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Scoop

O tema de Novembro do #lerosclássicos era um Livro sobre guerra.



Dados os tempos conturbados, a minha reacção imediata foi pegar no Good Soldier Svejk, por ser sátira. Dadas as suas 750 páginas, troquei-o por Scoop, de Evelyn Waugh, igualmente satírico. Tenho uma amiga que fala frequentemente do problema de "começar a ler um autor pelo seu melhor livro". A verdade é que li Brideshead Revisited há vários anos (pré-blog), li entretanto o Decline and Fall, e nem esse, nem aqui o Scoop, se igualaram à primeira experiência. E é interessante ver como a maioria dos primeiros trabalhos do autor caem na sátira e comédia, ao passo que Brideshead Revisited é, apesar de vários momentos cómicos, um livro de índole mais séria.


Scoop é, como já disse, uma sátira, sobre jornalismo e a indústria da comunicação em geral, com base nas experiências e nas de contactos de Evelyn Waugh enquanto correspondentes de guerra aquando da invasão da Abissínia pela Itália (Waugh trabalhou para o Daily Mail) em 1935, no período entre guerras. Aqui, a guerra é civil, num país africano fictício, Ishmaelia. O humor roça o absurdo e o ridículo: temos John Boot, autor de livros popular, que pretende um cargo no estrangeiro, quiçá como correspondente de guerra, para fugir a uma mulher, e William Boot, um primo afastado, de origens rurais e humildes, que colabora com o jornal numa coluna de opinião sobre questões mais bucólicas; e a confusão de identidades que daí advém.


News is what a chap who doesn't care much about anything wants to read.


O livro é problemático, e é melhor tratar disso agora: racismo colonial casual, n-word, características raciais estereotipadas. Mas também os personagens brancos (coloquemos assim) são ridículos, snobs, caricaturados, até porque se há algo sobre o qual Waugh sabe escrever, é o declínio das classes altas. A apropriação de matérias primas e riquezas por parte do colonizador também é, aqui, mal vista. Não digo que fosse inevitável a postura de Waugh, ou que seja, inevitavelmente, "produto do seu tempo", mas sobrevive a uma leitura crítica, na minha opinião.


Lord Copper, dono do Daily Beast, sabe que algo se passa em Ishmaelia, mas não tem grande certeza. Como o seu melhor correspondente mudou para o Daily Brute, ele precisa de alguém. Sendo-lhe recomendado John Boot, mas vendo um artigo de William Boot, acaba por chamar este último para Londres e o emprego é-lhe dado na hora.


Não obstante este mal entendido, William Boot parte para Ishmaelia após profunda confusão com a documentação e os vistos, com uma panóplia de bagagem inútil e absurda. Chegando ao seu destino, conhece imensos outros jornalistas, todos eles em busca de comunistas, fascistas, da prometida guerra civil. Na ausência de grandes eventos, todos eles começam a inventar notícias para enviar às suas entidades empregadoras, algo que William se recusa a fazer, enquanto recebe telegramas ininteligíveis.


I read the newspapers with lively interest. It is seldom that they are absolutely, point-blank wrong. That is the popular belief, but those who are in the know can usually discern an embryo of truth, a little grit of fact, like the core of a pearl, round which have been deposited the delicate layers of ornament.


Boot tem várias aventuras e desventuras, e ri-me frequentemente alto. É o meu terceiro Waugh, e não é o favorito, é claro - mas é uma óptima história, uma óptima crítica à sociedade britânica, à política externa, ao jornalismo sensacionalista e exagerado.


Não merece ser cancelado pelo tipo de conteúdo. A narrativa está brilhantemente construída, detalhada, divertida. Não importa o cenário - banquete da alta sociedade, país colonial, escritório do jormal -, Waugh consegue fazer tudo. Inclusive, talvez, resolver o meu reading slump.


4/5


Podem comprar uma outra edição em inglês na wook, na Book Depository ou na Bertrand; ou em português, na wook ou na Bertrand.



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