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Amar sem condições prévias

Georgino Rocha

A ALEGRIA DO SENHOR É A NOSSA AMIZADE FRATERNA

A despedida última de pessoas amigas está sempre recheada de confidências, desabafos e recomendações. É humano, uma exigência do coração e da experiência de vida em relação. É humano, uma garantia de memória feliz no tempo de ausência e de privação. É humano, um elo de ligação entre quem parte e quem fica. É humano, é comunhão.
Jesus vive integralmente a sua humanidade. O ser quem é, Deus humanado, em nada o priva de desvendar horizontes novos ao homem/mulher, à relação interpessoal, à sexualidade humana, ao respeito e cuidado da criação e das criaturas. E como o rio que se mostra no caudal que corre para o mar e lança braços pela terra, originando enseadas e irrigando campos, Jesus faz-nos remontar à fonte primeira do amor, seiva nutriente da comunhão e de toda a relação humanizada. João, o discípulo amado, guia hoje a nossa reflexão na peregrinação a este manancial divino e a alguns dos seus rostos humanos, salientando atitudes fundamentais. (Jo 15, 9-17).
A contraluz, fica em realce o que podemos observar na sociedade actual e nos múltiplos escaparates dos centros de interesses que a movem, especialmente na área dos afectos e dos gostos, das causas e dos efeitos, da opinião publicada e da mentalidade a querer sobrepor-se como ideologia predominante. Salvas muitas e honrosas excepções, por vezes heroicas, o que se destaca na imagem social são sinais de atração fácil e sedutora, de gostos de ocasião, prazeres momentâneos e utilidade funcional, de interesses ao alcance da mão, privilegiando os meios e esquecendo os fins, como lembra Einstein, prémio Nóbel de física, e tantas outras coisas. Este ilustre pensador acrescenta: “Minha condição humana me fascina…Gostaria de dar tanto quanto recebo, e não paro de receber”.
“Como o Pai me amou, também Eu vos amei”, afirma Jesus aos discípulos. A medida está definida. O amor de Jesus por nós tem o selo de Deus Pai. Ele é a fonte de todo o amor. E nós somos chamados a acolher, a apreciar, a viver e testemunhar este amor, na medida possível, sempre prontos a aumentar as suas margens. João, na sua narrativa, destaca pontos fundamentais do amor humano recheado de seiva divina. Vamos deter-nos perante alguns, os mais emblemáticos.
Guardar os mandamentos, é o primero requisito do amor. De contrário, surge o desvio, o desligar a corrente, o andar por conta própria, sempre arriscada. Obedecer a quem nos ama é aderir a quem nos quer bem e aponta vôos de liberdade. É confiar e acompanhar. É crescer em sabedoria e maturidade. É ter regras, conhecer e respeitar o todo da pessoa. “Como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai”, diz-nos Jesus. Bendita obediência que nos liberta de impulsos caprichosos e abre horizontes de esperança e de plenitude.
Amar sem condições prévias. Gratuitamente. De preferência os mais frágeis e dependentes. Das periferias ou dos centros. Cheios de si ou vazios de nada. Com voz na praça pública ou remetidos ao silêncio dos gemidos. “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei”. A qualidade está indicada. A Palavra e o agir de Jesus constituem o padrão de referência. Palavra que, em resposta a Filipe, fica como perpétua memória: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Agir que no lava-pés e na última ceia, a da instituição da eucaristia, tem o selo mais autêntico e expressivo. Gestos coroados com o mandato: “Fazei isto em Minha memória”.
Conhecer a Palavra de Deus. O que Jesus disse/diz e fez/faz constitui o cume da revelação de Deus, fica como memorial na Palavra e nos sacramentos, e como marcos de iluminação para a leitura cristã da vida corrente e dos acontecimentos do mundo. A familiaridade com as Escrituras converte-se em amor a Jesus, em luz de ajuda preciosa à consciência que aspira sempre a tomar decisões livres e fundamentadas. “Se alguém me ama, guarda a Minha palavra, meu Pai o amará…e faremos nele a Nossa morada”.
Saber-se escolhido para dar fruto. De alegria e paz, de serviço e prece, de amor e missão, de verdade no falar e de coerência moral no agir. Fruto de se fazer pessoa, de ter sempre no horizonte o desenvolvimento integral, do bem comum, do “homem novo”, Jesus Cristo. De ser amigo.
Na mensagem aos Jovens, a 23 de Junho de 2017, o Papa Francisco afirma que “ hoje, a palavra «amigo» tornou-se um pouco desgastada” e garante “que um conhecimento superficial não é suficiente para ativar aquela experiência de encontro e de proximidade à qual a palavra «amigo» faz referência”; que “só há verdadeira amizade quando o encontro me leva a participar na vida do próximo, até ao dom de mim mesmo”. E, cheio de compreensão empática valorativa, adianta: “Faz-nos bem pensar no modo como age um amigo: acompanha-me com discrição e ternura no meu caminho; ouve-me profundamente e sabe ir além das palavras; é misericordioso em relação aos defeitos, é livre de preconceitos; sabe partilhar o meu percurso, levando-me a sentir a alegria de não estar sozinho; não me favorece sempre mas, exatamente porque quer o meu bem, diz-me com sinceridade aquilo que não compartilha; está pronto para me ajudar a levantar, cada vez que eu caio”.
A palavra e o exemplo de Jesus são a melhor garantia de que viver em amizade fraterna é possível, desejável e necessário. A Mãe de sangue, que hoje carinhosamente evocamos, é a certeza de que o amor é mais forte do que a morte. A aspiração do coração humano é satisfeita pela doação divina. Obrigado, Senhor Jesus!

Georgino Rocha


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