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Museu Bordalo Pinheiro: um salto para a contemporaneidade

João Alpuim Botelho, 10 de Outubro de 2017, Museu Bordalo Pinheiro. Foto de Ana Carvalho

João Alpuim Botelho é desde 2014 director do Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. Alia o profissionalismo com o humor, não fosse este um museu sobre a obra de um personagem único e extravagante que personifica o humor no séc. XIX – Rafael Bordalo Pinheiro. Um salto para a contemporaneidade pode muito bem ser o que caracteriza o modo como se entende ser o coração da actividade deste museu. Fomos conhecer melhor o percurso deste museólogo, as suas motivações e o trabalho que desenvolve com a sua equipa no Museu Bordalo Pinheiro. Por Ana Carvalho

Não podia haver melhor forma de ser recebida. A meio do jardim do Campo Grande, em Lisboa, encontro Cláudia Freire, museóloga do Museu Bordalo Pinheiro, que me reconhece e acompanha até ao museu e ao encontro de João Alpuim Botelho, que já me aguardava, ainda antes da hora marcada. Sou então conduzida pelo director do museu pelas salas de expo- sição, numa visita guiada com paragens incisivas que me dão a conhecer a razão de ser deste museu, aberto ao público desde 1916. Entramos, assim, no universo Bordaliano.

Quem foi este homem singular no seu tempo? Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) ficou conhecido pelos cartoons que publicou nos jornais de que era proprietário e pelos trabalhos na fábrica de cerâmica que ajudou a fundar. Poderia ser o que hoje apelidamos de designer, seguramente um designer fora do comum. Homem de grande talento, usufruiu da liberdade que tinha ao serviço do humor e da sátira mordaz à política vigente e à vida em sociedade do séc. XIX. «Não foi o primeiro caricaturista português, mas foi o homem que a tratou com mais respeito e talento, tendo feito da caricatura uma arte maior», sublinha João Alpuim Botelho. E acrescenta: era «um performer da vida», é isso que «está por detrás de tudo o que o Bordalo fazia». A inovação é outro traço que caracteriza Bordalo. Também ficou conhecido por ter criado a figura do Zé Povinho e seus manguitos, mas a sua obra é bem mais vasta e multifacetada, como se comprova durante a visita ao museu.

Rafael Bordalo Pinheiro, Museu Bordalo Pinheiro

Poderá dizer-se que o Museu Bordalo Pinheiro é fruto do amor e do humor. O museu foi fundado por Cruz Magalhães (1864-1928) – poeta, panfletário, crítico e humorista –, que após a morte da mulher decidiu superar o desgosto desta perda dedicando-se ao coleccionismo, em particular à constituição de uma colecção centrada na obra humorística de Bordalo e subsequentemente a construção de um museu, que é tido como um dos primeiros edifícios construídos de raiz para albergar um museu e o mais antigo em funcionamento no nosso país.

Depois de uma “viagem” pelo espírito Bordaliano, ingressamos numa outra viagem – na trajectória de vida e pensamento de João Alpuim Botelho, director deste museu há três anos e meio. A conversa continua no seu gabinete, no último piso da antiga moradia de Cruz Magalhães (nas traseiras do museu) –, entrecortada pelos sons da cidade que entram janela adentro. Peço-lhe para se descrever como profissional. Hesitante, prefere falar antes da forma como vê os museus, e aquilo que na sua opinião reside o seu potencial, ou seja «a possibilidade de os museus se transformarem em janelas para outros temas, e de um tema se relacionar com muitos outros». A motivação de todos os dias está na paixão com que se dedica ao trabalho, na vontade de fazer as coisas, e pelo facto de nos museus «podermos fazer muitas coisas diferentes», sublinha. Acrescenta que nesta profissão há um «lado de risco que precisamos de ter». A «vontade de conhecer mais e a curiosidade» são outros aspectos que con- sidera importantes. Não obstante, confessa que a par com «uma grande ansiedade para fazer muitas coisas, às vezes, é preciso refrear».

Quando lhe pergunto que conselhos daria a alguém que pretenda trabalhar em museus refere a experiência que teve recentemente na selecção de candidatos para lugares em museus. Para além do background académico, que não é de somenos importância, valorizou-se sobretudo a «experiência de vida» (como o envolvimento em actividades culturais e/ou associativas) e o «contacto com diferentes realidades». «Esse enriquecimento pessoal é muito mais importante do que acabar um curso com média de 18 valores sem ter havido contacto com o mundo do trabalho», afirma.

