu vou, na verdade, complementar o que eu falei antes porque eu acabei falando muito em detalhes e acabei esquecendo alguns pontos que vocês tinham perguntado.

Inclusive a questão de por que as pessoas têm tanto medo e aí a gente volta para quando, algumas décadas atrás, isso começou a ser estudado.

Então a gente teve, mais ou menos na década de 50, vários experimentos em animais, mostrando que a ingestão de colesterol fazia com que esses animais desenvolvessem placas de gorduras nas artérias.

Isso foi feito com vários animais e alguns deles mostravam respostas enquanto outros não, principalmente os animais que tinham hábitos mais vegetarianos ou consumiam basicamente vegetais na alimentação. Eles geralmente tinham essa resposta mais exacerbada, enquanto os carnívoros geralmente tinham pouco ou nenhuma resposta em relação ao colesterol.

Mas começou a ser criada essa ideia de que o colesterol era responsável pelas placas de gordura nas artérias porque já se sabia que isso acontecia com os seres humanos. Não se sabia como.

Porque muitas pessoas morriam, eram feitas necropsias e observava-se que tinham placas de gordura nas artérias, principalmente próximas do coração das pessoas e queria-se entender por quê.

Começou com esses experimentos com os animais e pouco tempo depois o Ancel Keys, que muitos dos ouvintes já podem ter ouvido falar ou lido sobre; começou a fazer experimentos com seres humanos com a ingestão de gorduras, não só de colesterol. De colesterol também.

(O Danilo Balu conta em detalhes essa história em seu livro – e faz um resumo na entrevista que gravamos no Podcast.)

Ele primeiro observou que a ingestão de colesterol geralmente levava a um aumento no colesterol, apesar desse aumento ser pequeno – e ele começou a testar o aumento de gordura. O aumento na ingestão de gordura.

Então, nessa época, ainda não se media o colesterol LDL, colesterol HDL. Só se media o colesterol total.

E de, qualquer forma, os vários tipos de gorduras foram testados, inclusive subtipos de gordura saturada e, de maneira geral, os resultados eram bem consistentes em mostrar que, quando se ingeria mais gordura total, mas principalmente mais gordura saturada, o colesterol ia também aumentando. O colesterol no sangue.

E é importante mencionar que isso eram estudos controlados, então até hoje nós podemos afirmar isso: o aumento no consumo de gorduras, principalmente de gorduras saturadas, na média, leva ao aumento no colesterol.

E aí, diferentes tipos de gordura saturada vão levar a um maior aumento no LDL, maior aumento no colesterol HDL, mas isso realmente acontece.

Muita gente que consumir mais gordura saturada vai ter um aumento no colesterol, mesmo que esse aumento seja transitório, mas daqui a pouco a gente volta nesse ponto.

E aí, ao longo das décadas de 50, 60 e 70, vários estudos observacionais foram feitos. Tiveram dois mais clássicos, do próprio Ancel Keys, o estudo dos Seis Países – que alguns dizem que deveria ser de 22 países, e que ele deveria incluído os 22 na análise e aí justamente por isso muita gente critica – mas os resultados seriam basicamente os mesmos.

Quem critica esse estudo por esse detalhe dos 22 contra os seis países está tentando justificar o que não precisa nem ser justificado, na verdade.

Mas esse estudo e o Seven Countries, que é da década de 70 até década de 90 – foram muitos e muitos anos de pesquisa e análise – foram sedimentando essa ideia de maneira não só consistente, mas global, que o consumo de gordura, principalmente de gordura saturada, estava associado a um maior risco cardiovascular.

Mesmo que não fossem todos os estudos individualmente, todas as análises mostrando a mesma coisa, a tendência estava lá.

Nessa mesma época também, é curioso que também foram feitos um número bem razoável de ensaios clínicos, investigando como as gorduras da dieta influenciam o risco cardiovascular diretamente e a gente não está falando mais de estudos observacionais.

A gente está falando de estudo de intervenção. Mas também daqui a pouco eu chego nesse ponto.

E aí a ideia, ao longo das décadas, foi sendo sedimentada de que realmente a gordura, por aumentar o colesterol no sangue, era um problema.

