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Tiago – A Bíblia Livro Por Livro

■ Conteúdo: um tratado consistindo em uma série de pequenos ensaios morais, enfatizando a perseverança no sofrimento e a vida cristã responsável, com uma preocupação especial no sentido de que os cristãos pratiquem o que pregam e vivam em harmonia

■ Autor: Tiago, irmão de nosso Senhor (G11.19), que liderou a igreja em Jerusalém por muitos anos (At 15; G1 2.1-13) — embora muitos questionem essa autoria

■ Data: desconhecida; as datas atribuídas à composição da Carta vão de meados da década de 40 d.C. à década de 90 d.C., dependendo da autoria que se atribua a ela; as estimativas de uma data mais antiga são mais prováveis

■ Receptores: os fiéis em Cristo entre os judeus da Diáspora

■ Ocasião: desconhecida, mas o tratado mostra uma preocupação quanto à situação real nas igrejas, incluindo diversas provações, discórdias causadas por palavras duras e de julgamento e abuso dos Pobres pelos ricos

■ Ênfases: a fé prática por parte dos cristãos; alegria e paciência em meio às provações; a natureza da verdadeira sabedoria (cristã); as atitudes dos ricos em relação aos pobres; o bom e o mau uso da língua

VISÃO GERAL DE TIAGO

Tradicionalmente, a carta de Tiago tem sido lida como uma coleção algo aleatória de instruções éticas para os cristãos em geral. Contudo, provavelmente há mais ordem nessa carta do que parece à primeira vista. Seus principais interesses são delineados em 1.2-18, que basicamente assume a forma de uma consolação aos cristãos no exílio: as provações podem ou testar para produzir o bem (v. 2-4,12) ou tentar ao mal (v. 13-15); a sabedoria é a dádiva de Deus para que suportemos e tiremos proveito das provações (v. 5-8,16-18); aos olhos de Deus, a posição elevada do rico e a inferior do pobre são invertidas (v. 9-11).

A seção seguinte (1.19—2.26) é dividida em três partes, unidas pela preocupação de Tiago quanto a que seus ouvintes coloquem em prática a sua fé — no nível bastante prático da fala e da atenção aos pobres. Ele começa denunciando as contendas na comunidade, insistindo em que as pessoas realmente façam o que a palavra diz, não apenas falem sobre isso (1.19-25). O autor aplica isso especialmente à língua e ao cuidar dos pobres (v. 26,27), e então às atitudes erradas em relação aos ricos e aos pobres (2.1-13). Ele conclui a seção onde começou, insistindo em que a fé precisa ser acompanhada pelas obras apropriadas a ela (v. 14-26).

A seção seguinte (3.1—4.12) retorna ao assunto da discórdia dentro das comunidades cristãs. O autor começa tratando da língua, essa eterna criança birrenta (3.1-12; cf. 1.26), visando nesse caso particularmente os mestres da igreja. Voltando ao problema da verdadeira sabedoria, que conduz à paz (3.13-18; cf. 1.5-8), Tiago então ataca diretamente as discórdias entre eles (4.1-12).

Enquanto a primeira menção à sabedoria (1.5-8) é seguida de uma bênção aos pobres e advertências aos ricos, aqui, em ordem invertida, há uma palavra dupla aos ricos (4.13-17; 5.1-6) e um chamado a que os pobres que passam por aflição demonstrem paciência (5.7-11). A carta termina com uma advertência contra os juramentos (v. 12), um chamado à oração — especialmente a oração pelos doentes (v. 13-18) — e uma exortação à correção dos desviados (v. 19,20).

ORIENTAÇÕES PARA A LEITURA DE TIAGO

A carta de Tiago, há que admitir, é penosa de ler do começo ao fim; seu estilo é de começos e paradas, guinadas e reviravoltas. Mas além dos fios temáticos que dão coesão à carta, observados acima, há várias outras questões que ajudarão o leitor a obter uma compreensão melhor.

