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Acampamento de bike em Ivoti

Era só mais um dia de tédio. Estava no apartamento do meu pai, clima de chuva, todos de férias, festas de final de ano, aquela tranquilidade nas cidades que todos fogem em épocas comemorativas. Então decidi sair de bike, acampar, passear, respirar, viver. Até então estava sem rumo, mas iria na direção de Ivoti. Peguei a bike, amarrei nela a barraca com fita isolante, comprei duas garrafas de vinho, umas latas de sardinhas, e estava pronto pra ir.

saindo

No início da tarde segui em direção à serra, saindo de Novo Hamburgo, pedalando num ritmo calmo e constante, em uma velocidade boa. Botei meus fones de ouvido e me deixei guiar pela música, arte que sempre me fascina e me transporta pra outra realidade. A sensação de estar na Estrada, seja correndo, de bike, de carro ou de qualquer outra forma, é a mais pura sensação de liberdade. Você não tem rumo, pode dobrar aqui ou ali, o passado não te acompanha mais e o futuro não te perturba, apenas a brisa da estrada é a realidade, o momento presente, o elixir da vida. E pedalando, temos mais prazer ainda, pelo esforço físico e mental dedicado à atividade, embalado por sons, cheiros e melodias. Parei para tirar fotos de Motor Homes, descansei em paradas de ônibus para tomar água, e entrei numa estrada que me levaria a lugar nenhum, exatamente meu destino. Ali a chuva apertou, mas não tinha o que temer, pelo contrário, ela me renovava as energias e refrescava a alma, num ambiente então rural, em meio à estrada federal. Bois e vacas pastavam tranquilamente no seu embalo usual, seguindo sua rotina calma e tranquilamente, curiosos com minha passagem por ali, mas indiferentes aos meus anseios. Não, eu não era uma ameaça para eles, nem eles para mim. E tinha a natureza vibrante ali, nos unindo e fazendo uma corrente de pura vibe positiva.

vaquinhas

A chuva cessou, voltei pela federal, e subi a ladeira que inicia a serra gaúcha. Portishead era a trilha sonora, me deixando mais introspectivo, curtindo mais o momento, passeando pelo acostamento da estrada. O visual do lugar é deslumbrante, com paredões rochosos úmidos, mata muito verde e árvores grandes à esquerda, uma estradinha de uma pista para cada lado serpenteando a encosta do morro, e um vale profundo de verde e mais verde, cintilante com a chuva.

entrada Até que cheguei na entrada de Ivoti, um portal de arquitetura alemã, creio eu, anunciando uma nova cultura. Eu já estava passeando ao lado da bicicleta, afinal estava numa extensa subida, e ainda não sabia quanto mais pedalaria, tinha que administrar minhas energias. Cheguei até um posto de gasolina, onde comprei um picolé e uma cerveja mexicana, e segui minha viagem até meu destino que já se formava em minha mente. A curiosidade brotava dos olhos de todos que me viam, com uma mochila nas costas, uma barraca amarrada na bicicleta e um mistério de onde teria vindo e pra onde iria. Os que tinham a oportunidade de conversar comigo, me questionavam a rota e me parabenizavam pelo passeio, desejando boa sorte. Na verdade, estavam em seus trabalhos pensando na simplicidade da minha trip, enquanto tinham que cumprir seus deveres. Eu estava ali, sozinho, humilde, simplesmente vivendo. Acho que, no fundo, todos eles queriam largar tudo ali, pegar uma bike e umas roupas e seguir comigo. Acho que, no fundo, era eu que queria que fosse assim.

Segui tomando minha cerveja pelas ruas simples de Ivoti, longe da cidade, em direção ao meu camping.

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Agora, pedalava entre subidas e descidas, em estradas que mais pareciam veias de concreto entre a mata atlântica, passando por pontes, casas abandonadas e moradores felizes e simpáticos. E eu estava ficando exausto, esgotado fisicamente, mas minha mente voava de alegria, a liberdade me energizava e me garantia sempre os próximos quilômetros de pedalada. E já estava perto do início da estrada do meu destino. Aliás, estava já entrando.