E aí na década de 80, se eu não me engano em 1984, foi publicado um estudo bem importante que testava uma droga chamada Colestiramina, que é um sequestrador ou sequestrante de Ácidos Biliares.

Os ácidos biliares são compostos que auxiliam na diminuição de gorduras e eles são feitos à base de colesterol.

Então nós temos o colesterol no fígado, utilizado como base para fazer esses Ácidos Biliares, que são secretados durante a digestão. Eles são estimulados principalmente pelo consumo de gorduras quando chegam no intestino. E aí o que acontece?

Esse medicamento, como diz o nome, sequestra esses Ácidos Biliares, se ligam a esses Ácidos Biliares, não permitem a reabsorção deles, são excretados e como eles não são reabsorvidos, o corpo é obrigado a fazer mais.

E ele usa o que para fazer isso? colesterol. Então o colesterol do corpo como um todo vai sendo reduzido, inclusive o colesterol sanguíneo porque o fígado tem que pegar de algum lugar, do sangue, no caso, para fazer mais Ácidos Biliares.

Então esse medicamento leva à redução do colesterol sanguíneo, e colesterol corporal como um todo, e nesse estudo de 1984 eles viram que as pessoas que utilizaram esse medicamento, em relação àquelas que usaram placebo, tiveram uma redução significativa do risco cardiovascular.

E aí esse foi o estudo que provavelmente definiu essa história como verdade, que o colesterol e as gorduras estão diretamente relacionados – não somente relacionados, mas causam – as doenças cardiovasculares.

Inclusive esse é o estudo que foi o foco daquela matéria de capa, que todo mundo conhece, com o ovo e a cara do bacon para baixo, fazendo o bacon com a carinha triste.

Guilherme: Da revista Time, ?

João Gabriel: É, exatamente.

Só que o grande problema é que o estudo nem era sobre alimentação, ? Ele era sobre um medicamento e a capa mostra dois alimentos lá, ? Um rico em gordura e um rico em colesterol.

Mas foi aí que provavelmente foi a cartada final nessa história e depois disso pouco se discutiu sobre a importância ou não de se explorar mais essa área. Já estava definido como o colesterol o grande problema.

E já nesse ponto vale mencionar que, lá atrás, com o próprio Ancel Keys já sabia – esse estudo de 84 não é dele, é outro estudo independente – mas lá atrás ele mesmo já tinha demonstrado que a ingestão de colesterol, mesmo afetando um pouco os níveis de colesterol sanguíneo, o aumento era pequeno – quando acontecia.

Então mesmo que esse medicamento reduzisse o colesterol sanguíneo e reduzisse o risco cardiovascular, ainda não teria como dizer que era o colesterol da dieta o problema.

Porque ele, a princípio, não seria o responsável por aumentar o colesterol. Teria que se descobrir o que está aumentando o colesterol sanguíneo das pessoas.

E aí a discussão foi se fechando. Entre a década de 70 e 90, principalmente 80 e 90, foi quando os países começaram a discutir melhor Diretrizes Nutricionais para as suas populações e os Estados Unidos como sempre tiveram à frente nas áreas de pesquisa, eles acabaram sendo o modelo a ser seguido.

E aí foi seguindo essa área junto com as questões de Pirâmide Alimentar, que a gente poderia discutir também.

E aí, como virou uma “verdade”, todo mundo começou a falar de maneira unânime sobre isso e as recomendações desde então foram as seguintes.

“Evite gorduras, principalmente gordura saturada nos alimentos de origem animal, porque essas gorduras vão fazer aumentar o seu colesterol e o colesterol aumentado é uma causa de doença cardiovascular. A principal causa, provavelmente”, na cabeça de quase todo mundo.

E aí é por aí.

Essa é a história, história bem resumida, para falar a verdade, de como todo esse mito sobre o colesterol foi criado.

E aí se vocês quiserem a gente pode entrar em questões específicas. Eu posso tentar explicar por que e onde está o problema nessa visão.

Roney: Ah, acho que sim. Acho que é uma boa explicar por que na verdade não é necessário todo esse medo do colesterol também e quais seriam outros fatores mais indicadores de risco cardiovascular.

