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É Lula ou nada


Nem a esperança quase fantasiosa que caracteriza o pensamento de alguns setores da esquerda é capaz de ignorar o fato de que vivemos, como disse Raduan Nassar, tempos sombrios. Nos falta tudo, excetuando a boa intenção, para empreender qualquer transformação mais acelerada da estrutura social brasileira. A começar Pela revelação de que a ideia da estabilidade democrática e da rigidez institucional que, durante os últimos 20 anos, tanto nos assoberbou e nos diferenciou de outros países latino-americanos mostra-se tão falsa quanto um abraço de tamanduá. E quando soma-se a isso a vertiginosa vulnerabilidade do povo às ideias fascistas e o completo desinteresse pelas conquistas civilizatórias dos últimos dois séculos, quase não sobra fôlego para lembrar que estamos diante de um projeto excepcionalmente organizado de sucateamento dos serviços públicos no Brasil. 

Do ponto de vista político, tanto o impeachment quanto os desdobramentos econômicos da segunda etapa do golpe mostraram que a “voz das ruas” é um sussurro perto dos berros da institucionalidade. Menos pela fragilidade organizativa dos movimentos sociais e mais pelo desinteresse do brasileiro médio em eventos políticos cujos potenciais de comoção nacional são restritos. Fortemente influenciada Pela Imprensa, que ao desistir do jornalismo em nome do entretenimento agudiza a imbecilização das pessoas, a opinião pública silencia em relação às contradições do establishment. A surpreendente parcimônia só parece interrompida quando prejudicadas as reivindicações pontuais da vida cotidiana – como se viu nas manifestações contra a reforma da previdência. Por outro lado, curiosa e contraditoriamente, o eleitorado parece amadurecer a impressão de que tais reivindicações pontuais poderiam ser atendidas por meio de um projeto neoliberal e não mais pela “benevolência” social.

Com isso, dois elementos começam a se misturar perigosamente no Brasil. Por um lado, a permanência daquele sentimento de fracasso da intervenção estatal ameaça a manutenção de um Estado minimamente organizado em torno de políticas sociais, faz coro à política de austeridade do atual governo e fortalece a chamada nova direita – cuja plataforma econômica foi vitoriosa nas eleições de 2016. Por outro lado, nessas fissuras democráticas e na medida em que a esquerda se mostra incapaz de superar o abstracionismo humanista e oferecer soluções práticas para questões relativas à segurança e ao desemprego, se edifica um [res]sentimento anti-democrático e o cenário político se abre para plataformas abertamente fascistas.

Essa dinâmica é potencialmente trágica, pois desgostosa com a morosidade tucana uma parcela importante do eleitorado conservador manifesta o interesse de aventurar-se por paisagens mais medonhas. Não por acaso, o segundo candidato mais lembrado pelo eleitorado brasileiro na pesquisa espontânea é Jair Bolsonaro – com três vezes mais intenções de voto que os principais candidatos à presidência em 2014. A tragédia aqui é que, como na metáfora lacaniana, o eleitorado reconheça num projeto fascista sua imagem refletida e que esse procedimento de identificação se complete com uma surpresa ao estilo Donald Trump. O fato é que Bolsonaro, mais do que qualquer outra figura pública, é capaz de extrair a exata reivindicação que emerge das profundezas mais obscuras do sentimento popular.

Nesse contexto, as críticas à hegemonia lulista parecem ignorar o fato de que, para além de Lula, não há saída imediata na política. Pelo contrário, a retomada desse ciclo, com lentas reformas e acomodações de interesses, são as pré-condições mínimas para qualquer projeto futuro na esquerda. Se o lulismo não é um fim, fica mais do que evidente que ele é, no mínimo, um meio - um meio para que a esquerda possa prosseguir. Líder em todos os cenários de todas as pesquisas, atacado abertamente pela imprensa e pelo judiciário, Lula é o único nome da centro-esquerda capaz de, por um lado, dialogar diretamente com o povo e, por outro, retomar a estabilidade democrática com uma condução política mais progressista. Ou mais do que isso, ignorado o afresco utópico de uma sociedade politizada, Lula é a única chance de garantir que, ao menos, não saiamos das sombras para ingressar na mais completa tenebrosidade.


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