Em primeiro lugar, quanto ao conteúdo, você perceberá que se trata de uma carta variada, todos os temas visando especificamente o comportamento cristão, não se tratando de apresentação doutrinária. Ela inclui um bom número de ditos e aforismos que remetem à sabedoria do Antigo Testamento por um lado e aos ensinamentos de Jesus por outro. Isto é, assim como os Evangelhos Sinóticos muitas vezes apresentam o ensino de Jesus na forma de ditos — que às vezes ecoam a sabedoria judaica —, o mesmo ocorre em Tiago. Isso é visto tanto na ênfase do autor na sabedoria em si quanto na natureza frequentemente aforística do que ele diz. Nessa linha, você também deverá observar os ecos frequentes dos ensinamentos de Jesus (p. ex., 1.5,6; 2.8; 5.9,12). Como em todos os escritos da sabedoria judaica (v. “Os Escritos de Israel na história bíblica”, p. 141), o interesse aqui não é doutrinário ou lógico, mas prático; o teste da veracidade do que se diz está em seu funcionamento na realidade da vida cotidiana.

Em segundo lugar, quanto ao aspecto formal da carta, Tiago apresenta de certa forma um tom de sermão. Enquanto lê a carta, observe os vários recursos retóricos que ele emprega, especialmente alguns que refletem a diatribe greco-romana (v. “Orientações para a leitura de Romanos”, p. 376) — o tratamento direto (“meus [amados] irmãos”, 14x), as perguntas retóricas (p. ex., Tg 2.3-7,14,21; 3.11,12,13; 4.1,5) e o uso de um interlocutor imaginário (2.18-20; 4.,12,13,15). Assim, o uso que Tiago faz da tradição da sabedoria não tem qualidade proverbial, mas de sermão; ele espera persuadir os leitores, visando à mudança na maneira como o povo de Deus vive em comunidade uns com os outros.

Em terceiro lugar, não ceda ao hábito, o que é fácil nesse caso, de ler Tiago como se a carta se direcionasse a cristãos individuais e tratasse do relacionamento individual deles com Deus e com os outros. Nada podería estar mais longe dos interesses de Tiago. Desde o início, sua paixão é pela vida na comunidade cristã. Embora seja verdade que cada um

precisa assumir sua responsabilidade individual para que a comunidade seja saudável, o interesse da epístola não é tanto pela piedade pessoal quanto pela saúde das comunidades. Deixar de perceber esse aspecto é deixar de perceber o interesse que permeia essa carta do começo ao fim.

Finalmente, é preciso ler as seções sobre os ricos e os pobres com cuidado (1.9-11,27; 2.1-13; 4.13—5.6), já que não é fácil determinar se ambos os grupos aqui pertencem à comunidade cristã. Seja como for, Tiago está decididamente — assim como toda a Bíblia — do lado dos pobres. Os ricos são consistentemente censurados e julgados, não por causa de sua riqueza em si, mas porque ela os levou a viver sem levar Deus em consideração e assim abusar dos desprovidos com quem Deus se importa.

UMA CAMINHADA POR TIAGO

□ 1.1-18 Saudação e introdução aos temas da carta

Aqui Tiago introduz a maioria dos seus principais assuntos. Observe como, depois de uma típica saudação de carta (v. 1), ele passa imediatamente à questão das provações, exortando-os à alegria, porque as provações geram a perseverança e levam à maturidade (v. 2-4; introduzindo 5.7-11). Em seguida, ele os exorta a que orem por sabedoria (1.5; introduzindo 3.13-18), insistindo em que a oração precisa ser acompanhada pela fé para ser eficaz (1.6-8; introduzindo 5.13-18). Isso leva ao assunto principal do autor, a questão dos pobres, a quem oferece esperança, e dos ricos, que ele adverte (1.9-11; introduzindo 1.27—2.13; 4.13—5.6); observe aqui os ecos de Isaías 40.6-8, versículos que também estão num contexto de conforto aos exilados. Voltando à questão das provações e testes, ele observa que a provação pode passar à tentação (uma única palavra grega designa ambas as idéias), pela qual não se pode culpar a Deus (Tg 1.12-15), concluindo que Deus, antes, concede apenas boas dádivas, especialmente a dádiva de nos “ger[ar] pela palavra da verdade” (v. 16-18).