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Quando avistei a estrada de chão à minha esquerda, uma mistura de alívio e satisfação me tomaram cada célula do corpo, afinal tinha pedalado 18 km aproximadamente, subindo e descendo ladeiras, e meu corpo estava esgotado, liberando 100% da minha atenção puramente à alma que transbordava alegria. Desci pela estrada de chão molhada numa velocidade adrenalizante, derrapando e desviando de pedras maiores, berrando feito louco entre a selva, louco para chegar no camping. Já não chovia mais há tempo, mas o cheiro de terra molhada me lembrava as brincadeiras de criança após um banho de chuva. O som da natureza selvagem é impressionante, nos relaxa e eleva a vibração a um nível superior, diferente do que temos na cidade.

arvores

Ao chegar no camping, escolhi o lugar mais isolado, ao lado de um rio, para ficar tranquilo lendo meus livros e curtindo minha liberdade, tirando o fato de que somente eu ocupava o camping. Uma moça veio então, e me sugeriu que ficasse embaixo de um dos quiosques, sem custo adicional, pois a previsão era de uma chuva forte durante a noite e o próximo dia. Aceitei o convite e fui para baixo do teto, onde tinha ali uma churrasqueira, uma mesa grande, bancos e vassoura. Estava muito bem acomodado, exceto pelo fato de ter que dormir sobre a pedra, e eu não havia levado nada para amortecer meu sono. Ao meu lado, havia uma cabana de madeira, com uma barraca na varanda, mas sem hóspede no interior dela. Foi quando comecei a me divertir. Abri uma garrafa de vinho, começei a tomar e preparar o meu jantar, a escrever e desenhar, ouvir música e ler, e tudo que eu queria fazer estando 100% sem responsabilidades para aquela noite. Jantei algumas sardinhas e atuns, acendi uma fogueira dentro da churrasqueira e passei a esquentar água dentro da garrafa vazia de vinho que eu acabara de tomar. Já havia filosofado comigo mesmo, conversado sozinho e me contado histórias. Os insetos noturnos começavam a me fazer companhia, o silêncio da noite na floresta me ensurdecia e me obrigava a colocar meus fones de ouvido em busca de companhia divertida. Estava bêbado, sozinho, no meio do mato, entre galinhas e bambuzais, o rio cortando a mata com seu suave rugido eterno, e minha noite se estendia tanto por prazer como por falta de vontade de me deitar na pedra. Fiz algumas sopas instantâneas, comi biscoitos, e me diverti sozinho. Passei umas 7 ou 8 horas somente na minha própria companhia, criando personagens embriagado e refletindo sobre minha vida e meu atual estado de espírito. Sempre fui um cara meio isolado, e isso me faz bem, faz eu conviver com meus problemas e solucioná-los com o simples fato de análise e conclusão da ínfima importância daquilo tudo sobre a beleza da vida. Quando se planeja muito, quando se sonha demais e se sofre demais por atitudes tomadas, matamos o tempo precioso de nossas vidas, os segundos vitais da nossa existência, esquecendo que a vida não é feita de passado ou futuro, e sim do presente. Não importa o que fizemos, ou o que faremos, e sim quem somos, quem estamos sendo, e o que estamos fazendo. Já dizia o ditado hippie: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”. Então, o que tu farás?

instalacoes

Acabei me divertindo tanto à noite, que após uma garrafa e meia de vinho, o cansaço físico me sobrecarregava e minha alma estava pronta pra descansar, mas nem toda aquela uva fermentada me deu a coragem suficiente para ignorar a dureza da pedra e descansar meu corpo. Porém, me deu coragem suficiente para ir até a barraca da cabana vizinha, sabendo que não tinha nenhum habitante e que, provavelmente, não voltaria naquela madrugada, até o dia raiar. Então, entrei na barraca e encontrei um colchão macio, onde me estiquei e me permiti o descanso. Infelizmente, minha consciência me culpava o tempo inteiro pela invasão, mesmo considerando a necessidade. Não me sentia confortável, ainda mais pelo cheiro absurdamente forte de mofo que tinha, talvez pela humidade dos últimos dias. Aquela barraca precisava de um ar puro, uma corrente de vento forte e renovador, e eu também. Foi quando eu saí da tenda que vi duas poltronas sem braços em frente à cabana, e achei uma forma honesta de repousar. Mas antes, cruzei a chuva que separava minhas instalações do vizinho fantasma, fiz mais uma sopa quente e voltei para me atirar sobre meu novo leito.