João Alpuim Botelho, 10 de Outubro de 2017, Museu Bordalo Pinheiro. Foto de Ana Carvalho

Viana – Lisboa – Viana – Lisboa

Embora a família seja de Viana do Castelo foi por acaso que lá foi nascer durante as férias, corria o ano de 1967. Mas foi em Lisboa que João Alpuim Botelho cresceu e estudou. Fez o curso de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas «nunca quis dar aulas, queria fa- zer outras coisas», ressalta. Começou por trabalhar no Centro Nacional de Cultura com Helena Vaz da Silva e Maria Calado, que reconhece como tendo sido «uma enorme escola para fazer coisas».

Aos 23 anos decidiu ir viver para Viana levado por uma ideia romântica de regresso à vida na província. Na Câmara Municipal de Viana do Castelo fez de tudo um pouco na organização de actividades culturais: do te- atro às festas, até chegar aos museus, e a um museu em particular – o Museu do Traje, cuja génese acompanhou e mais tarde dirigiu (1999-2009). Foi nessa altura que fez o mestrado em Museologia e Património (2007) na Universidade Nova de Lisboa. Da experiência em Viana há dois aspectos importantes que guiaram o seu trabalho. Por um lado, a ligação dos trajes tradicionais ao território, que procurou estabelecer criando uma rede de núcleos museológicos etnográficos nas freguesias rurais (entretanto desactivada). Por outro lado, mais do que um discurso fechado e hermético sobre a tradição em moldes fixados e imutáveis, considerou sempre mais importante a ênfase nos valores simbólicos e identitários, e a atenção (e abertura do discurso) a novos usos e apropriações contemporâneas das tradições.

Da experiência de trabalho em Viana foi referência substantiva o etnógrafo Benjamim Enes Pereira, com quem colaborou de perto. Lembra a influência que o etnógrafo teve na própria forma de olhar a lógica da musealização de sítios com valor etnográfico, que implicasse ter em con- ta uma reflexão crítica a montante sobre a perda de funcionalidade dos mesmos, e a premência de rever a “necessidade” efectiva da “preservação pela preservação” indiscriminada, sem atender a aspectos tangíveis como a sua sustentabilidade a longo termo, entre outros aspectos.

Um interregno de três anos (2002-2005) levou-o ao Porto para o cargo de director executivo da Culturporto, uma associação de produção cultural privada financiada pela Câmara Municipal do Porto, que era responsável pela gestão do Teatro Rivoli e pela animação da cidade. Estávamos então no rescaldo do Porto 2001 Capital Europeia da Cultura e vivia-se um contexto de grandes expectativas a nível de programação cultural. Com essa experiência «aprendi muito; em termos de estratégias de produção, e de como temos de jogar com orçamentos para que não seja um entrave às ideias e à vontade de fazer as coisas».

De volta à Câmara Municipal de Viana do Castelo ainda chegou a ocupar o lugar de chefe de divisão dos museus. O que o levou então a mudar-se para Lisboa? – perguntamos. João Alpuim Botelho não esconde o desalento. Estávamos na altura da troika, vivia-se uma conjuntura desfavorável à vontade de fazer, «começou a ser difícil desenvolver um trabalho com algum interesse e aí comecei a olhar à volta, para onde podia ir.» Veio de facto para o Museu de Lisboa em Setembro de 2013 e logo depois surgiu o convite para coordenar o Museu Bordalo Pinheiro, funções que passou a desempenhar em Fevereiro de 2014.

Visita guiada ao Museu Bordalo Pinheiro, com João Alpuim Botelho, 10 de Outubro de 2017. Foto de Ana Carvalho

Museu Bordalo Pinheiro: do esquecimento à revitalização

Há um fio condutor no trabalho desenvolvido no Museu Bordalo Pinheiro nos últimos três anos e meio, como sublinha o director: «O que tenho tentado fazer é abrir o museu». Como? Em parte, através de uma programação regular «que traga mais pessoas, e que sintam o museu como seu». Mas para alcançar este objectivo foi necessária a montante uma reestruturação orgâni- ca e administrativa. «O Museu Bordalo Pinheiro esteve muito tempo ligado ao Museu de Lisboa – na altura Museu da Cidade –, e só em 2013 se auto- nomizou, o que significa que este era um museu que durante muito tempo tinha estado subalternizado na estrutura dos museus; estava um pouco esquecido».