João Gabriel: Eu acho que a coisa mais importante de se ter em mente é que o colesterol aumentado é, sim, um fator de risco importante; principalmente se for o colesterol LDL.

Então uma pessoa comum vai fazer o seu exame de sangue e observa que o seu colesterol LDL está aumentado.

Isso, por si só, pode não dizer nada, mas geralmente vai dizer alguma coisa porque como…  eu ainda não escrevi textos muito específicos sobre isso porque é uma história muito complicada, cheia de muitos detalhes, e eu teria que ter um tempo livre grande para conseguir me dedicar a escrever tudo isso certinho, bonitinho. Mas eu já escrevi isso em vários comentários, em várias respostas.

Quase toda semana chega uma dúvida sobre isso e eu sempre falo: o colesterol aumentado é um indicativo importante, é interessante. Mas o importante não é ver, não é saber simplesmente se ele está aumentado ou não. É entender o porquê, como isso aconteceu.

Então, aí voltando no que eu já tinha falado, o próprio Ancel Keys viu, e a gente tem vários estudos mostrando isso, até alguns mais recentes, que um maior consumo de gordura saturada leva, sim, a um aumento no colesterol.

Mas isso não quer dizer um risco cardiovascular aumentado, mesmo com o que eu acabei de falar, que o colesterol aumentado geralmente é um fator de risco.

Por que? Porque o mecanismo pelo qual a gordura saturada leva ao aumento de colesterol é diferente do mecanismo que leva a um aumento de colesterol que uma pessoa com sobrepeso tem. Então a grande questão é como esse colesterol se tornou aumentado.

Em 90% ou mais dos casos as pessoas apresentam um aumento de colesterol por causa de uma desregulação metabólica, geralmente acontece com o aumento de peso, o acúmulo de gordura corporal.

E esse acúmulo de gordura corporal, esse aumento de peso, leva a um quadro de resistência à insulina que, por sua vez, vai evoluindo, a pessoa chega no sobrepeso, muitas vezes na obesidade, desenvolve Síndrome Metabólica e depois da Síndrome Metabólica, o Diabetes tipo 2.

É uma sequência de eventos que, desde o começo do aumento de peso, você já vai começar a observar um aumento no colesterol sanguíneo e também outros marcadores: a Glicemia vai subir, os Triglicerídeos vão subir, o colesterol HDL vai cair…

Guilherme: Então, assim, só para fazer um pequeno resumo disso que você falou agora, sem querer colocar o carro na frente dos bois nem nada – que eu sei que você ainda tem bastante coisa para falar sobre o assunto – mas o fator de risco mais importante do que uma medida isolada é a saúde metabólica do indivíduo como um todo.

João Gabriel: Exatamente. Com certeza. E as duas coisas estão juntas.

O problema de falar só saúde metabólica e de não usar nenhum marcador é porque às vezes a pessoa vai ficar perdida se ela não olhar nenhum marcador.

É verdade por um lado, mas não tanto por outro porque, geralmente, visualmente você consegue olhar para uma pessoa e você consegue saber se ela está bem metabolicamente ou não. Mesmo sem você conhecer a pessoa, mesmo sem você saber dos exames dessa pessoa porque ela vai estar, ou evidentemente com sobrepeso, ou ela vai estar, pelo menos, com um aumento na circunferência da cintura.

E esse aumento na circunferência da cintura nem precisa ser muito grande porque nós temos vários e vários exemplos de pessoas que, aparentemente, são magras, mas que você vê que para aquela pessoa, ela já está com uma cintura, uma circunferência abdominal aumentada. E ali já é um indicativo claro de que ela provavelmente está com a saúde metabólica, pelo menos, um pouco prejudicada.

Guilherme: Para clarificar: você está dizendo uma avaliação simplesmente visual da pessoa, em que você percebe o padrão de deposição de gordura dela na região abdominal.

João Gabriel: Exatamente.

E se a pessoa tiver o excesso de peso, sobrepeso ou obesidade evidente, aí não tem nem muito o que dizer. Se você pegar os exames dela ou dessa pessoa que tem só o aumento na circunferência abdominal, você vai conseguir confirmar que ela está com a saúde metabólica prejudicada.