cabana Dormi até o amanhecer. Quando levantei, reconheci que havia passado uma noite maravilhosa, que minhas energias se multiplicavam, mesmo com todo aquele desgaste físico. Porém, a chuva estava mais forte, as galinhas circundavam minhas instalações, a bagunça sobre a mesa me sugeria a hora de arrumar as coisas, e seguir a viagem de volta. Afinal, eu queria me renovar, e isso com certeza havia acontecido. Eu queria mudar de atmosfera, e a natureza me aliviou as tensões. O tédio do apartamento foi superado por uma longa pedalada introspectiva e desgastante, assim como uma renovação na alma. Eu precisava voltar, afinal não tinha mais suprimentos para simplesmente ficar ali, olhando pra chuva, pras galinhas e para mim mesmo. Para se manter em equilíbrio, é preciso estar em movimento.

Win Então comecei a limpar os restos da noite anterior, desmontar a barraca, relembrar aos poucos os momentos únicos que tive ali, e me preparar para a volta. Embalei a mochila em algumas sacolas, para evitar que molhassem muito, tirei a camisa por acreditar que ela não teria efeito em me manter aquecido se estivesse molhada, e segui minha viagem de volta. Sem dúvida, quem acompanhou minha estada ali no camping Behne, se questionou dos meus motivos de ir embora debaixo daquela chuva, de ter passado a noite ali e de ter escolhido aquele lugar pra ir, de ter ido, nada fazia sentido. Mas o sentido da vida é esse, viver em movimento, sem rotas ou rumos, sem planos ou arrependimentos, simplesmente sendo. Subi o morro de estrada de chão, que mais parecia um passeio em meio à um lamaçal, até encontrar a estrada de asfalto. No alto da serra, o frio é mais intenso, e em dias de chuva ele pode atrapalhar, mesmo em época de verão. Assim foi minha volta, pedalando contra a chuva, desejando logo chegar em casa, mas reconhecendo o exaustivo e distante caminho que me separava entre o camping e meu repouso na casa do meu pai. Era cedo, e eu pedalava pelo acostamento de menos de um metro da estrada da serra gaúcha. Após uma longa pedalada, sofrida pelo frio e pelo cansaço do dia anterior, eu estava inteiramente esgotado, molhado, com frio e fome, louco pra comer um almoço de verdade e descansar numa cama confortável, até que cheguei na entrada do prédio, novamente contente por ter pedalado 14 km de volta, com as condições antes citadas, e chegar em casa com um bom humor e uma sensação de realização. Na verdade, a chuva tornara o meu passeio de volta um desafio prazeroso e recompensador. Eu tirei uma foto no momento que entrei direto para o banheiro, larguei o peso que me puxava as costas, tirei meus tênis e meias, coloquei uma bermuda seca e dei um sorriso sincero que traduziu toda aquela viagem.

Top Hapiness

Então almocei, voltei pra casa e me deitei, descansei profundamente, um sono relaxante, me renovando as esperanças de novas e novas viagens como esta, curtas, longas, perto, longe, para a serra ou para as planícies, mas sempre intensas, aproveitadas ao máximo. Assim são os melhores momentos da nossa vida. Não temos orgulho de fotos nossas nos sofás, assistindo televisão ou estudando para provas, mas temos orgulho de um sorriso sincero e espontâneo, que traduza a beleza da vida. Volto para a cidade como um corpo penado vagando pelas ruas, cruzando sinaleiras e desviando de carros, mas minha alma mais viva do que nunca. MT folha

Não deixe de curtir o vídeo dessa aventura:




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