□ 1.19—2.26 Colocando a fé em prática

Enquanto você lê essa seção, atente para como o seu conteúdo dá a ela alguma coesão. Começando com a raiva e com a língua, Tiago exorta

os leitores a viver a palavra que eles ouvem, especialmente com respeito à língua e a ser caridosos para com os pobres (1.19-27). A caridade para com os pobres significa não mostrar favoritismo pelos ricos; fazer isso é pecado, e fazer distinção de pessoas — não demonstrar misericórdia — significa se colocar sob julgamento (2.1-13). Finalmente, ele ataca aqueles que entendem a fé como mero assentimento verbal às doutrinas nas quais se crê; falar sobre a fé sem se preocupar concretamente com os pobres — isto é, a fé sem ação — é o mesmo que estar morto (v. 14-26).

□ 3.1—4.12 Discórdia na comunidade

Você pode reler 1.19-27 antes de ler essa seção. Aqui Tiago se volta à grande questão da discórdia nas comunidades cristãs, começando com o que se tornou sua exposição clássica sobre o uso e o abuso da língua (3.1-12); a língua é “um mal que não se pode conter; está cheia de veneno mortal” (v. 8). Você consegue se identificar com isso? Semelhantemente à admoestação anterior contra “a fé sem obras”, aqui ele está preocupado com a questão de a mesma língua ser usada para adorar a Deus e para amaldiçoar os outros. Isso por sua vez leva diretamente ao retorno do tema da sabedoria (3.13-18), o autor contrastando a sabedoria divina com a falsa e insistindo em que a verdadeira sabedoria consiste em ser puro e amante da paz.

Observe que essas duas questões (a língua e a sabedoria) servem, juntas, para introduzir o tema crucial das discórdias na comunidade cristã (4.1-12). Tiago expõe, respectivamente, as raízes pecaminosas das discórdias (v. 1-3), sua natureza mundana (v. 4,5) e a necessidade da humildade (v. 6-10), retornando no final aos abusos da língua, que incluem o ato de julgar os outros (v. 11,12).

□ 4.13-5.11 Aos ricos e aos pobres

Observe que essa é a terceira vez que Tiago trata da questão dos ricos e dos pobres, sugerindo que se trata de uma questão importante para o autor. Embora não possamos ter certeza, ele parece se dirigir primeiro aos ricos cristãos, que lidam com seus negócios de uma forma mundana (4.13-17). A isso se segue uma denúncia áspera dos ricos

proprietários de terras (aparentemente não cristãos), que abusam dos seus trabalhadores, não pagando o que lhes devem (5.1-6).

Finalmente, voltando à questão das provações, provavelmente se dirigindo aos pobres em aflição, ele mais uma vez exorta à perseverança (v. 7-11; cf. 1.3).

□ 5.12-20 Exortações finais

As exortações finais parecem estar ligadas de maneira mais vaga aos temas que as precedem. O autor começa falando sobre os juramentos (v. 12), claramente ecoando o ensinamento de Jesus (Mt 5.33-37); ele então se volta à oração e à fé (Tg 5.13-18; cf. 1.6-8), demonstrando uma preocupação especial pelos pobres (os “doente[s]” nesse caso). Ele conclui com uma bênção sobre aqueles que reconduzem os desviados (5.19,20). Observe a ausência de qualquer conclusão típica de carta.
Tiago é a contraparte do Novo Testamento da tradição judaica de sabedoria, agora à luz dos ensinamentos de Jesus. Embora às vezes se leia Tiago em contraste com Paulo, na verdade ambos estão em perfeito acordo quanto à principal mensagem de Tiago ao longo da carta: a primeira coisa que se deve fazer com a fé é viver segundo ela (cf. G1 5.6).



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