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O Natal em Hollywood


   Não que fosse ruim passar o natal cercado por estrelas Hollywoodianas, tomando champanhe e cantando jingle bells, mas o Hollywood que conheci hoje não tem letreiro em paisagem paradisíaca, nem carros importados circulando, nem mesmo calçada da fama, mas é muito mais interessante que tudo isso. 
   Por alguns dias antes do Natal, com o intuito de agradecer pelas conquistas do ano que se passou, me juntei a alguns bons amigos e nos dedicamos a angariar fundos para comprar e doar cestas básicas. Bem, foi saindo do supermercado, logo ali, em um bairro um pouco afastado de onde moro, que descobri estar o verdadeiro Hollywood. 
   Com as cestas ainda na mão, fui abordado por dois garotos que vigiavam os carros, me tornando rapidamente "o irmão do pai deles", que com uma espetacular cara de pau, sem nenhum medo de ganhar um não, disseram quase que em uníssono: - Tio, me dá uma dessa?! 
   O destino pensado como final para aquelas cestas não estava ali no estacionamento do supermercado, mas eles entoaram esse pedido como se, de alguma forma, soubessem que tinham direito líquido e certo sobre duas delas. É, eles tinham mesmo. Mas antes eu queria descobrir quem eram os jovens atrevidos.
   Perguntei ao primeiro deles qual era seu Nome, e me respondeu um nome complicado, estrangeirado, que sustentava, com certeza, alguns ipsilones e dáblios. Neste momento, enquanto eu decifrava as sílabas que acabara de escutar, me surge um terceiro garoto. Sim, ele espetacularmente "surge" de baixo de um carro estacionado ali perto, todo empoeirado e com cara de sono. Provavelmente foi o lugar mais fresco que encontrou pra tirar um cochilo depois da hora do almoço, não que tivesse mesmo almoçado.
   O empoeirado se pôs no meio de todo mundo e eu perguntei logo o nome dele, porque apesar do sono, ele parecia ter pressa na situação. Este era mais fácil, José, Antônio, João ou algum desses genuinamente brasileiros. Então ficou por ali, escorado no carro de onde saiu, esperando o que sairia daquela conversa mole que eu iniciava. 
   O terceiro, que na verdade era o segundo que eu tinha visto, antes do Ninja Das Sombras de Carro, estava mais desconfiado, ressabiado a alguns metros de mim e, quando eu finalmente perguntei seu nome, ele, lendo o boné de aba reta que tirou da cabeça, se apresentou:
- Hollywood! 
- Pois bem, Hollywood, ta afim de levar uma cesta também? 
- To. 
- Então fala aí teu nome de verdade, porque o apelido eu já vi que é bacana. 
Hollywood pensou, como quem procurava um nome mais óbvio pra ele mesmo e disse sem muita certeza: - Chico.
   Ta que Chico é outro apelido, mas ficou evidente que ele não queria dizer o nome de verdade. Me dei por satisfeito mesmo assim. 
   Na sequência, comecei a questionar os três sobre quem eram os pais, se estudavam, quantos irmãos e onde moravam. O "Ipsilone Dáblios" morava num lugar meio complicado, e eu querendo entender melhor, fui surpreendido com a seguinte pergunta: 
- Tu é burro, é?! 
- Como é?! Tu é meio folgado, né?! To afim de trocar uma ideia com vocês e tu me chama de burro?!
- Pois parece! 
   Eu estava mesmo com muita dificuldade em compreender o CEP do garoto, que no fim era fácil. Talvez eu tenha merecido o "burro". E esta rispidez sagaz, malandra, retirada do mais profundo âmago do ego da cultura das ruas, me conquistou, apesar de ver questionado o meu intelecto. Mas ele era folgado mesmo.
   Depois de mais algum papo ali no estacionamento, saímos rumo à casa dos três. Hollywood seria o último, porque morava longe pra caramba, mas ele não pareceu muito confortável com isso, pois continuava desconfiado, calado e quieto enquanto o Ninja das Sombras de Carro já cantava e dizia que era aquela a profissão dele e o Ipsilone, com a "meiguice" que já se mostrara  característica, dava mais algumas respostas no meu olho e na dos meus amigos que estavam também nessa saga. 
   Depois de encontrar a casa e a família do Ninja e entregar a cesta pra ele, Hollywood relaxou um pouco o semblante e deu algumas risadas, como se só naquele momento tivesse confiado na nossa boa intenção, porque a carroceria do carro cheia de cestas não foi o bastante. 
   Entregamos o Ipsilone folgado e falador, junto da sua cesta, também pra sua família, até que restou só o Hollywood e nós no carro. 
   Aí que desbravamos um pouco mais nas ruas de Hollywood, quando ele falou da sua família, na qual, no alto de seus 12 anos, é o irmão mais velho, e briga um pouco com as suas irmãs mais novas. Nem pude dar bronca, tive que confessar-lhe que fazia o mesmo com meu irmão mais novo quando com aquela idade. Ah, tem um irmãozinho na barriga também, que parece esperar bastante ansioso. Deve ser um outro menino com quem vai poder jogar bola. 
   Descobrimos também que Hollywood está estudando e jurou que só vai pro estacionamento vigiar os carros quando não está na escola. Agora está de férias e vai mais vezes. Em 2015 estará na 6ª série, com muito orgulho. 
   Foi bom ver que Hollywood estava mais tranquilo com a gente, então pude arriscar perguntar o seu nome de novo, ao que ele respondeu sem titubear: Harle. 
   Harle. É um bonito nome. Deve ser esse também o verdadeiro nome da Hollywood californiana, pois o garoto de aba reta convence quando sustenta a alcunha que ele mesmo inventou. Me sinto honrado em ser um dos poucos a saber esse segredo. 
   Como um "tio" que se preze eu perguntei sobre as namoradas (ele tem uma no colégio, mas parece que vai ficar um pouco conturbado o relacionamento, porque vai precisar trocar de escola no ano que vem. Uma pena, ele demonstrou muito carinho pela Nicole. Espero que fiquem bem) e o que ele queria ser quando crescer: 
- Bombeiro!
E a esta última pergunta, ele demonstrou tanta certeza, que nos dedicamos alguns instantes a calcular em quanto tempo ele será bombeiro. Com 19 anos ele vai estar apto a prestar a prova, foi nossa conclusão. Aconselhamos que ele estude bastante até lá, pra que possa garantir esse sonho. Mas eu, vendo o brilho nos olhos do garoto desconfiado, fiquei com plena convicção de que daqui 7 anos, a minha casa estará livre de fogo, pois gozará da vigilância do Soldado Bombeiro Harle, o grande Hollywood. 
   O papo está bom, mas enfim e infelizmente, chegamos a casa dele: a última casa do último bairro da cidade. Ainda bem que era tão longe. Assim deu pra conhecer melhor o pequeno bombeiro. 
Saí de lá com um pouco de dificuldade, mas sabendo bastante sobre o pedaço da Califórnia que vive em Roraima. Dentre todas, a melhor coisa que ele confidenciou foi, sem dúvidas, a esperança de um futuro bom, no qual já não haverá carros pra vigiar, mas, sim, algumas vidas pra salvar. 
O Natal em Hollywood foi inesquecível. 



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