Porque os exames que eu falei – Glicemia, Triglicerídeos, colesterol LDL e HDL – todos esses são marcadores e eles vão indicar como está a saúde metabólica da pessoa.

Em alguns casos eles até podem representar, atuarem como fatores causais de problemas, secundários, mas até podem.

Só que a grande questão que eles representam é como marcadores, como indicadores de que existe um problema por trás de tudo isso.

E o corpo é basicamente, quando nós falamos desses assuntos, como se fosse uma balança energética.

Quando ele percebe que está entrando e está acumulando mais energia do que ele precisa, ele dá vários indicativos de que isso está errado, que ele não precisa daquilo.

Começa tudo, obviamente, com o acúmulo de gordura, por isso que foi o primeiro ponto que eu toquei e aí depois, como é algo sistêmico, como o corpo está todo integrado, ele começa a mostrar que a um desbalanço em várias frentes. E esses marcadores – colesterol, Triglicerídeos, Glicemia – são justamente isso.

É mais uma forma do corpo mostrar para a gente ou de ele mostrar para ele mesmo também (porque tudo isso ele consegue regular, de certa forma); dele mostrar que o equilíbrio energético do organismo está errado.

A própria Resistência à Insulina, só para dar um exemplo mais claro.

O corpo entra num estado de Resistência à Insulina, ou seja, grande parte das células “rejeita” a Glicose porque já tem muita energia dentro das células, então ele não quer mais energia e uma das formas que ele tem de evitar o excesso, que já está começando a acontecer, de energia dentro das células, é justamente diminuindo a captação de Glicose – e ele faz isso se tornando resistente à Insulina.

Porque se a Insulina liga, mas não faz a sua ação, os transportadores de Glicose não sobem para a membrana das células e não captam Glicose.

Ah! E só um detalhe: se a Glicose não está entrando na célula, a Glicose se torna aumentada no sangue. É por isso que uma pessoa com Resistência à Insulina vai ter a Glicemia alterada.

Então todos esses marcadores, eu poderia citar aqui um por um, e explicar o que eles significam nesse cenário de regulação energética.

Todos eles conseguem mostrar para nós que o corpo está falando: “Calma, tem energia demais aqui! Vamos dar uma segurada”.

Por isso que eu falo que o colesterol é um bom marcador.

Todos eles, o LDL, o HDL, as razões entre eles – você pode calcular, por exemplo, a razão entre Triglicerídeos e colesterol – enfim, todos eles são bons marcadores, mas eles indicam que o corpo está num estado metabolicamente prejudicado. Eles não são a causa do problema, eles são só indicativos.

Guilherme: Eles são basicamente uma luz que acende para avisar que tem um problema. Se você só apagar essa luz, não vai resolver o problema.

João Gabriel: Exatamente.

Por isso que simplesmente pegar um alimento que reduz o colesterol: “Ah, vou começar a fazer vitamina com linhaça”, achando que isso vai reduzir o meu colesterol.

(Na nossa opinião, é melhor pegar essa linhaça e usar para fazer um pão low-carb delicioso.)

Beleza, pode até reduzir o seu colesterol, mas você está só “apagando a luz”, como você acabou de falar. Você não está indo na raiz do problema para eliminar o problema.

E aí, onde a gordura saturada e o aumento do colesterol pelo aumento de gorduras entram nessa história? Entra justamente no ponto do aumento de colesterol.

Se você tem uma pessoa saudável que passa a consumir mais gordura saturada, ela tem boas chances de apresentar um aumento de colesterol. Algumas vão, outras não.

Mas se ela apresenta um aumento no colesterol, nesse caso, não é um problema.

Por quê? Porque, como eu falei antes, o colesterol aumentado não é uma causa futura de uma doença cardiovascular.

Ele só é um indicativo de que metabolicamente o corpo não está bem, no caso de uma pessoa que ganha peso, que desenvolve Resistência à Insulina, mas no caso de uma pessoa que só come mais gordura saturada, ele aumentou por aumentar, digamos assim.

É uma resposta natural do corpo. Só isso. Então como não existe um problema real por trás, esse aumento também não é problemático. Ele é só uma resposta natural do corpo que algumas pessoas respondem dessa forma e outras não.

