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Psico-(se)-pata, nasce.

O sol de meio-dia invadiu pelas falhas da empoeirada cortina rebu de veludo; o quarto era abafado, amontoado de móveis baratos e porcarias espalhadas pelo chão, reinavam os ácaros e alguns outros pequenos seres insignificantes naquele ambiente quase fétido. Limpou a baba, tirou as remelas dos olhos e como em uma lente “olho-de-peixe” percebeu os vestígios da metanfetamina  ainda saindo do organismo; levantou cambaleante, usava apenas um sutiã de renda preto, aos tropeços catou uma samba-canção jogada no chão, pegou também um cigarro pela metade e o acendeu no toco de vela ainda acesa sobre o criado-mudo;  tentou abrir a janela, contudo suas pupilas não suportaram tamanha claridade. O aquecedor estava quebrado há semanas e uma infiltração no banheiro fez com que a rede de luz tivesse o efeito estrobo, colaborando com o aspecto asqueroso do kit-net. Ligou o chuveiro, colocou as Pontas Dos dedos percebendo sua covardia perante o frio, esperneou estremecendo de raiva, chutou o lixo, esmurrou o espelho, quebrando-o; cuspindo termos inapropriados aos quatro ventos, enrolou sua mão em uma tira de papel higiênico, a fim de conter o sangramento causado por aquele soco esdrúxulo.  Pegou na beira da pia a ponta de Mary, queimando os lábios o finalizou com uma tragada de um beijo quente, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo muito do mal feito, resgatou do cesto de roupa suja um short jeans surrado e uma camiseta preta, cheirando-a embaixo das mangas (as quais exalavam um forte odor) virou a camiseta do avesso e a vestiu; bochechou um pouco de água com creme dental, enfiou algumas notas de baixo valor amassadas no bolso e saiu, aos trancos, chutando a bagunça da casa.

Pupilas ainda relutantes, olhos comprimidos, mãos inquietas no cabelo, passos apertados e rápidos. Entrou no supermercado e comprou: papel higiênico, molho de tomate, 6 bananas, veneno de rato, uma toalha de rosto, fósforos e patê de Atum. Sorriu para a moça do caixa. Entrou na farmácia, pesou-se e reclamou com uma senhorinha de idade Seus quilos excedentes, alguns risos escaparam, dirigiu-se então para o balcão, no qual comprou 3 vidros de paracetamol e 4 cartelas de Doryl. Seguiu calmamente, agora com a mente mais relaxada para uma pequena lanchonete de esquina, comprou uma coxinha e um suco de caju e enquanto degustava vagarosamente sua comida, pescava a conversa entre donas de casa, na qual uma desabafava um belo corno levado do marido; queria se intrometer, palpitar, mas sua paz interior era demasiadamente grande para isso. Voltou para casa pela beira do rio, apreciando a paisagem e a sombra das árvores. Ao chegar, trancou seus dois gatos velhos e ranzinzas no banheiro, ligou o rádio, comeu duas bananas jogando as cascas no canto da pia, pegou um pote de plástico e despejou o patê de atum, moeu todas as cartelas de doryl, o veneno de rato e os despejou juntamente com os 3 vidros de paracetamol no patê, misturou e deixou escapar um sorriso gordo de maldade. Abriu o vitrô da área de serviço e posicionou o pote, sentou-se sobre a máquina de lavar; enquanto folheava uma Rolling Stone antiga, olhava discretamente aquele gato albino sarnento desgraçado a se esbaldar no patê de atum – o tal do gato havia passado sarna para os seus, dando-lhe um puta trabalho desnecessário para lidar – ao término do “lanchinho”, o gato pulou para fora e em menos de 10 minutos ouviu-se ele miar desesperadamente. Pendurou-se nas pontas dos pés no vitrô e apreciou sua vitória. Na cozinha encheu uma caneca de café amargo frio, golou e foi para o quarto, aumentou o som do rádio, se jogou num Puff atrás da porta, a sua frente havia uma foto colada na parede de uma mulher com cabelos encaracolados, olhar malicioso e sujo, abraçada à um homem alto, com cara de apaixonado. Acendeu um cigarro encontrado no chão, pegou os 5 dardos espalhados ao lado do puff, puxou a fumaça, prendeu a respiração, acertou 3 dardos na cara da vadia, 1 no peito dele e outro no dela, soltou a fumaça. Deixou sua cabeça cair sobre o puff, fechou os olhos e ficou refletindo o por quê dos malditos direitos humanos, suspirou e lamentou:

– Mas que porra de empatia obrigatória do caralho, merda!

Acendeu outro cigarro.




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