Sobre a iniciativa do MPRJ de exigir torcida única nos clássicos do Rio

“Só podem estar de sacanagem”, pensei, quando ouvi a notícia. Mas, infelizmente, é sério e é verdade. Em seu programa radiofônico de ontem (quinta), Washington Rodrigues sintetizou o que penso a respeito: “Isso é de uma estupidez que não tem tamanho”.

Parece uma daquelas típicas medidas baseadas na noção de que “está demais… alguma Coisa precisa ser feita”. Ora, dependendo do que se vá fazer, melhor não fazer nada.

Confesso que estou com preguiça e sem tempo de elencar todos os motivos que sustentam minha opinião. Um deles: provavelmente o MPRJ não sabe, mas a porrada também estanca entre Torcidas do mesmo time. Isso acontece há décadas, e já vi in loco ou ouvi histórias nas torcidas dos quatro grandes clubes do Rio. Há coisa de dois meses, o pau cantou na Tijuca depois de um jogo de basquete – entre torcidas do Flamengo. Aí vão fazer o quê? Proibir também a torcida do time da casa? De repente é uma ideia: Flamengo x Vasco no Maracanã, mas só pode comprar ingresso quem for botafoguense. (Deve ter botafoguense desempregado esfregando as mãos, pensando no quanto lucraria como cambista, repassando os ingressos aos flamenguistas e vascaínos.) Ou gringo! Taí, grande ideia! Vamos vender ingressos só para colonizadores: ingleses, italianos, holandeses, esse povo ordeiro e tranquilo que frequenta os estádios da Europa. (Ainda bem que ninguém do MPRJ lê o meu blogue, do contrário, periga a ideia aparecer numa próxima ação proposta pelo órgão.)

Para piorar, leio na notícia que “na ação, o promotor pede, ainda, que os clubes cadastrem e mantenham atualizadas, mensalmente, as informações de suas torcidas organizadas, identificando cada um dos integrantes por nome e CPF“. Ora, o clube não é responsável pelas torcidas organizadas. Isso é a coisa mais óbvia do mundo – quer dizer, estou vendo que, para o MPRJ, não é. Nas situações em que o clube ajuda as torcidas organizadas, ok, responsabilize-se o clube e seus dirigentes. Mas, a priori, clube é uma coisa; torcida é outra. “Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”, como eu costumava dizer na primeira aula de Metodologia Científica.

Até onde eu sei, o direito de associação ainda é livre no Brasil. As pessoas se juntam para formar uma torcida (que é uma forma de associação). Ora, o que o clube tem a ver com isso? Que poder tem o clube de intervir? O MPRJ quer transferir para os clubes uma parte do monopólio da violência e do controle que pertence ao Estado? Se a polícia civil, que tem a obrigação de manter atualizado um cadastro dos crimes, criminosos, foragidos etc., mal faz isso, como é que os clubes vão identificar os torcedores? Um funcionário do clube vai telefonar todo mês para a sede da torcida organizada para perguntar quem pagou a mensalidade e quem tá no pendura? Mandar a polícia investigar os crimes e produzir provas que ajudem à condenação dos criminosos não rola, né?

O MPRJ, é bom lembrar, pouco ou nada investigou/investiga o governo anterior do Rio de Janeiro, o governo atual, as milícias, o jogo do bicho, as relações entre empreiteiras e obras da Copa e das Olimpíadas, o telhado do Engenhão que ameaçou cair, a péssima qualidade das concessões públicas de transporte municipal e intermunicipal no RJ, os trens do ramal de Saracuruna que quebram todo dia, a catastrófica situação da rede estadual de educação e trocentos outros problemas. Por atos e omissões, ajuda a manter a impunidade do inacreditável número de homicídios cometidos pelas polícias do Rio de Janeiro a cada ano. E por aí vai… Mas agora arrumou uma solução para acabar com a bandalheira nos clássicos de futebol. Genial! (Pelo menos, a iniciativa não pede duas ações do amplo acervo de medidas geniais que já foram tomadas para acabar com o nosso futebol, quer dizer, com a violência das torcidas: pedir interdição do Engenhão e jogo com estádio vazio.)

Ainda segundo a notícia publicada no site do MPRJ, “vale lembrar que uma medida semelhante foi adotada nos clássicos do futebol paulista, resultando na redução em 75% no número de embates entre torcidas rivais.” Anteontem mesmo a porrada comeu em Santos depois de um clássico San-São, nesse novo modelo que se quer adotar aqui. Seria mais fácil pedir a instauração de estado de sítio, toque de recolher, essas coisas, e mandar todo mundo ficar em casa. Assim, talvez, ficássemos em paz. Ou não – que o digam os capixabas…




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