Guilherme: Excelente.

E quando você menciona esses níveis alterados – acho que você mencionou especialmente o LDL, claro, e as razões – o que a pessoa, quando ela recebe o exame de sangue dela, o perfil lipídico, enfim, o que ela precisa estar de olho?

O que ela pode olhar para saber se ela tem que investigar mais a fundo e ver se tem algum problema?

João Gabriel: Então, eu sempre recomendo olhar em conjunto.

Principalmente o colesterol LDL, os Triglicérides e a Glicemia. Hoje, geralmente o HOMA-IR já vem calculado junto com a Glicemia, principalmente quando se faz o exame de Insulina, Insulina Basal.

Mas o colesterol LDL, a Insulina e os Triglicerídeos, os três junto são importantes e, lógico, o peso da pessoa e a circunferência abdominal.

Mas se você olhar esses três exames no exame de sangue, eles vão conseguir te indicar.

Você pode se basear nos valores de referência que lá têm lá do laboratório, mas a minha sugestão seria que olhasse com um pouco mais de cuidado porque os valores de referência acabam sendo um pouco abrangentes demais.

Então, por exemplo, uma pessoa que está com Glicemia de 90 ou até 88, por exemplo, só que Triglicerídeos de 120, ela pode achar que está relativamente bem.

E ela está: ainda está relativamente bem, se comparado com várias e várias outras pessoas.

Mas, com esses valores, o corpo já está começando a dizer que algo não está certo.

O balanço energético do corpo já está pendendo para um lado de excesso. Isso sem falar do colesterol LDL, ou até mesmo do colesterol HDL. Às vezes nem precisa.

Como eu falei, todos esses marcadores sempre apontam para a mesma direção.

Existem outros fatores que podem modificar todos esses valores, mas eles geralmente estão apontando para a mesma direção e é justamente essa: de que existe um desbalanço metabólico, um desequilíbrio energético no corpo quando eles começam a se tornar alterados.

Quando eles começam a aumentar – ou no caso do colesterol HDL, quando ele começa a diminuir.

Então é sempre bom ter um pouco de atenção nisso e o Triglicerídeo é bem interessante nesse sentido porque ele é o marcador, desses mais clássicos que indicam saúde metabólica, que é mais volátil.

Então ele mais rapidamente responde à composição corporal da pessoa e a própria alimentação.

Então para você saber se metabolicamente você está bem, olhar para os Triglicerídeos no curto prazo é sempre bom. Sempre é um bom indicativo.

Inclusive, juntando o que a gente falou antes sobre refluxo, dieta low-carb e saúde metabólica agora, um dos principais indicativos de que uma dieta low-carb geralmente faz bem para a saúde metabólica, são os próprios Triglicerídeos.

Independentemente do que acontece com os outros marcadores, ele geralmente responde muito bem, melhor do que as outras intervenções.

Talvez não melhor do que a Dieta Mediterrânea (porque existem outros detalhes nessa história), mas a dieta low-carb sempre faz os Triglicerídeos responderem bem e isso indica o efeito metabólico que a gente vê com as dietas low-carb.

Não à toa as dietas low-carb – saindo um pouco do assunto, mas na verdade tem tudo a ver – são, até hoje, as que melhor mostraram resultados no sentido de diminuir a Esteatose Hepática, que é a gordura no fígado. E a gordura no fígado é muito importante em toda essa história.

Muita gente acha que é só uma coisinha: “Ah, eu estou com uma gordura no fígado e está tudo bem, mas o resto está bem, o Doutor disse que está tudo certo. É só cuidar um pouquinho da alimentação”. Mas ali é onde tudo começa.

Nós achamos que não, mas o fígado apresenta esse acúmulo de gordura justamente por aquilo que eu estava falando antes: apesar de nós acumularmos energia, principalmente no tecido adiposo, que fica principalmente embaixo da pele, quando o corpo está começando a exceder essa capacidade de acúmulo de tecido adi



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Podcast #028 – Nutri João Gabriel Abre O Jogo Sobre Refluxo, Colesterol E Dieta Low-Carb

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