A passagem do Museu Bordalo Pinheiro para a alçada da EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, empresa pública da Câmara Municipal de Lisboa), em Julho 2016, foi outro passo importante. Reconhece que o processo deu início a mudanças internas significativas muito absorventes, a começar pela adaptação a uma nova lógica de trabalho, mas também ao nível da equipa. Da anterior equipa apenas ficaram três pessoas e outras seis saíram. Foi necessário seleccionar novas pessoas para ter uma equipa estabilizada e operacional. Além de contar actualmente com uma equipa permanente de nove pessoas, parte do orçamento é destinado também à contratação de profissionais externos, recorrendo a uma bolsa de colaboradores. Globalmente, o saldo é muito positivo, tal como sublinha: «estamos numa empresa municipal que trata de cultura e, portanto, falamos a mesma “língua”, temos os mesmos objectivos, estamos em sintonia na maneira como se põem as coisas. O que senti quando trabalhei em câmaras é que éramos nós a puxar quando queríamos desenvolver um projecto, aqui, muitas vezes, temos o conselho de administração a puxar por nós.»

Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro, Museu Bordalo Pinheiro

A contemporaneidade entra no museu: Será que o Bordalo gostava?

Marcar o compasso dos museus com a contemporaneidade nem sempre é fácil nem evidente para muitos museus. Numa visita ao Museu Bordalo Pinheiro não é difícil compreender as potencialidades da obra de Bordalo na sua relação com os temas que fazem a actualidade. Do séc. XIX para o séc. XXI nem tudo mudou assim tanto… Que relação tem o ataque Charlie Hebdo com Bordalo? Desde há três anos a esta parte, o Museu Borda- lo Pinheiro fez coincidir o aniversário da morte de Bordalo com um dia de reflexão e debate sobre liberdade de imprensa. Através do Bordalo? Sim, porque a liberdade está, de certo modo, ligada à própria figura do Bordalo: «esta pode ser também uma pedra de toque de todo o seu trabalho», sublinha. Trazer a contemporaneidade para a programação do Museu Bordalo Pinheiro significa implicar como princípio condutor em tudo o que se faz a seguinte interrogação: «Será que o Bordalo gostava? Isso permite-nos tocar muitos instrumentos». Trata-se «de ter a ambição de encarnar um bocadinho do espírito Bordaliano», explica. E acrescenta, esta tentativa de «abrir à contemporaneidade» não deixa de ser também um «enorme desafio e gozo». «Temos neste museu uma equipa Bordaliana muito motivada, que tem gozo por fazer as coisas e as fazer crescer».

O que se segue?

A celebração do centenário do museu (2016) é reveladora do dinamismo que se pretende imprimir, que, aliás, só terminará oficialmente no final de 2017 com uma grande exposição de cerâmica assente numa selecção das melhores obras de Bordalo. Além disso, abriu-se uma nova sala de exposições temporárias e actividades – a Sala da Paródia – e inaugurou-se uma outra exposição no Largo de S. Julião, num espaço junto à Câmara Municipal, intitulada Bordalo na Baixa, mais direccionada para os turistas.

Há planos para reformular a exposição permanente, «transformar o discurso» reforça, tornando-o também mais operacional, nomeadamente alterar as tabelas, que reconhece não serem muito “amigáveis”. «Percebemos que as pessoas vêm ao museu com uma predisposição para se divertirem, com vontade de sorrir. É muito importante aproveitarmos esse embalo para contar as coisas com um sorriso», tirando partido de uma grande mais-valia neste museu – o humor.

Captar mais visitantes é também uma ambição do museu. «Queremos mostrar que é muito fácil chegar aqui», sublinha. Por outro lado, a exposição permanente terá também os textos dos painéis e tabelas em inglês, facto que por ora só acontece para os textos mais genéricos, de forma a atrair também mais turistas estrangeiros.

Museu Bordalo Pinheiro

  • Tutela: Câmara Municipal de Lisboa (EGEAC)
  • Museu de arte, colecções de diferentes tipologias (azulejaria; cerâmica; desenho; equipamentos e utensílios; escultura; espólio documental e manuscritos; fotografia; gravura; mobiliário; pintura, têxteis, entre outras)
  • Colecção total: cerca de 13 200 objectos
  • Colecção em exposição: 253 objectos
  • Área total de exposição (incluindo exposições temporárias): 536 m2
  • Biblioteca: cerca de 2 090 monografias e 2 596 periódicos
  • Equipa: 9 pessoas
  • Média de visitantes 2016: 6 500

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Este texto foi originalmente publicado no Boletim do ICOM Portugal na secção “Museus & Pessoas”. Para citação:

Carvalho, Ana. 2017. “Museus & Pessoas: João Alpuim Botelho.” Boletim ICOM Portugal, série III, n.º 10 (Out.): 49-56. http://icom-portugal.org/boletim-icom-pt/


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