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Dois mil e qualquer coisa

                                                   "

mantinha os livros que se deveria ler para sobreviver aos remorsos”
Garcia Marquez, em: “Viver para contar”

       A gente vive vestindo o ano novo e desvestindo o velho toda vez que cruza por essa fronteira do tempo (tempo esse fatiado no poema do Drummond que vive rondando as redes sociais). Apaguei as velas de 2015 certo de acender a de dois mil e qualquer coisa engajado na fé do horizonte adiante que meu nariz.
         Se vou conseguir? Ainda não sei, mas soprei. E, confesso: fiquei ofegante, esbaforido. O problema maior é que a gente não consegue separar a vida, vis-à-vis, da poesia. É um avalanche de otimismo que ronda a virada de ano e aí tudo se mistura e vai dar nas sobras do banquete do primeiro de Janeiro.
      Mas não desdigo: 2015 foi um ano que não vai se acabar da memória. Ficará rastejando entre cochicho de rapariga e comentário de economista na GloboNews. Ano que a gente, quando lembrar, vai gerar um friozinho na espinhela e o trunfo final: EU SOBREVIVI. Isso mesmo, vencido no gogó, no peito e na etnia de cada brasileirinho pé-de-chinelo que nem eu.
        Vencer o quê? Toda essa corrupção sem meter uma bala na cabeça ou uma faca no precórdio. Se bem que ainda vem o imposto de renda e mais lava-jato. O projétil ainda pode estilhaçar meu cérebro, pois o tambor do revolver estará girando com o cano apontado para o céu da minha boca.
       Quem poderá me aliviar desse infortúnio será Moro e a Policia Federal, nossos heróis republicanos dos tempos modernos. Eles têm a chave do milagre da cadeia para 2019, pois dezesseis e os outros anos, segundo os babalorixás da economia, já foram pro ralo e só veremos resquícios dele nos anais de história do futuro - mesmo que os anais fiquem pra frente e nos acerte na ampola do Reto.
       Para me refazer dessa ziguezera até dois mil e qualquer coisa vou-me empanturrar de versos dos grandes poetas para sacudir minha alma, dar a volta por cima lá em Pasárgada. Também tomarei uns comprimidinhos de prosa anti-melancolia, à prova de bala, mas em doses máximas de Sildenafil, para sobreviver aos anos vindouros. Se resistir terei bom prognóstico e futuro ereto.
      Para isso convoquei os livros que ainda não li e meus parceiros de literatura, como José de Jesus Camargo (Zero Hora, Porto Alegre), Raimundo Sodré, Amauri Braga e Paulo Renato (O liberal) e o Elias Pinto (Diário do Pará). Também tem as subversões do Antonio Corisco, que diligencia os versos do Canil, essa ONG de vira-latas que vez por outra rosna à porta de boteco e nos faz rir feito Papai Noel.
        No campo assistencial tem ainda o Chico Chiquinho, filho da Margô que vive longe e fica me dizendo que o depois de amanhã é logo amanhã, só para eu logo visitá-lo. Tem ainda o natal dos ribeirinhos, que o meu irmão David faz no Tucumanduba e, como diz o Berê, é sentimento altruísta injetado direto na veia, com jelco 14, o mesmo que se usa nas salas de emergência. Sem esquecer o Abel Sidney, de Porto Velho, que carrega sua sagacidade nas palavras desde quando nos conhecemos às margens do rio Machado, que vai dar no Madeira.
        Para esses tenho endossado o fervor da fé nas palavras e ações. E que resolvi tomá-las pra mim, como o vinho do cotidiano, e fazer dessa cantilena a água de beber no cantil do meu imaginário de escrevinhador de bugigangas.
          Então, que venha 2016.

Labareda do bando de Corisco


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